“Espero contar com todos os membros fazendo uma gestão aberta e participativa”

O lema de campanha eleitoral “Unidos seremos capazes” guindou David Capelenguela ao cadeirão de Secretário-Geral (SG) da União dos Escritores Angolanos (UEA), tornandose o 7º na sucessão da liderança daquela casa das letras. Há duas semanas, desde a sua tomada de posse, OPAÍS conversou com o novo SG, em relação às controvérsias da gestão cessante e os desafios que o aguardam para o triénio 2019-2022

Está na segunda semana depois de ter tomado posse como SG da UEA. Algumas dentre outras coisas de que se falava à surdina era a má gestão da direcção cessante. Em que estado encontrou a casa dos escritores?

É importante que as pessoas saibam de modo geral, em particular os escritores, sobre o que se passa na UEA. A UEA anda ao ritmo do país, porque sempre esteve tutelado pelo Mincult. O país não se encontra em situação financeira boa e o ministério logicamente não havia de estar. Sendo assim, a UEA sente-se profundamente afectada com esta situação.

O que quer com isso dizer?

Quero dizer que naquilo que é mais importante no que se refere à sua missão de edição obras literárias de membros da UEA nós estamos num nível muito baixo. E continuaremos assim, caso não haja nenhuma reviravolta financeira do ministério da tutela e no país de um modo geral.

Ainda não respondeu a minha pergunta. Como é que encontra a casa, SG?

Eu já sabia que não havia de encontrar uma situação financeira boa, e não é boa. O que temos de fazer é olharmos para o nosso programamanifesto e seguirmos com aquilo que nos propusemos a fazer para reverter o quadro.

De que forma pensa reverter esse quadro?

Há instituições no país e fora do país que estão interessadas na interligação de actuação às actividades com a UEA. Podemos ir fazendo as coisas que são possíveis. Por exemplo, tem de haver um plano de angariamento de fundos para esse efeito. Se nós esperarmos que o Mincult nos resolva a vida, não será agora que este problema será ultrapassado. Repito, há instituições que nos podem no mínimo ajudar a resolver esta situação. E isso precisa ser dinamizado. Interligação com feiras internacionais, com a UNESCO que lida com o livro, com universidades e temos escritores angolanos que a título individual vão fazendo isso.

Relativamente ao quadro financeiro da instituição, qual é hoje a situação dos salários dos funcionários da UEA, uma queixa que era que recorrente?

Meu caro, se tivesse feito essa pergunta há cinco dias, lhe diria que os salários ainda não foram pagos. Mas respondo-lhe com satisfação porque os ordenados de Maio estão sanados. E dou-lhe garantias que o pouco valor que encontrei, nos vai permitir pagar os salários dos meses de Junho e de Julho.

Não dirá de certeza que o montante encontrado embora, disse-o, seja pouco, a minha questão é: encontrou solidez que lhe permita caminhar face ao “travão” do Mincult?

Sim. Pelo menos para o que corresponda aos salários dos próximos três meses, há essa garantia. O resto vai ser a mesma ginástica, o mesmo esforço, que o mandato anterior fez na pessoa do seu SG cessante, para que consigamos honrar com os salários e manter a casa salubre, e sempre com aspecto para os olhos de quem nos visita. Estou optimista, porquanto temos já algumas portas a abrirem-se e quanto ao quesito salários e manter as portas abertas, há garantias.

A par das verbas alocadas pelo Mincult, a UEA tem património sob arrendamento. Já tomou contacto com esses contratos?

O património que a UEA tem, que na verdade é o espaço que temos aqui no quintal, a livraria logo à entrada, o Jango e as naves. É um património que é uma grande coisa como património, mas como lucro não é uma grande coisa. Devo dizer que a livraria está arrendada a 100 mil Kwanzas por mês. O Jango são 300 mil Kzs. Não tomei contacto ainda com os contratos do espaço que está com a Somague e das naves. Mas a informação que domino é que não sejam tão valiosos assim. O nosso salário não coberto com o património que a UEA tem.

A morte de Zacarias Mussambo ex-funcionário da UEA fez com que alguns membros se desvinculassem da instituição por alegarem não ter havido solidariedade por parte da direcção da UEA, no acompanhamento deste caso. Como pensa em voltar a reintegrar esses confrades?

Primeiro, nesse sentido devo dizer que nós lamentamos bastante a situação que envolveu o nosso colega Zacarias, que depois acabou resultando na sua morte. Era um jovem trabalhador com família constituída e com sonhos, mas infelizmente ocorreu uma situação drástica que não conseguimos controlar. Ele foi levado pela Polícia à esquadra entendendo esta que lá se resolveria o assunto e aconteceu, o que aconteceu.

Conhecemos parte deste episódio e é bom lembrar. Houve ou não solidariedade da parte da direcção da UEA?

Houve na medida em que tão logo se deu contacto com a informação da ocorrência de morte, a UEA constituiu logo um advogado, que foi acompanhado o problema. Mas como a justiça demora, o processo está em curso. E como a questão transitou para o foro judicial a UEA não tem como pôr a “mão” nesse processo, salvo se consultar o advogado para perceber a quantas anda o processo e isso tem sido a nossa responsabilidade e esperamos ver esse caso resolvido e que a justiça seja feita.

Os confrades em causa não dominavam essa essa informação?

Os confrades quer José Luís Mendonça como KG Bangala são pessoas de quem tenho muita estima, mas o assunto não terá sido bem interpretado. Houve de facto solidariedade e prova disso é que a UEA apoiou naquilo que esteve ao seu alcance por altura da realização do funeral. E, extensivamente, hoje a esposa do malogrado, é funcionária da UEA. Isso prova como disse antes, que houve de facto solidariedade mas que o processo não terá sido bem interpretado por esses confrades. O escritor José Luís Mendonça até onde chegou-me a informação, acabava de chegar de uma missão na Cátedra de Roma, enviado sob a chancela da UEA. E em momento algum chegou a ir ter com o SG, Carmo Neto, sobre o ocorrido para o esclarecimento devido. Partiu para uma acção daquela que todos acompanhamos e entendeu que devia fazer um abaixo-assinado e foi o que me constou, para a realização de uma assembleia extraordinária para que o assunto fosse esclarecido. Infelizmente não conseguiu reunir as 15 assinaturas previstas nos estatutos. E por isso, decidiu abandonar a instituição que particularmente lamentei.

Já contactou o escritor para uma abordagem sobre o caso?

Pessoalmente liguei-o e como o trato (Mestre), o que é que aconteceu? Está a sair da instituição por uma situação que devíamos conversar? E ele disse-me que sim, pois não se sentia confortável com a situação ocorrida. Mas não eu o SG, nem o liguei nas vestes de secretário administrativo que era o meu cargo, mas sim como amigo e membro da UEA. É um assunto que me parece que pode ser resolvido, conversando. Precisamos conversar mais. Nós os membros da UEA, precisamos transmitir-nos o afecto, o carinho. E tenho todo o interesse em encontra-me com o escritor Luís Mendonça. Damo-nos bem. É grande escritor que pode continuar a dar um grande contributo para este país em termos de literatura.

Quais são as prioridades para o seu mandato para o exercício 2019- 2022?

É grande um desafio e julgo que com todos numa gestão aberta e participativa, numa actuação conjunta podemos ser capazes. E como forma de dar presença da nossa actuação, no Dia da Criança Africana (16 de Junho), estamos a pensar em enviar alguns escritores para o Leste e para o Sul de Angola.

Qual é o objectivo dessa ida ou que farão esses escritores?

Vamos levar para essa missão escritores que estão ligados à literatura infantil, para falarem das suas obras, como uma forma de dizer que a UEA está com a criança africana. São lugares, até porque conheço a realidade dessas províncias, porque têm muito pouco do movimento cultural literário. E este será um ponto de partida da nossa actuação.

Quais são os outros?

Estas são as actividades micro. Quanto as macro, pensamos na criação de um centro de estudos literários com o objectivo de trabalhar com o movimento literário juvenil, estabelecer parcerias com instituições do ensino superior em matérias de cursos de extensão no domínio da literatura. Num olhar ao centenário do primeiro Presidente da UEA (Agostinho Neto), temos a intenção de participar em feiras, mesas redondas, em salões do livro e outros eventos internacionais. Filiar a UEA na Associação Panafricana de Escritores, a elaboração de um projecto de intercâmbio cultural com os países dos PALOPs. Temos ainda a necessidade de passar a saudar anualmente o Dia 17 de Novembro (Dia do Escritor e do Intelectual Africano), entre muitas outras acções.

Aquando da vossa eleição falou na necessidade de revisão dos estatutos da UEA. Vai efectivar?

Sim, daqui a mais ou menos três meses vamos realizar uma Assembleia Extraordinária, cujo objectivo é o de fazer a actualização e a revisão dos estatutos da UEA e adequalas aos novos temos. Há muita coisa que deva ser melhorada, a fim de evitarmos alguns conflitos como os que tivemos no passado. Era bom que fosse revisado com a presença de todos os membros da UEA, de modos a que tenhamos um estatuto que possa vincular a todos.

Também havia dito que deixava de haver uma Lista A e uma B, apenas a UEA. Como está o seu relacionamento com a lista vencida?

Sabe que aqui na UEA nem tudo está mal. Algumas coisas precisam obviamente ser melhoras, pois o olhar de fora é a mesma coisa de estar cá dentro. Encontrei uma casa boa à medida em que estamos todos comprometidos em trabalhar e fazer melhor. E como pergunta, sim estamos juntos. Estão a dar o seu contributo inclusive alguns membros integram a actual direcção da UEA.

Não receia o boicote?

De modo algum. Pelo contrário, apenas temo que esses colegas venham a ser influenciados por coisas que não são boas e depois não venha a dar a sua contribuição plena, sobretudo devido às pequenas fofocas e etc. Mas acima de tudo tenho confiança nessas pessoas e não olhei para amiguismos. Disse para mim que, para a actual gestão da UEA quero contar com o apoio de todos. Daí que olhei para a outra lista e os convidei a estarmos juntos. Juntos somos mais capazes. Espero contar com todos os membros fazendo uma gestão aberta e participativa.

Alguns concursos foram suspensos, restando apenas o “Quem me dera ser Onda” assegurado pela Fundação Sol. Como pensa trazer de volta esses prémios e outros mais que possam vir a surgir?

Foi já feito um primeiro contacto com a Sonangol, ainda não o fizemos com a Endiama e até agora a resposta é que temos de aguardar, embora haja uma luz no fundo do túnel como se costuma a dizer. O Banco sempre assegurou o Prémio “Quem me dera ser onda”, com o qual contamos até à presente data. Temos já garantias de que vai continuar.

A UEA enquanto editora não tem estado a publicar. Qual é a principal razão?

É simplesmente a situação financeira. A crise que estamos a enfrentar. Mas no meio de tudo isso, apesar de todas as dificuldades deixou de publicar não com a regularidade esperada, mas à medida do possível.

Perfil

Homem de trato fácil e comprometido com a escrita e a comunicação. David Capelenguela nasceu na província da Huíla em 1969. vinculado ao jornalismo desde 1990, no Namibe, colaborou no Jornal de Angola e Agência Angola Press, tendo-se notabilizado no jornalismo radiofónico nas emissoras provinciais do Namibe, Huíla, Cunene e Lunda-Sul.

É mestre em Ciências Jurídico- Económica e Desenvolvimento, e licenciado em Direito pela Faculdade com mesmo nome, da Universidade Agostinho Neto. Entre algumas obras de sua autoria constam “Planta da Sede”, “o Enigma da Welwitschia”, “Rugir ao Crivo”, “vozes Ambíguas”, “Acordanua”, “Tipo- grafia Lavrada”, “gravuras Doutro Sentido” e outras mais incluindo diversas participações em Antologias.

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