Sobre o « Colóquio nÓS » de Lisboa que defende a diversidade e a inclusão

A diversidade é de facto uma questão que se impôs no debate público, principalmente nos países ocidentais. Hoje, ninguém, ou quase ninguém, contesta a sua legitimidade; pelo menos oficialmente. Fala-se disso em todos os lugares e toda a gente aceita o princípio. E o discurso sobre a consideração das diferenças, a igualdade de oportunidades e o compartilhamento de espaços, oportunidades e responsabilidades tem visto a noção de inclusão generalizar-se.

Muito rapidamente, percebemos que a exclusão não é apenas uma ameaça para aqueles que são directamente vítimas, mas também para todo o corpo social. No mundo do trabalho, a diversidade é apresentada como um bem indispensável, especialmente no contexto da globalização.

Em França, por exemplo, centenas de empresas e até dezenas das maiores empresas assinaram a Charte de la Diversité, um texto de compromisso proposto para a assinatura de qualquer empregador que deseje, com uma abordagem pro-activa, agir em favor da diversidade e, assim, ir além do quadro legal e jurídico da luta contra a discriminação.

Grandes empresas, PME, actores da economia social e solidária, instituições públicas, autoridades locais, todos estes agentes económicos estão preocupados com a diversidade em todas as suas componentes. Lançada em 2004, a Charte de la Diversité incentiva as organizações signatárias a garantir a promoção e o respeito da diversidade nos seus trabalhadores e em todos os actos de gestão, tanto comercial como de carreira, implementando acções em favor da Diversidade. Tem hoje 3.800 empresas signatárias, e todas reconhecem que os desafios da diversidade são múltiplos (conformidade com a lei, reputação, responsabilidade social, optimização da gestão de RH, desempenho económico) e estão comprometidas em responder com acções concretas.

Ao assinar a Charte de la Diversité, essas organizações comprometem-se a lutar contra todas as formas de discriminação, a pôr em prática uma abordagem de « diversidade » e a adoptar uma gestão inclusiva. Em outras palavras, em França, a diversidade desfruta de um capital de simpatia cada vez mais considerável.

No entanto, a situação das pessoas da « diversidade » continua a ser difícil. Porque os preconceitos são teimosos e, como todos os estudos mostram, as discriminações mantêm-se num nível alto, seja por causa da origem, do sexo, da deficiência, da religião ou da orientação sexual. Mas obviamente, dir-se-á, a diversidade é uma noção vaga. É verdade.

Um belo conceito, mas confuso. E alguns até vão além e afirmam que a diversidade é uma noção perigosa, como se ela fosse uma ameaça à igualdade. Mas nós, République et Diversité, um instituto que promove a diversidade em França, dizemos que não é o caso, pelo contrário.

Ambas, a diversidade e a igualdade, devem andar de mãos dadas. A diversidade só pode ser bela e boa se ela andar confiante ao lado da sua irmã, a benevolente « igualdade ». Mesmo assim, quer-se ainda opor estas duas irmãs. É absurdo porque precisamos das duas. Diversidade sem igualdade, é uma selva magnífica e feroz, onde prevalece a lei do mais forte.

Mas a igualdade sem diversidade é a ditadura do conformismo universal. Nós não queremos nem um, nem outro. Basicamente, adotamos também o slogan, « Todos diferentes, todos iguais »!

Este é o propósito do 1º Colóquio NÓS, que termina hoje, 31 de Maio, em Lisboa; convidar a sociedade portuguesa a refletir sobre estas problemáticas e denunciar, através de debates e workshops, a absurdidade de privar-se de uma parte da sua comunidade quando parece que não há forças, inteligências e habilidades suficientes, em toda parte do mundo, para desenvolver as nossas sociedades.

A sua ambição é fazer de Lisboa o palco de um encontro internacional anual, para refletir sobre a diversidade e uma maior inclusão no mundo, e propor medidas concretas no fim de cada edição, através de um texto fundador, a Declaração de Lisboa. Lisboa que outrora ficou conhecida como a capital do país que navegou o mundo e intensificou o mercado de escravos, será agora o espaço de acolhimento, reflexão, debate e partilha de ideias e de boas práticas. Será o espaço onde pensadores, activistas, governantes, políticos e demais população se reunirão com o fim de pensar e resolver problemas reais.

O evento contou com as participações de Francisca Van Dunem, Ministra da Justiça, Rosa Monteiro, Secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade, Sueli Carneiro, filósofa e activista brasileira, Benedita da Silva, deputada brasileira, Amália Fischer, Co-fundadora do Fundo ELAS, Armando Cabral, Top Model e empresário e com participantes de 15 países do mundo. Apoio inteiramente o espírito desta iniciativa. Mas por causa de um conflito no calendário, não fui este ano, o compromisso já está marcado para a próxima edição.

Ricardo Vita

error: Content is protected !!