Discursos da moda

Já não é novidade para ninguém que uma parte da comunicação institucional ou empresarial angolana é feita ou em Portugal ou pelos chamados consultores portugueses, daí o mesmo preâmbulo e todos os documentos: “a empresa ‘trastrastrás’, líder do mercado”, etc., etc., mesmo para empresas acabadas de nascer. Como angolano é meio tapado, tudo passa e ganha-se dinheiro. Chegamos a receber informação sobre os pólos turísticos de Kalandula e Cabo Ledo a partir de Portugal. Mas quando as leis também são copiadas de lá e algumas vezes até se esquecem de dizer que estamos em Angola… portanto, nada de espantos quando os discursos são feitos para angolanos mas reportando realidades de fora. Um bom exemplo é o discurso da ministra do Ambiente. Paula Francisco quer a redução do uso de plástico em Angola, eu também quero, juro. Mas não é que eu olhei para o lado e vi que só o consigo fazer quando estou fora de Angola? A ministra também. Temos fábrica de papel em Angola para ir comprar o pão em saco de papel? Não. Temos indústria têxtil para voltar a ir comprar pão com o saco de pano de outros tempos? Não. Temos indústria de vidro ou de algum material biodegradável para o engarrafamento da água que somos obrigados a comprar para consumo porque a água da rede pública é perigosa? Não. O discurso da ministra é um discurso para este país? Não me parece, tal como não me pareceu que o fosse o seu apelo para a redução das palhinhas de plástico nos hotéis e resortes, quando falou no Fórum Mundial do Turismo. Cara ministra, “ainda vamos só” educar as crianças a separar o lixo encaminhando o plástico para os contentores certos, que também não temos nas cidades, nas escolas, etc… enfim, se fôssemos dinamarqueses a ouvi-la ficaríamos muito contentes.

leave a reply