Quando o bom senso nos faz bem

POR: Elísio Macamo

As boas coisas não são complicadas. Na verdade, elas são boas porque são simples. Elas derivam a sua simplicidade da sintonia que manteem com o bom senso. Se o bom senso predominasse, a vida seria uma maravilha. Ou talvez não. De qualquer maneira, seria mais fácil de navegar. Se cada um de nós soubesse que é bom respeitar o outro, cumprir promessas, não usar a mentira como forma de ganhar vantagens, enfim, observar aquilo que a teologia chama de “amor ao próximo” que, na verdade, não é mais, nem menos do que a aplicação consciente do bom senso no dia a dia, talvez ficássemos pelo menos com a impressão de que a vida é uma maravilha. O problema, porém, é que se todos observássemos o bom senso, talvez nos privássemos da possibilidade de ler uma dissertação interessante sobre o assunto. Não sei se isso seria bom. Não gostaria de ter de imaginar uma vida sem ter tido a oportunidade de ler o livro de Nvunda Tonet sobre ”Educar os filhos sem bater”. Ele tornou-se necessário porque o bom senso não impera. O livro afirma-se como uma dose saudável de bom senso. Chama a nossa atenção para as coisas simples da relação com os filhos: responsabilidade, exemplo, prioridade e moderação. Não diz nada que seja contra-intuitivo porque o seu forte é justamente esse, o bom senso, aquele recurso cívico que por vezes nos escapa e nos impede de sermos pessoas simples, portanto, boas. A novidade está na organização clara das ideias, no enquadramento de todas as virtudes que fazem um bom progenitor, na oposição do senso comum pelo bom senso. Seria um livro de leitura rápida se as ideias que ele desenvolve não nos obrigasse a fazer um compasso de espera para reflectirmos sobre como nós próprios lidamos com o nosso papel de educadores. O livro pode parecer uma obra típica dum “influencer”, esta nova espécie que ganha a vida ensinando- nos como fazer aquilo que devíamos saber fazer. Mas as aparências iludem. O defeito de formação obriga-me a ver o livro como uma espécie de sociologia da infância. Ele redefine a infância como a idade da inocência que precisa de ser protegida e estimulada. Nesse sentido, “Educar os filhos sem bater” é, na verdade, a promoção desse ideal infantil, o que logicamente levanta questões bastante interessantes sobre a maneira como esse ideal se articula com a nossa sociedade, no caso, com a sociedade angolana actual. O livro fala para uma parte específica dessa sociedade, nomeadamente a “moderna”, mas ao fazer isso refere-nos também à “tradicional”, àquela dentro da qual muitos de nós nos formamos como pessoas adultas. A questão não é de saber se essa parte da sociedade angolana se revê neste ideal, mas sim o que o desiderato dum outro tipo de infância significa para a constituição da sociedade angolana hoje em dia. Há um certo sentido em que o bom senso se revela difícil de observar justamente porque ele tem várias manifestações e desdobramentos, pois o que é social entre nós é precisamente esta interpelação constante do que damos por adquirido. Esta obra constitui uma boa oportunidade para a gente tomar o pulso da sociedade. Lê-lo sem reflectir sobre o que significa ser angolano hoje é desperdiçar uma excelente oportunidade que Nvunda Tonet nos proporciona de fazermos um exercício necessário de introspecção. Um livro que convida à reflexão é necessariamente um bom livro, por muito mau que seja – algo que, felizmente, não se aplica aqui. Elísio Macamo, 31 de maio 2019, Basileia.

leave a reply