Yuri Quixina: “Precisamos de um governo simplificado que come poucos impostos”

O professor de Macroeconomia, Yuri Quixina, disse que o aumento de um ministro de Estado na estrutura do governo pressupõe fracasso e atrasa a ideia da reforma do Estado. Acompanhe a análise dos temas que marcaram a semana

POR: Mariano Quissola / Rádio Mais

Os desequilíbrios económicos e crises políticas afectam as crianças em todo o mundo. Que medidas tomar para salvaguardar os seus direitos?

O princípio da salvaguarda do futuro da criança é importante e cada país tem isso na sua constituição e programas de governação. Os governos deviam fazer o necessário para que não se colocasse em causa o futuro da criança. A criança tem direitos, por exemplo, a um nome e a uma nacionalidade. Sabemos de muitas crianças sem registo civil, o que representa uma das grandes violações dos direitos da criança. As crianças não estão no centro da governação de muitos países, em particular em África.

Que soluções para a garantia dos interesses da criança?

As saídas para melhorar os processos só estão na política. A governação deve pensar nas gerações vindouras, por isso não gosto de dívida. Dívida de longo prazo é um acto imoral, porque as gerações que não beneficiaram é que a pagam.

Conselho de Ministros extingue a função de ministro de Estado para o Desenvolvimento Económico e Social e cria duas novas: Coordenação Económica e Área Social. Quais serão as razões?

Primeiro, essa forma de organização de Estado não é de um país capitalista. Isso é coisa de partidos de matriz comunista, que para se chegar ao chefe tem de passar por um super-ministro. Mas também significa que o actual ministro foi exonerado. Isso é uma exoneração. Penso ser a terceira ou quarta vez a ser exonerado. Neste momento está à espera de nova nomeação.Penso que o Presidente da República percebeu que o antigo titular da pasta não estava a dar conta do recado na área social. Registaram-se várias greves no sector social e a forma como tentaram resolver terá pesado na decisão. E é um sinal de quebra de confiança no ministro. Por outro lado, continuamos a fazer um Estado gordo, com o risco de aumentar a burocracia. Com a nova estrutura estamos distantes do discurso do ministro Adão de Almeida sobre o Estado mínimo e reforma do Estado.

Que resultados esperar dessa reestruturação?

Quando o governo cresce, o fracasso expande-se. Precisamos de um governo simplificado, aquele que come poucos impostos dos cidadãos.

A criação da pasta da coordenação económica ajuda a manter o foco sobre a economia, não?

Por que não criar-se um super-ministério fundindo todos os ministérios que intervêm directamente na economia (Finanças, Economia e Planeamento…).

O Kwanza depreciou-se, pela primeira vez, acima dos 50%, em relação ao dólar. Que medidas para inverter o quadro?

Primeiro, continuo a defender que o que está a acontecer com o Kwanza é desvalorização e nada de depreciação. O nosso sistema cambial é muito rígido e o BNA continua a ser o polícia controlador do mercado de câmbio. Ainda vai desvalorizar mais, não existe um horizonte no curto prazo para inverter essa situação, porque os sectores que permitem a entrada de divisas estão a ‘babar óleo’. Falo particularmente do sector petrolífero que, a curto prazo, pode inverter esse quadro. Mas do ponto de vista da produção tem desapontado. O sector diamantífero, atrás do petróleo, está em reforma e não consegue. O investimento directo estrangeiro não está a entrar conforme esperado.

Já estão aprovadas 18 candidaturas para compra de fábricas na Zona Económica Especial Luanda/ Bengo. A privatização pode ajudar na estabilidade cambial, não?

Se essas empresas forem vendidas para estrangeiros será um bom sinal, porque significa entrada de mais divisas. Não sabemos de quem são as candidaturas, mas se forem de entes estrangeiros, é extraordinário. Vai ajudar a reequilibrar a estabilidade cambial. Insisto. Esse processo está muito atrasado.

A dívida de Angola com a China continua a levantar preocupações. Em que consiste a ‘imoralidade de uma dívida’, como se qualifica a de Angola?

A dívida é imoral quando a pessoas que paga não beneficiou dela. As gerações vindouras vão pagar uma farra na qual não participaram. Isso é imoral. 63% da dívida de Angola é externa e 37 interna. Angola é o quarto país com maior dívida em África. Segundo o FMI, este ano a dívida vai atingir 90,5%.

O acordo da Zona de Mercado Livre entrou em vigor no dia 30 de Maio. Qual é a sua expectativa?

As economias africanas não têm características de livre mercado e isso pode constituir um entrave. Funcionam neste momento em África cerca de seis organizações de integração regional. Esses factores podem criar entraves ao mercado continental. Portanto, não espero muito, com agravante de serem, na sua maioria, exportadoras de matérias-primas.

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