Quando a morte vem de longe

“Revivo o medo e a dor diariamente. Sinto que o meu corpo ainda está sujo”, escreveu a adolescente holandesa Noa Pothoven, de 17 anos, no seu diário que acabou por se transformar no livro Winnen of leren (“Ganhar ou aprender”). Ela morreu no Domingo. Ela tinha deixado de comer e de beber, após anos de stresse pós-traumático, depressão e anorexia em decorrência dos abusos que sofreu no passado. Noa morreu criança, ou, também se pode dizer, deixou-se morrer. Na verdade, mataram-na há muito tempo, quando tinha apenas onze anos de idade e foi abusada sexualmente pela primeira vez. O que se seguiu foram anos de sofrimento a que ela sobreviveu e acabou por sucumbir. Alguém que o possa fazer que importe ou edite o livro dela e o venda em Angola, para médicos, psicólogos, juízes, advogados, deputados e investigadores, de certeza que ajudará a lidar com os muitos e muitos casos que temos no país de violação de menores, de violação de mulheres. É preciso que a sociedade perceba o quão destruída fi ca por dentro uma pessoa violada, é preciso que se perceba que a vítima é mesmo vítima num caso desses, não é nem provocadora, nem merecedora, e muito menos culpada, como uma certa mentalidade supostamente bantu pretende justificar a “normalidade” dos abusos. Temos em Angola muita mulher destruída por dentro, muitas crianças mortas e que apenas respiram, tolhidas pelo medo, pela vergonha e muitas vezes a ter em de suportar diariamente o sorriso de escárnio dos seus assassinos.

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