Sobre a afirmação do famoso filósofo Arthur Schopenhauer: « Adão e Eva foram negros, como Deus »

POR: Ricardo Vita

« O Adão da nossa raça deve ser concebido como negro e é risível ver os pintores representarem esse primeiro homem branco, cor produzida pela descoloração », afirmou Schopenhauer. Arthur Schopenhauer foi um filósofo alemão do século XIX e até hoje é considerado como um dos maiores filósofos ocidentais. A sua filosofia teve uma influência grande em muitos filósofos, intelectuais e artistas dos séculos XIX e XX. Entre os quais, Nietzsche, Tolstoi, Freud, Machado de Assis – o afro-brasileiro que é considerado o maior nome da literatura do Brasil -, Émile Zola, Marcel Proust, Fiodor Dostoyevski, Henri Bergson, André Gide, Samuel Beckett. Mas, dos que eu li, ninguém prosseguiu o seu pensamento sobre a pele negra que, segundo ele, Adão e Eva tiveram e, conseqüentemente, que Deus também tem. No seu livro, publicado em 1851 e que foi traduzido para o francês por Auguste Dietrich em 1911, sob o título de « Parerga et paralipomena. Philosophie et science de la nature », a versão que eu li, o filósofo afirma, entre as páginas 101 e 105, para o desespero dos seus contemporâneos racistas, que Adão, o primeiro homem, nasceu entre os trópicos, que teve, conseqüentemente, pele escura, que se Deus o criou à sua própria imagem, Deus também é da mesma cor, como a brancura da pele dos Europeus é uma degeneração ligada à distância da zona tórrida, que a cor da pele não tem importância e que existe apenas uma raça: a raça humana. Escreveu ainda o seguinte: « em áreas quentes, o homem é negro ou pelo menos castanho-escuro. É assim, sem distinção de raça, a verdadeira cor natural e específica da raça humana, e nunca houve nenhuma raça naturalmente branca. Falar de tal raça e separar infantilmente os homens em raças branca, amarela e negra, como todos os livros fazem, é mostrar uma grande estreiteza de espírito e falta de raciocínio. Já nos ‘Suplementos ao Mundo como Vontade e Representação’, estudei rapidamente o assunto e exprimi a opinião de que um homem branco nunca teve origem do seio da natureza. É só entre os trópicos em que o homem está em casa e em toda parte ele é negro ou castanho-escuro; só há excepção na América, porque essa parte do mundo foi povoada em grande parte por nações já descoloridas, principalmente por Chineses. Enquanto isso, os selvagens das florestas brasileiras são castanho escuros. Foi somente quando o homem ficou muito tempo fora da sua pátria natural, situada entre os trópicos, e que, como resultado dessa mudança, a sua raça se espalhou para áreas mais frias, que a sua pele ficou clara e finalmente branca. Assim, somente a influência climática de zonas moderadas e frias gradualmente deu à raça humana europeia a cor branca. Isso acontece lentamente, vemos isso com os ciganos, uma tribo hindu que, desde o início do século XV, leva uma vida nómada na Europa, e cuja cor ainda está entre a dos hindus e a nossa. O mesmo acontece com as famílias negras escravas, que durante trezentos anos se perpetuaram na América do Norte e cuja pele tornou- se um pouco mais clara; é verdade que isso vem do facto de que eles se misturam às vezes com negros da cor do ébano recém-chegados: restauração que não acontece com os ciganos. A causa física imediata desta descoloração do homem banido da sua pátria natural, atribuo-a ao facto de que no clima quente, a luz e o calor produzem na epiderme uma desoxidação lenta mas constante do ácido carbónico que, no nosso caso, flui através dos poros sem se descompor e deixa em seguida carbono suficiente para a cor da pele. […] O Adão da nossa raça deve, portanto, ser concebido como negro e é risível ver os pintores representarem esse primeiro homem branco, cor produzida pela descoloração. Deus criou-o à sua própria imagem, os artistas também devem representá- lo como negro, mas podem deixar a sua barba tradicional branca, a barba rara sendo o acessório não da cor negra, mas apenas da raça etíope (africanos). As imagens mais antigas da Madona (Virgem Maria), quando as encontramos no Oriente e em algumas antigas igrejas italianas, não têm também um rosto de cor negra, como a do Menino Jesus? De facto, o povo escolhido de Deus tem sido inteiramente negro, ou pelo menos castanho-escuro, e hoje é ainda mais escuro do que nós, descendentes de povos pagãos que imigraram antes. Mas a actual Síria foi povoada por mestiços em parte originários do norte da Ásia, como os turcomanos, por exemplo. Da mesma forma, Buda e até Confúcio às vezes também são representados como negros. (Veja Davis Th e Chinese, T. II p 66). Que a cor branca do rosto indica uma degeneração e não é natural, é provado pelo nojo e pela repugnância sentidos à primeira vista por algumas pessoas do interior da África; parece-lhes um murchamento mórbido. Jovens negras africanas, que haviam recebido calorosamente um viajante, ofereceram-lhe leite cantando: « Coitado do estrangeiro, quanta pena sentimos por seres tão branco! ». Lemos numa nota de Don Juan, de Byron, (canção XII, estrofe 70): « O Major Denham diz que quando voltou das suas viagens pela África, quando viu pela primeira vez as mulheres da Europa, elas deram-lhe a impressão de ter rostos anormalmente doentios ». Enquanto isso, os etnógrafos continuam a falar à vontade, como o seu predecessor Buff on (ver Flourens, Histoire des travaux et des idées de Buff on, Paris 1844, p. 160 e seguintes) das raças branca, amarela, vermelha e negra, tomando acima de tudo a cor como base das suas divisões, enquanto na realidade ela não é de modo algum essencial, e que a sua diferença não tem outra origem senão a distância, mais ou menos grande, mais ou menos recente também, de um povo da zona tórrida, a única na verdade onde a raça humana é indígena; sabendo que, além dela, esta raça só pode subsistir com a ajuda de cuidados artificiais, passando o inverno numa estufa, como as plantas exóticas, que gradualmente provoca a sua degeneração, em primeiro lugar quanto à cor ». Estranhamente, e de certa forma, o famoso filósofo ocidental parece demonstrar aqui o que uma jovem profetisa chamada Kimpa-a-Vita havia dito 145 anos antes dele no Reino do Kongo.

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