Gomes Domingos: Obreiro da “música clássica angolana” parte para a eternidade

Calou-se mais uma voz. Sentimentos de dor, tristeza, angústia e consternação foram manifestados por dezenas de pessoas quando souberam da morte, prematura, de um dos obreiros da “música clássica angolana”. O tenor Gomes Domingos partiu para a eternidade

Faleceu na manhã deste Sábado, por doença, o músico lírico Gomes Domingos, integrante do grupo os Lyrikus, e professor de música no Instituto Superior de Artes (ISART). Com o seu desaparecimento físico, a cultura nacional e a música clássica em particular ficam mais pobres.

Antes da última apresentação pública a 9 de Maio no Memorial Dr. António Agostinho Neto, em companhia dos colegas Emanuel Mendes e Bruno Neto, Gomes Domingos realizou, em Setembro do ano passado, a sua primeira experiência a solo, num concerto apresentado no Bengo.

A convite do Centro de Formação Musical, Artes Plásticas e Ciências (CEFOMAC), Gomes Domingos apresentou-se com o suporte instrumental do pianista angolano Tony Ruben e da cubana Anariles Martines.

Em dois blocos, o músico apresentou oito temas, repartidos em música clássica erudita e um outro de clássicos da música popular angolana. “Im wunder. Shonen monat mai”, “Dallas sua”, “Nina”, “Una furtiva lágrima”, Lolita”, “Muxima”, “Mona Ngambe”, “Umbi umbi” preencheram o cardápio musical propiciado por Gomes Domingos.

Na altura, em entrevista a OPAÍS, questionámo-lo sobre os projectos que tinha em carteira. Na sua simplicidade, respondeu-nos: “Por agora tenciona continuar a acompanhar os meus estudantes na universidade, sobretudo os finalistas”.

“Será um desafio grande, como docente, colocá-los no mercado e depois veremos o que se seguirá, pois o amanhã a Deus pertence”. Foram estas as suas últimas palavras proferidas a este jornal que acompanha a carreira individual e colectiva do grupo desde a sua formação em 2009.

Sentimentos de pesar

São várias as moções de sentimentos partilhadas sobretudo pelas redes sociais, em função da notícia do passamento físico de Gomes Domingos. Na sua conta do Facebook, o gestor do Espaço Aplausos, Cabingano Manuel, escreveu: “Irmão Gomes Domingos, como é possível!? Tão cedo, guerreiro? Que vozeirão a tua, mano. Jovem afável e aguerrido nas batalhas da vida, sempre disposto a ajudar”.

Na mesma plataforma digital, o director-geral da produtora Nova Energia, Yuri Simão, aludiu: “Uma ligação do Bruno Neto aos prantos confirmou, o Gomes, Kota, o Gomes morreu. No show do mês conheci os três. O Gomes sempre mais calado mas também entrava na brincadeira. Ele dizia: ‘Kota, não nos larga este é o nosso palco aqui há respeito’. Achei que estavas muito magro no show do mês do Ruy Mingas e por isso só o Emanuel Mendes e o Bruno subiram ao palco pelos Lyrikhus. Sim o Gomes está doente, pensei que fosse um paludismo da moda, mas o Dodó Miranda, teu irmão, disse que era algo do estômago. Dos jovens que foram a Cuba formar-se em canto lírico regressou, dando aulas e a cantar. Partes tão cedo, que maldita notícia”, desabafou.

Por sua vez, o seu companheiro de grupo Bruno Neto, tremulo nas palavras, apenas reagiu: “Ainda não se cumpriu 1 ano desde que nos foi a Laritza Salomé e hoje se nos foi Gomes Domingos. Desculpe, mas eu não sei o que você acha. Não sei, não sei o que é que eu vou dizer. Foi-nos o Gomes, cavalheiro”!, manifestou.

Trajectória

Gomes Domingos passou por todas as etapas enquanto corista na igreja onde aprendeu música. Foi corista titular do Coro Embaixadores de Cristo, dirigido pelo músico Dodó Miranda, tendo tido, desde aí, aulas de canto e solfejo. Durante esse processo foi cada vez mais “redescobrindo-se”, quer em termos técnicos quer vocais.

Seguiu na senda da aprendizagem, desta vez com o acompanhamento do mestre Massoxi MAX, que veio a tornar-se no grande mentor da sua vida artística. Ele contava que, por causa dele, participou em muitos projectos e concursos como a Gala a Sexta-feira, em que conquistou o segundo lugar no ano 2000, “Chuva de Estrelas” (quarto lugar), “Festival da Canção de Luanda” (Melhor voz e segundo classificado no mesmo concurso), “Festival Internacional de Cuba “Lecuona em mi Memória (Quarto lugar), entre outros.

Depois desse percurso, Gomes Domingos emigrou para Cuba com o fito de continuar a sua formação em música, onde se licenciou em Música, na especialidade de canto, tendo também sido considerado o tenor mais popular. Além de dedicar-se ao grupo os Lyrikhus, Gomes era docente do Instituto Superior de Artes. Até sempre, tenor Gomes Domingos.

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