Caso CNC:Directora-adjunta suportou ostracismo em troca de bom salário

Terminou o interrogatório a Augusto da Silva Tomás. Ontem, começou-se a ouvir Isabel Bragança, ex-directora-geral adjunta para a Administração e Finanças do Conselho Nacional de Carregadores, que revelou que mesmo reduzida a mera tesoureira, suportou o vexame pelo “bom salário” que auferia

Depois da longa audição feita pelo tribunal ao ex-ministro dos transportes Augusto Tomás, ontem começou a ser ouvida a única ré do caso CNC. Trata-se de Isabel Cristina Gustavo Ferreira de Ceita Bragança, antiga directora adjunta daquele instituto. Isabel Bragança, 49 anos de idade, formada em administração de empresas, foi directora adjunta do Conselho Nacional de Carregadores por 10 anos. Foi dela que terá partido a informação que alertou Tomás sobre a existência de um “programa de bolsas de estudo” financiado pelo Conselho Nacional de Carregadores. Segundo contou a ré, a revelação a Augusto Tomás terá sido “involuntária”, pelo que, logo a seguir, sentiu-se mal por ter dado a impressão de ser a “delatora”. Entretanto, havia já algum tempo que andava em desavenças com o seu superior hierárquico, por diferença de opinião quanto à gestão do instituto. Uma das divergências resultou do facto de o director, no que toca ao programa de bolsas de estudo, ter informado os adjuntos, ao invés de discutir o caso.

Isabel Bragança revelou ainda que a sua participação na actividade do CNC tinha sido reduzida à de “mera tesoureira”. “Por exemplo, o Departamento de Recursos Humanos, que eu deveria supervisionar, por ser uma área sensível, passou para a esfera do director-geral”, revelou a ré, para demonstrar que não teve intervenção activa na gestão diária do instituto, apesar da sua função dar essa indicação. Com este depoimento, Bragança praticamente confirma as revelações de Augusto Tomás feitas no arranque deste julgamento, quando afirmou que “não sabia da existência do programa de bolsas de estudo e tão logo se apercebeu da sua existência ordenou o seu fim e exonerou o director”.

A instância dos juízes (os primeiros a interrogar os réus) insistiu no tema das bolsas de estudo. Em suma, quiseram saber quando foram concebidas, quanto custava à instituição, quem eram os beneficiários e quais os fins últimos que motivaram tal projecto. Isabel Bragança, muito insegura, nervosa e em alguns momentos parecendo confusa, refugiou- se no tempo para responder a quase tudo com suposições. “Venerando juiz, já passou muito tempo e eu não tenho a certeza das coisas e não quero mentir”, referiu várias vezes a cada início de resposta às perguntas dos três juízes que compõem a instância de magistrados judiciais que julga o caso número 02/19 na sala de audiências do Tribunal Supremo. Sem acrescentar muito ao que já se sabia, Isabel Bragança revelou que tinha consciência de que estava ostracizada na função de uma das directoras-adjuntas do CNC, mas para salvar o bom salário suportou as irregularidades impostas pelo director-geral, a quem aponta como sendo o autor e gestor do programa de bolsas de estudo.

À pergunta de um dos juízes sobre como foi possível uma pessoa com formação em gestão de empresas suportar tantas irregularidades nesta matéria, Isabel Bragança revelou: “Venerando juiz, o salário era bom e não há muitas oportunidades de emprego”. Isabel Cristina Gustavo Ferreira de Ceita Bragança tinha como salário no Conselho Nacional de Carregadores (CNC) Kz 1.200.000 (um milhão e duzentos mil Kwanzas). Paga mensalmente a este valor, a responsável “admitiu” as irregularidades praticadas pelo superior hierárquico com quem chegou a ter uma relação conflituosa, ao ponto de tal os ter levado ao gabinete do ministro.

Acusada de ter beneficiado do esquema de bolsas, Bragança negou e revelou que nas listas dos bolseiros consta um sobrinho seu, mas não entrou a seu pedido. “Foi a minha irmã que pediu directamente ao director-geral Itembo. Eu mesma tenho dois filhos bolseiros, mas pago conjuntamente com o meu marido”, contou a ré. Hoje prossegue o interrogatório a Isabel Bragança, ainda pela instância dos juízes. Bragança esta em prisão preventiva. Além de Isabel Bragança e Augusto Tomás, são também réus no caso CNC Manuel António Paulo, ex-director-geral, Rui Manuel Moita e Eurico Alexandre Pereira da Silva, ex-directores adjuntos para a área Técnica e Administração e Finanças ambos funcionários do Conselho Nacional de Carregadores.

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