Alexandre Carreira: “O sector segurador apresenta um elevado potencial de crescimento”

O sector segurador em Angola possui um elevado potencial para crescer. A afirmação é de Alexandre Carreira, administrador executivo da Nossa Seguros. para ele, o crescimento do sector, em última instância, dependerá do crescimento da economia e da disponibilização, por parte das seguradoras, de uma oferta ajustada às necessidades do mercado. No plano da expansão, o Cuando Cubango terá a primeira agência da Nossa Seguros este ano

Que avaliação faz do mercado dos seguros em Angola?

A avaliação do mercado segurador deve passar sempre por uma apreciação da capacidade das seguradoras fazerem face às necessidades dos clientes. Neste plano, a avaliação é claramente positiva, mas há bastante espaço para melhorarmos. De facto, é inegável o apoio que as seguradoras angolanas prestam à protecção das pessoas, bens e património dos seus segurados e o país tem, claramente, beneficiado dessa contribuição. No entanto, há competências por desenvolver, bem como há produtos e serviços por criar e dinamizar. A procura pelos serviços das seguradoras ainda está longe do desejado. O mercado de seguros em Angola é ainda muito pequeno, representando menos de 1% do PIB. Contudo, o mercado é bastante competitivo. É revelador o facto de termos 27 companhias autorizadas a funcionar. A sua pequena dimensão, conjugada com os altos níveis de concorrência, tornam o mercado bastante dinâmico, mas também desafiante. Há bastante trabalho a fazer-se no que diz respeito à adopção das melhores práticas internacionais para o sector, incluindo, por exemplo, as relativas ao reporte financeiro, governação, gestão de riscos, controlo interno e canais de distribuição. Nesses domínios, as empresas não se encontram todas ao mesmo nível, estando umas bem melhor posicionadas do que outras. Há também um reconhecimento de que a legislação deve ser actualizada.

Acredita num rápido crescimento do sector?

O sector segurador apresenta um elevado potencial de crescimento. A taxa de penetração do mercado angolano (Prémios vs. PIB) em 2017 situou-se em cerca de 0.6% do PIB. No mesmo ano, a média africana era de 3%. Os indicadores para a Namíbia e o Quénia eram, por exemplo, de 7.6% e 2.6%, respectivamente. Esses números indicam- nos que existe margem para o mercado segurador angolano crescer, admitindo-se que seja possível atingirmos as taxas de penetração desses países africanos que referi. O crescimento do sector, em última instância, dependerá do crescimento da economia, da disponibilização, por parte das seguradoras, de uma oferta ajustada às necessidades do mercado, da existência de seguros obrigatórios devidamente fiscalizados, bem como do desenvolvimento da literacia financeira da população e de uma cultura de seguros. Devo notar, no entanto, que este ano se espera um impulso positivo nas vendas, com a dinamização dos seguros de bens importados, com a entrada em vigor, que se aguarda para breve, do Decreto Presidencial que regulará a contratação de seguros relativos aos bens oriundos do exterior.

Qual é a carteira de clientes da Nossa Seguros?

A Nossa Seguros encontra-se entre as quatro maiores companhias de seguros a operar em Angola. Possuímos clientes em todo o território nacional. Além dos clientes particulares, servimos igualmente o segmento de empresas e instituições, responsáveis, presentemente, por um volume bastante significativo das nossas vendas. Servimos todos os segmentos de clientes e temos uma actuação transversal a todos os sectores da economia. Temos estado a alargar significativamente a nossa quota de mercado no sector público e no sector privado, temos tido a capacidade de apoiar as empresas que pela sua dimensão, importância ou dinamismo têm tido uma actuação estruturante na economia. Realço aqui, a título de exemplo, as empresas do sector petrolífero, telecomunicações, construção e da distribuição, entre outros.

De forma geral, os clientes das seguradoras dizem que os sinistros não são pagos em tempo útil, criando transtornos, sobretudo no seguro automóvel. Quer comentar?

Na Nossa Seguros podemos orgulhar- nos da qualidade dos serviços de sinistros que prestamos. Entendemos que a gestão dos sinistros é um dos nossos pontos mais fortes. Melhoramos substancialmente a comunicação entre todas as partes intervenientes nos sinistros (segurados, lesados e prestadores de serviços); criamos um posto de atendimento para a participação de sinistros; temos uma linha directa (inclusive com acesso ao WhatsApp) para facilitar a comunicação, bem como o envio de documentos relacionados com os sinistros. No entanto, poderão eventualmente acontecer falhas, tendo os clientes a possibilidade de reclamar junto do nosso Centro de Reclamações. Devo, no entanto, notar que nos preocupa o nível de insatisfação a que se refere. A má imagem de algumas seguradoras pode injustamente contagiar a imagem de todo o sector. Quanto a isto, recomendamos uma postura enérgica da parte do supervisor, de forma a prevenir e a sancionar as práticas abusivas.

Do ponto de vista da representatividade, em quantas províncias a Nossa Seguros está representada?

A Nossa Seguros está presente em todo o território nacional. Através de agências próprias estamos em15 províncias e através de agências bancárias estamos em todo o território nacional. Também vendemos os nossos produtos através do nosso Contact Center que, por via telefónica, atinge clientes em todo o território angolano. Os corretores de seguros são também um importante canal de distribuição dos nossos produtos e possuímos uma rede cada vez mais numerosa de mediadores exclusivos.

Qual é o plano de expansão?

Abriremos dentro dos próximos meses mais uma agência em Luanda e teremos a nossa primeira agência na província do Cuando Cubango. No entanto, há dias fechamos duas agências situadas em zonas periféricas de Luanda, por razões estratégicas.

A diversificação dos serviços é uma forma de impor uma marca no mercado. Por isso, pergunto: tencionam lançar novos serviços a curto prazo?

A Nossa Seguros oferece seguros dos ramos vida, não-vida e faz a gestão de fundos de pensões. As nossas inovações têm sido transversais aos vários ramos da nossa actividade. A título de exemplo mencionarei algumas das nossas mais recentes inovações. Em 2018 passamos a disponibilizar aos nossos parceiros uma plataforma de subscrição de seguros de Mercadorias Transportadas; no ramo Automóvel, ampliamos o nosso leque de coberturas facultativas, incluindo, nomeadamente, a Assistência em Viagem, a Protecção Jurídica, a Protecção à Família Família e aumentamos o capital da cobertura de Ocupantes; no que diz respeito ao ramo vida, disponibilizamos ao mercado uma nova solução de seguro Vida Risco Individual com coberturas inovadoras, incluindo Doenças Graves. Em 2019 teremos novidades no que diz respeito aos seguros Multirriscos Habitação e Empresas, pois introduziremos novas coberturas. Estamos também a trabalhar para apresentar ao mercado um Seguro de Vida Grupo com coberturas mais ajustadas às necessidades dos clientes empresariais.

Os angolanos já têm cultura de segurar os seus bens ou fazem apenas os seguros obrigatórios?

Penso que o melhor indicador que possuímos do nível da cultura de seguros é a penetração destes na economia (isto é, a relação dos prémios relativamente ao PIB). Esse indicador para Angola é manifestamente baixo. Para o melhorarmos devemos levar a cabo várias iniciativas. Precisamos de uma fiscalização eficaz da adesão aos seguros obrigatórios e de paulatinamente alargarmos o leque destes. As seguradoras, em especial através da ASAN, bem como a ARSEG, devem investir em campanhas de literacia seguradora e os manuais escolares devem abordar a importância dos seguros. É importante que a percepção do mercado relativamente à solidez financeira e à capacidade técnica das seguradoras seja positiva. Creio que o desenvolvimento do “bancassurance” (a venda de seguros através da banca), bem como de outros canais de distribuição poderá também contribuir significativamente para uma maior adesão aos seguros.

Já agora, que tipo de seguro é mais solicitado?

Na Nossa Seguros, o seguro de saúde tem sido nos últimos dois anos o produto que mais vende. Não sendo um seguro obrigatório, estamos diante de um desenvolvimento assinalável e que representa uma clara evolução da cultura de seguros da população. Na Nossa Seguros, os ramos patrimoniais, automóvel e os de acidentes de trabalho seguem-se em termos de volume de vendas. Penso que no futuro, à semelhança do que se observa noutros países, o seguro de vida ganhará maior importância. Presentemente, o mercado tem demonstrado pouca apetência pelos seguros de vida.

O que pensa sobre o resseguro? Quais são as vantagens de ele ser feito em Angola?

Alguns negócios são demasiado grandes para que apenas uma companhia de seguros sozinha os suporte. A seguradora pode partilhar esses riscos com outras seguradoras através de programas de co-seguro. Alternativamente, a seguradora pode assumir ela própria todo o risco e, por sua vez, adquirir protecção junto de uma resseguradora, efectuando, assim, o resseguro. Na prática, tem havido muita relutância por parte das seguradoras em partilhar riscos com os seus concorrentes directos através do co-seguro e há negócios de grande dimensão que nem todas as seguradoras angolanas em conjunto conseguiriam suportar por completo, por serem relativamente pequenas. Há, portanto, espaço para o resseguro nas transacções locais. A criação de uma companhia de resseguros em Angola apresenta a vantagem de contribuir para se reter em Angola o máximo de riscos possível, poupando-se divisas ao país.

Trata-se também de uma boa oportunidade de negócio, que catalisa o desenvolvimento do sector. No entanto, entendemos que o sucesso de uma resseguradora nacional dependerá da sua boa capitalização, das competências técnicas e de gestão dos seus recursos humanos e de possuir dispersão global de riscos. Se isso não acontecer, o seu impacto será marginal em termos de poupanças de recursos cambiais, ao mesmo tempo que poderá criar ineficiências graves, sobretudo se determinadas situações não forem acauteladas. Sobre as ineficiências, devo dizer o seguinte: uma resseguradora nacional não deve ser um monopólio, nem ser constituída num veículo único e obrigatório de acesso ao resseguro. Os monopólios têm dificuldades em estabelecer preços correctos e dificilmente produzem serviços eficientes, inovadores e de qualidade. Devo ainda notar que se a resseguradora nacional não tiver dispersão internacional de riscos, a vantagem da sua criação pode ser mais simplesmente replicada com o aumento da capitalização das seguradoras locais.

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