Organizações de enfermagem e Ordem dos Médicos em “rota de colisão”

Os líderes das organizações de enfermagem no país exigem que Elisa Gaspar, bastonária da Ordem dos Médicos (ORMED), apresente um pedido público de desculpas aos profissionais do sector sobre os seus pronunciamentos, que consideram incendiários e desprovidos de ética

Por: Paulo Sérgio

As organizações socio-profissionais da classe da enfermagem e a ORMED estão em “conflito” devido aos pronunciamentos feitos recentemente pela bastonária desta organização, Elisa Gaspar, na província do Cunene.

Em causa está o facto de ela ter afirmado, aquando da apresentação do primeiro presidente da sua organização nesta província, que os enfermeiros não estão qualificados para discutir casos clínicos com os médicos. “É impossível.

Ele [o enfermeiro] cientificamente não está qualificado para a discussão do caso. E, às vezes, quer discutir com o médico por ser o director da unidade hospitalar ou centro médico”, frisou.

Ela defende que o director clínico só pode ser médico. Já o cargo de director de hospital pode ser alguém devidamente formado no ramo administrativo. Manifestou ser contra o facto de em algumas províncias os enfermeiros assinarem certidões de óbito. “O que é que ele entende? O que é que ele entende da nomenclatura para assinar as certidões”? Disse pretender pôr termo às iniciativas de enfermeiros assinarem receitas médicas. “O enfermeiro não está qualificado para passar receitas.

Não estudou para tal”. E enfatizou que, quando se está a trabalhar em equipa, o responsável só pode ser o médico. Para evitar que qualquer profissional que trabalha no hospital seja confundido com um médico, manifestou a pretensão de implementarem alterações nos uniformes.

A bata branca passará a estar reservada apenas aos médicos. Os enfermeiros podem usá-la, mas com uma faixa verde no bolso, no punho e na gola. O mesmo acontecerá com os especialistas de outras áreas que são fundamentais para a recuperação dos pacientes. “Médico não trabalha sem enfermeiro. Enfermeiro não trabalha sem o médico. Somos parceiros, mas tem de haver respeito”, frisou. Acrescentou de seguida que “há enfermeiros que se sentem médicos”.

Para ela, os enfermeiros, mesmo que sejam licenciados, estão atrás dos médicos. A função deles é simplesmente auxiliar os médicos, cumprindo com a terapia que estes profissionais indicam. Elisa Gaspar declarou que em qualquer parte do mundo “o médico é o Deus na terra. Somos profissionais escolhidos por Deus”. “Falta de deontologia grave” .

As associações de enfermeiros dizem que tais declarações descredibilizam, denigrem e desrespeitam a classe e minam a boa relação institucional existente entre elas e a ORDMED. Isto consta numa “Nota de Protesto”, a que OPAÍS teve acesso.

O documento é sobescrito por Paulo Luvualo (bastonário da Ordem dos Enfermeiros de Angola), Viera Matete (secretário-geral do Sindicato Nacional dos Enfermeiros de Angola), José Tiago (presidente da Associação Nacional dos Enfermeiros de Angola), Luís João (secretário-geral do Sindicato Nacional Independente dos Trabalhadores da Saúde e Função Pública) e Afonso António Kileba (secretário-geral do Sindicato dos Técnicos de Enfermagem de Luanda).

Os signatários dizem que os pronunciamentos de Elisa Gaspar estão eivados de preconceitostos na abordagem das funções dos médicos e dos profissionais de enfermagem sobre a profissão de cada um e sobre a natureza de intervenções dos dois profissionais em matéria de assistência de saúde.

No seu entender, a bastonária da ORMED fez confusão de conceitos relativamente à missão, lugar e responsabilidade dos técnicos destes dois ramos na equipa de saúde e ignorou o princípio da complementaridade de um e de outro nos processos de assistência em saúde. O que representa uma “total ausência de ética, ignorância e imoralidade grave, ao comprar o médico a Deus na terra”.

“Falta de deontologia grave ao referir-se à relação profissional e técnica entre médico e profissional de enfermagem, na equipa de saúde, como sendo de quem dá ordens e quem as cumpre”, lê-se no documento.

Os líderes dos enfermeiros consideram que Elisa Gaspar demonstrou desconhecer totalmente o real estado do Sistema Nacional de Saúde. Esclarecem que dos 69 mil e 816 trabalhadores que asseguram o normal funcionamento de tais unidades sanitárias, somente 3 mil e 500 são médicos angolanos.

Razão por que consideram que os seus pronunciamentos pode provocar grave perturbação no Sistema Nacional de Saúde, com “o acirrar de falsos problemas que apenas residem na cabeça de alguém com perturbações e que não sabe como equilibrar- se no exercício de uma função com extrema responsabilidade no país”.

Essa afirmação consubstancia-se no facto de os profissionais de enfermagem cobrirem, “em condições precárias as exigências das políticas de Saúde estabelecidas pelo Executivo, trabalhando sem outro profissional em 2 mil e 101 das 2 mil e 644 unidades sanitárias”.

Num ataque directo à bastonária da ORMED, os protestantes advertem que ela deveria saber que a actividade dos seus filiados está baseada em evidência científica. Isto pelo facto de o processo de enfermagem cumprir uma sistematização, raciocínio clínico e crítico-reflexivo.

 Bastonária revela existência de falsos médicos Cubanos

 

Elisa Gaspar revelou que há técnicos de Saúde de nacionalidade cubana que não são médicos, mas que trabalham como tal em algumas unidades sanitárias do país. “Nós temos colegas cubanos que não são médicos. Temos exemplos concretos.

Vieram como enfermeiros e trabalharam como médicos, ganharam como médicos”, frisou. “Com o fim do contrato de serviço que os trouxe à Angola, regressaram a Cuba. Depois voltaram de novo a Angola e estão a fazer os cursos superiores de medicina e de enfermagem em Luanda”.

Garantiu que sabem de “casos concretos” e que estão a trabalhar neles. Para dissipar qualquer dúvida que possa pairar sobre os profissionais do sector presentes na cerimónia de empossamento do primeiro líder da ORMED no Cunene, Mwariz Kabey, Elisa Gaspar declarou que uma das técnicas que está a fazer licenciatura em medicina é sua amiga. “Ela veio como médica.

Esteve a trabalhar numa das províncias nessa qualidade. Terminou a missão, voltou a Cuba. Agora veio a título individual”, frisou. Este não foi o único caso que a bastonária da ORMED usou como exemplo, a fim de encorajar os seus associados a denunciarem. Contou o caso de um enfermeiro que estava a trabalhar como médico e agora está a fazer a licenciatura em enfermagem.

Por outro lado, sublinhou que faz muito gosto que os expatriados venham ajudar o país neste sector, no entanto, espera que sejam honestos com o país que os acolhe. “Todos aqueles que não forem, vamos denunciá-los informando as autoridades competentes para que isso termine”, frisou. Revelou que tem mais de duzentos processos de alegados médicos formados em Kinshasa, na República Democrática do Congo.

Para resolver esse caso, solicitou uma audiência com o embaixador desse país vizinho em Angola. “Como é que pessoas que não estão qualificadas vêm ocupar lugares de pessoas qualificadas que assim vão para o desemprego?” Questionou.

“Há mais de três mil médicos no desemprego” Elisa Gaspar declarou que existem mais de três mil médicos formados, tanto em Angola como em países como Cuba, ou Rússia, entre outros, que integram a lista de quadros qualificados no desemprego. Quando existem “charlatões a ganharem bastante e não são médicos.

Vamos ter de acabar com isso”. Reconheceu que todas as províncias precisam de médicos, mas não estão a conseguir enquadrá-los por não existirem vagas no sector. Ainda existem mais médicos a caminho do país. Disse ter em sua posse um dossier de médicos coreanos e vietnamitas que decidiu, por enquanto, não assinar. Primeiro quer perceber se são, de facto, formados no ramo.

“Como é que tenho mais médicos angolanos no desemprego e estou a receber médicos expatriados? Cooperação sim, mas temos de ver como. Não podemos beneficiar uns em detrimento dos nacionais”. O seu elenco pretende realizar um congresso extraordinário. Uma das inovações que está a implementar é a possibilidade de as direcções dessa organização poderem abrir uma conta bancária para que os seus associados passem a pagar a quota localmente.

Os valores arrecadados serão geridos pelos presidentes dos conselhos provinciais, deixando assim de dependerem, neste quesito, do órgão central, sedeado em Luanda. As declarações para o exercício da profissão fora da capital do país passarão a ser assinadas pelos responsáveis locais da organização.

A ORMED passará a enviar as cédulas profissionais às direcções provinciais e passará a ser aí que os seus utentes irão levantá-las. Somente os que pretendem inscreverse pela primeira vez é que se deverão deslocar à Luanda

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