Quebra de confiança dita afastamento de Boavida Neto, dizem analistas

Comité Central do MPLA, no acto mais sonante, alterou a composição do seu Bureau Político (BP), elegendo Paulo Pombolo para o cargo de secretário-geral do partido, em substituição de Álvaro de Boavida Neto

Alguns analistas políticos consideram a falta de confiança e um alegado desalinhamento, em relação às políticas do actual líder do MPLA, João Lourenço, como estando na base do afastamento do secretário- geral Álvaro Boavida Neto. A decisão, saída do VII Congresso Extraordinário do MPLA, ao princípio da noite deste Sábado, na visão de alguns analistas, já era de esperar, a julgar pelos pronunciamentos públicos de Boavida Neto, que, supostamente, davam sinais de ‘crispação’ com a visão do líder do partido. Para o cientista político, Rui Kandove não existiam condições politicas para o secretário-geral do MPLA continuasse após declarações públicas de ‘ pouco tacto’ versus a principal bandeira da governação o combate a corrupção.

“Se diz apoiar o antigo presidente responsável pelas práticas de combate à corrupção que o actual presidente lidera, então é porque esta contra o líder. Manter-se no cargo a liderança de João Lourenço seria sofrível” disse. Kandove foi mais longe ao apontar os prováveis motivos que pensa serem vários dentre estes pronunciamentos públicos no início do ano, assim como alegados envolvimentos em actos de má gestão da coisa pública. “O secretário-geral é praticamente o coração do partido, por isso é que deve estar alinhado com o líder e não entrar em cheque”, disse Rui Kandove que levanta muitas dúvidas, com esse cenário, que o presidente do partido consiga moldar o MPLA ao seu jeito. Belarmino Jelembi diz ser difícil fazer uma leitura sem se saber ao certo os motivos desta medida, mas salienta a relevância do cargo, salientando que a saída pode ter sido por perda de confiança do seu líder, sobretudo numa altura em que o partido regista reformas profundas, como, por exemplo, a geracional, com o alargamento do Comité Central.

Já o analista político Sérgio Kalundungo começou por classificar Álvaro de Boavida Neto como o secretário-geral dos ‘camaradas’ que menos tempo durou no cargo, segundo a história deste partido. Por esta razão, acrescentou Kalundungo, é que entende ser fundamental que estas decisões sejam explicadas à massa militante, para se evitar possíveis especulações. “A actual governação e liderança do presidente João Lourenço tem demonstrado sinais de mais abertura e mais diálogo. Mas, neste caso concreto, não deixou passar o motivo”, disse o nosso interlocutor, para quem o diálogo é importante para transmitir um sentido de transparência. Questionado se a entrevista concedida ao Novo Jornal no princípio deste ano, em que manifestou a sua lealdade ao antigo presidente Eduardo dos Santos teria pesado, de alguma forma, nesta decisão, Kalungundo diz não acreditar, justificando ser normal, a julgar pela dimensão política, histórica e cultural de um partido como o MPLA.

“Devem existir critérios mais profundos, não por ter exprimido o seu pensamento numa entrevista. Até porque para além de manifestar- se contra algumas medidas, disse ser leal ao actual presidente do partido”, afirmou Kalundungo. Sérgio Kalundungo aconselhou o recém-eleito secretário-geral do partido que governa o país, no sentido de prestar maior atenção aos direitos políticos, civis e económicos, sobretudo num contexto em que a sociedade é bastante exigente. “As pessoas querem medicamentos nos hospitais, querem alimentação na mesa, querem ver a condição social melhorada (….)”, alertou o especialista em políticas de desenvolvimento. Álvaro de Boavida Neto ocupou o cargo por pouco mais de um ano, e tinha sido eleito na reunião do Comité Central subsequente ao VI congresso Extraordinário, que elegeu João Lourenço como presidente do MPLA com 98.59 por cento, de um universo de 2 mil e 448 delegados.

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