A Netflix tira o influente « Padrinho Negro » da sua confortável sombra

Quem poderia imaginar Bill Clinton e Snoop Dogg no mesmo documentário para falar sobre um homem que os liga intimamente? E o que é certo e incomum é ver dois ex-presidentes dos Estados Unidos da América e uma candidata a homenagearem uma só pessoa num filme.

A Netflix conseguiu realizar essa proeza. O seu documentário, Th e Black Godfather, que saiu há 15 dias, conta a vida de um homem que desafiou as noções que impediam o progresso na América racista e segregacionista. Através de testemunhos excepcionais de grandes figuras, o filme louva as contribuições « do mentor da indústria do entretenimento e da política » nos Estados-Unidos, desde os anos 1960. Porque essa pessoa soube ligá-las.

Porque nada é impossível com ela; aliás a palavra impossível não faz parte do seu vocabulário. Foi assim que ela deixou uma marca indelével na vida de cada uma dessas figuras que testemunharam no documentário. De políticos (Barack Obama, Bill Clinton, Kamala Harris; candidata a presidente para 2020; Andrew Young, Jessie Jackson), a artistas famosos e activistas (Quincy Jones, Jamie Foxx, Snoop Dogg, Bill Withers, P. Diddy, Lionel Richie, Al Sharpton) e a uma série de barões de Hollywood, o filme revela uma estrela que ficou escondida por muito tempo. Todos reconhecem o impulso que ela deu às suas carreiras respectivas. Sobre ela, Obama diz que « foi a ponte entre o momento da história onde não havia oportunidades para negros e o momento onde as oportunidades começaram a surgir ».

Outros dizem que « ela não foi a ponte mas o caminho ». Quanto a Clinton, ele diz sobre ela que, no momento mais difícil da sua carreira política, o aconselhou a manter-se firme quando os Republicanos estavam a tentar tirá-lo do poder enquanto presidente. Em suma, o documentário é como a estrela que revela e a única pessoa capaz de reunir todas as outras em sua volta é Clarence Avant.

Não se espante se nunca ouviu falar dele, é normal, ele é um homem dos bastidores e cultiva a discrição. E como diz o seu filho Alex no documentário, « ele é a celebridade das celebridades ». Avant ficou mais conhecido como agente e produtor de artistas. Por exemplo, foi ele quem produziu a primeira turné solo de Michael Jackson, Bad World Tour. Mas Avant tocou em tudo, ao mais alto nível do poder, e foi o único negro que atingiu tal dimensão de influência nesse mundo quase totalmente branco. Ele soube identificar e conectar as pessoas certas, principalmente em benefício dos negros.

Obama resume a essência de Avant dizendo « que uma das coisas que ele entende é que existem diferentes tipos de poder. Há o poder que precisa dos holofotes, mas também há o poder que vem dos bastidores ». Por trás desta declaração, Obama quis confessar que foi Avant quem conseguiu para ele o horário nobre que permitiu difundir o discurso que ele fez na convenção democrata de 2004; o discurso que o tornou famoso nacional e internacionalmente. Isso permitiu aumentar o seu perfil político no país que dirigiu quatro anos depois. De facto, o documentário põe em foco uma figura estelar que ficou muito tempo nas sombras.

Revela o verdadeiro maestro, pioneiro, projetando a luz sobre o homem que passou toda a sua vida a fazer brilhar os outros. Traça a sua excepcional e improvável ascensão e o seu impacto silencioso mas meteórico na cultura, através de testemunhos de outras estrelas que ele ajudou a brilhar. Avant redefiniu a noção do poder e deixou um legado de altruísmo para outros imitarem. A sua perspicácia rapidamente prestou-se à música, ao desporto, à televisão, ao cinema e até à política. Ele é o homem que faz acontecer as coisas; Clarence caça e faz crescer talentos benéficos. E quando se trata do número de pessoas que ele tocou ao longo dos anos, esse número é infinito.

Tendo uma relação filial com ele, nada que eu possa escrever neste artigo poderá cabalmente exprimir a grandeza e a indescritível nobreza deste homem fora do comum. Posso somente testemunhar que o documentário foi capaz de compreender e exprimir os seus valores mais intrínsecos. Clarence ensinou-me a conduzir a minha vida com um senso de igualdade, lealdade e justiça.

Como Kipling no seu famoso poema « Se », Clarence ensinou-me a manter a calma e a crer em mim, a não mentir ao mentiroso nem ao caluniador, a resistir ao ódio e à dor, a deixar destruir tudo que construí com sacrifícios sem dizer nada, para não me corromper ou deixar-me corromper. Em cada conversa que tenho com ele, exorta sempre a procurar a verdade e a equidade – os únicos aliados de uma vida nobre  e aconselha a não lutar pela fama, nem para acabar rapidamente um esforço necessário. « Devemos ser melhores a cada dia, para o benefício dos outros », diz sempre.

Recomenda fugir de fofocas, ter a sua própria opinião sobre as coisas e não entrar nas intrigas daqueles que as tornam um meio de viver e ganhar poder e fortunas desonestas enquanto derrubam talentos úteis pelo caminho. Porque, e Clarence sempre insiste nisto, a mentira tem perna curta, não importa quão forte. Pois, até mesmo as fezes que escondemos no fundo dos oceanos acabam por subir à superfície. São esses pilares de nobreza que construíram a sua vida. A verdade sempre triunfará, este é o seu mote. Eis o legado que recebi de Clarence e que devo transmitir intacto.

Quando o convidei a Paris, em 2008, para o homenagear com a comunidade negra de França, a sua vinda suscitou inveja, porque Clarence não aceita prontamente recompensas. Mas tinha lhe dito que gostava que se soubesse em França que tínhamos modelos como ele, e com a morte de Aimé Césaire que se anunciava naquele ano e com Barack Obama que estava na fase final da campanha presidencial no mesmo ano, a sua visita seria um marco importante na inexorável viragem da história que esperávamos com ânsia. Aceitou prontamente e veio depressa. Ficou 6 dias. Também veio a sofisticada esposa, Jacqueline, e o filho consciente, Alex. É uma família formidável, que se dedica ao progresso; na paz, igualdade, justiça.

Clarence respeitou sem reclamar todo o programa que fiz para ele, nem quis olhar para os meus erros juvenis reiterados. Pelo contrário, encorajou-me e continua até hoje, como um bom mentor que sabe que a idade não é só um usufruto mas uma responsabilidade – dizendo, e sempre, « you are ok! ». Durante a estadia, procurou passar muito tempo comigo, nós os dois só, para conversar, para perceber, queria entender como era a vida de um negro em França. Passeámos algumas vezes pela cidade, à pé, Paris via apenas dois negros a andarem; um velho ao lado de um jovem.

Então caminhávamos na indiferença desta cidade onde as pessoas que têm o poder todo são ainda todas brancas, nem sequer notaram a presença de um Clarence Avant que o século XX já nos tinha dado como uma dádiva. « Esta é a residência oficial do presidente da República Francesa », disse-lhe, em frente ao grande portão do Palácio do Eliseu, donde os guardas discretos e corteses nos olhavam atentos.

Parou e observou com silêncio eloquente e continuámos a marcha – assim como ele anda nas ruas de Los Angeles, incógnito, no passo do homem que nasceu sob Jim Crow, no sul, há 88 anos, e que combateu o racismo toda a sua vida. « A change is gonna come », disse-me convicto, parafraseando o título da canção de Sam Cooke, e foi com a mesma frase que terminou o seu discurso de aceitação do prêmio que a comunidade lhe deu, durante uma pomposa cerimónia que durou 3 horas, sob o olhar emocionado de Christiane Taubira; que ainda não era ministra da justiça, era somente um dos poucos rostos negros que se viam na Assembleia Nacional francesa. Mas Clarence nunca quis ser famoso, ele veio ao mundo para cumprir a sua missão como Homem: servir os outros.

E cumpriu-a com brio. Tê-lo neste documentário foi uma luta árdua e longa, e é uma vitória porque conseguimos trazer ao público um testamento de nobreza e humanidade, um arquivo exemplar para todos.

O documentário termina com esta sua frase: « Sim, ajudei muitas pessoas, mas o meu trabalho, no que me diz respeito, é levarnos adiante, ponto final ». Pois, os grandes têm esse tipo de desapego e simplicidade, enquanto preservam o senso de dever.

Por: Ricardo Vita

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