“Sinto-me triste quando vejo uma criança na 6ª classe que não saber ler”

“Sinto-me triste quando vejo uma criança na 6ª classe que não saber ler”

 

Senhor secretário de Estado, que razões levaram o Ministério da Educação a criar mais um programa de capacitação para professores primários, o CAPPRI, quando já existe o outro, o Projecto de Aprendizagem para Todos (PAT)?

O Ministério criou mais um programa de capacitação porque dos cerca de 200 mil professores que Ministério tem, cerca de 120 mil são do ensino primário, temos o ensino primário em todo o país, nas aldeias, comunas e municípios.A nossa maior aposta reside no ensino primário, daí a necessidade de actualizarmos constantemente os mesmos professores para podermos encarar o ensino com maior responsabilidade. O PAT não abrange todos os professores primários e todos os programas concorrem para melhorar o perfil do professor. Ainda que surja o terceiro ou o quarto programa, desde que seja para articular a preparação dos professores, será bem-vindo.

Quais são os pontos divergentes e convergentes entre ambos os programas?

O CAPPRI e o PAT têm em comum as disciplinas de Língua Portuguesa e de Matemática, mas o CAPRRI é um pouco mais abrangente porque tem a terceira componente que é o desporto, arte e cultura.

O que acrescenta de novo no nosso currículo escolar essa capacitação na área das artes, cultura e desportos, quando se sabe, por exemplo, que as aulas de educação física são, em muitos casos, resumidas a corridas?

A nível do ensino primário é necessária esta componente do desporto e cultura porque é de pequena que a criança começa a adquirir habilidades em determinas modalidades,mas isso passa pelo incentivo do professor que deve dominar as metodologias para motivar as crianças. Neste nível temos as expressões motoras e precisa-se que o professor tenha o mínimo de conhecimento para que possa direccionar as crianças, para não correr o risco de deformá-las. Embora tenhamos falta de espaços desportivos dentro das escolas, mas pode-se fazer exercícios dentro das salas de aulas, afastando-se as carteiras, ou no pátio da instituição. O importante é descontrair e criar o gosto na criança.

Dr. Pacheco, sabe-se que desde a implementação do CAPRRI, no ano passado, foram formados em Luanda 4 mil professores. Quais são os outros resultados desta capacitação?

Temos constatado na sala de aula melhorias no processo de ensino, fundamentalmente de as crianças perceberem determinadas matérias, porque antes, com os métodos tradicionais, pensávamos que era necessário insistir muito nas crianças para aprender e notava-se uma certa resistência. Agora estamos a ver que com determinados jogos a criança aprende “sem perceber”. Com a capacitação dos professores estamos a ver que os resultados finais estão a ser positivos, tanto para o professor como para os alunos. São estes métodos que o CAPPRI está a trabalhar e é importante dizer que no processo de conhecimento nenhum professor pode dizer que já é auto-suficiente. À medida que vão surgindo novos métodos, nos interessa e aplicamos aqueles que mais se adequa à realidade dos alunos.

Quantos professores o CAPPRI pretende formar e em quanto tempo sr. Secretário de Estado?

Em termos de arredondamento, estamos a falar em 50 mil professores, e vamos formar em 5 anos.

Qual é a fonte de financiamento e quanto se vai gastar?

A fonte de financiamento é o próprio Ministério da Educação, e temos procurado parceiros que possam alinhar-se com a causa. Neste momento temos o banco BFA, que manifestou o desejo de ajudar, o que ainda não é suficiente. A formação de cada professor custa 50 mil Kz, agora é só multiplicar pelos 50 mil professores.

O Dr. Pacheco foi director da Educação na província do Namibe e lhe é reconhecido mérito porque, diz-se, enquanto esteve no Namibe as crianças aprendiam a ler antes da 3ª classe, mas a sua nova responsabilidade permite-lhe olhar para o país de forma mais ampla, o que sente quando vê uma criança na 6ª classe que não sabe ler?

Sinto-me preocupado e triste, porque isto foi uma luta que tive enquanto estive no Namibe. Conhecendo bem o ensino primário, cada uma das classes tem metas a atingir e a questão da leitura e escrita não é da 6ªclasse, por isso sou contra as pessoas que dizem que o problema é da monodocência…

E onde está o problema…?

A monodocência já existia até à 4ª classe. Um aluno que não sabe ler na 6ª classe o problema está nas classes anteriores, porque naquilo que são os perfis de saí- Continuação da página 10 da uma criança até à 2ª classe tem que saber ler e escrever. Para isso é necessário trabalhar-se mais nas classes anteriores, heis a razão por que falamos muito hoje do pré-escolar. Aquelas crianças que passam por uma creche e jardim- de-infância vão para a iniciação já com uma dose de conhecimentos. Quando elas são colocadas directamente na 1ª classe, com 6 anos, é uma dor de cabeça. É preciso ensinar as técnicas de leitura, escrita e cálculo em matemática aos nossos professores para possibilitar que os alunos tenham capacidade de interpretar. Precisamos de treinar os nossos professores… Os directores provinciais têm a obrigação de orientar os directores de escolas a fazerem diagnósticos das aprendizagens no início de cada ano lectivo, para termos a certeza do nível do conhecimento que os alunos trazem. Quando isto não acontece, os problemas começam a surgir no meio do ano. Foi o que aconteceu no Cuanza-Norte. O director é novo, fez o diagnóstico e detectou o problema, mas, ao invés de sentar primeiro com os responsáveis de escola, meteram a informação no ar. Nós, a nível do Ministério conhecemos o problema, eu venho da base e domino a realidade. No Namibe, quando recebíamos uma criança fazíamos o diagnóstico perante o pai e, caso não estivesse em condições de fazer aquela classe, conversávamos com a família e a criança recuava para depois apanhar o balanço e avançar.

Não acha que a inserção da 5ª e 6ª classes no ensino primário veio agudizar ainda mais este problema, quando o mesmo professor tem de dar educação física, educação musical e outras disciplinas da monodocência?

O acréscimo que se fez da 5ª e 6ª classes não acompanhou a dinâmica da formação de professores, foi apenas isso. Todos os países da região austral de África têm seis a sete classes no ensino primário e o nosso país era o único que tinha quatro. Atendendo que muitos angolanos depois iam estudar nesses países, tínhamos necessidades de nos igualarmos aos demais. Em 1997/98 organizou-se a formação para a reforma que se avizinhava com o instituto de se reproduzir em todas as províncias. Cumpriu-se no primeiro e no segundo ano, mas depois os professores foram melhorando os seus níveis académicos e ninguém mais queria ficar no ensino primário. Todos transitaram para o primeiro e segundo ciclos e não houve ninguém para os substituir. Os que entraram para o ensino primário não tiveram a formação necessária.

“Muitos vieram parar na educação por orientação administrativa”

E qual é o diagnóstico que os responsáveis fazem do sector?

Quem me diz que a Educação está mal eu aceito, porque eu estou dentro. É preciso fazer esforço para mudar o quadro, mas, primeiro, consciecializando as pessoas que estão na educação, porque muitos deles estão aqui mas não sabem qual é o seu verdadeiro papel. Alguns entraram porque estavam com falta de emprego e assim resolveram o problema. Ainda que tal salário seja pouco, mas quando um professor nota que no primeiro e no segundo trimestre o aluno não aprendeu deve preocupar-se. Como é que ao longo de nove meses os teus alunos não aprenderam a ler? Você como professor te sentes bem com isso?

Temos professores caçadores de emprego e salário no Ministério?

Não digo que temos professores caçadores, mas muitos que estão na educação entraram sob orientação administrativa de que esses jovens têm que entrar para resolvermos o problema do emprego e, no fundo, não resolvemos o problema da educação. Tirando o concurso de 2018, em que não houve influência nenhuma, nos demais concursos houve influência, era só entrar porque dizia-se que era preciso resolver o problema do emprego, mesmo sem formação. Não podemos continuar a remediar com a educação. A educação é um assunto sério.

Que modelo de professor primário o Ministério deseja?

O ensino primário não é para qualquer pessoa e eu sempre defendi que não temos, no seu todo, pessoas que conseguem levar as crianças da iniciação até à 6ª classe. O ensino primário está dividido em ciclos. A 1ª e a 2ª classes correspondem ao primeiro ciclo, o segundo ciclo tem a 3ª e a 4ª, e o terceiro ciclo que é a 5ª e 6ª classes. Há professores especializados para cada ciclo, mas quem deve conhecer isso é o gestor escolar, o que não acontece na prática. É preciso colocar cada peça no seu devido lugar. Há directores que não conhecem o potencial dos seus professores e trabalham de forma aleatória. Temos professores mesmo bons só para a iniciação. Não mexe esse professor, alguns para a 1ª e 2ª classe e assim em diante, mas tens que valorizar este professor. Nós às vezes pensamos que o professor que não rende nada é que deve ficar no ensino primário e é ali onde estragamos tudo, porque invertemos a pirâmide. Nos outros países os mestres estão nestas classes. As dificuldades que temos hoje no ensino é porque não se prestava muita atenção ao ensino primário. No ensino primário devem estar os melhores.

“O excesso de alunos não é problema do gestor, é nosso problema, nós, políticos”

Mas as enchentes nas salas de aulas não ajudam no trabalho do professor…

A maior pressão que se pode fazer ao Governo não é ter as salas cheias, porque assim não estamos a resolver o problema, fingimos que as crianças estão a estudar, mas, no fundo, não aprendem nada. No fim, o professor acaba por avaliar aleatóriamente e mesmo o indivíduo que não avaliou vai colocar 10 valores.

O gestor só tem que cumprir o regulamento. Se a sala só tem capacidade para 30 alunos é mesmo este número que ele tem que colocar, não pode exagerar. Eu tenho dito aos directores que a questão do excesso de alunos não é teu problema, é nosso problema, nós, políticos.

O administrador é obrigado a fazer o levantamento porta a porta na sua área de jurisdição para saber quantos alunos estudam e os que não estudam. O Ministério pode dizer que tem 20 mil alunos fora da escola e o administrador dizer que tem 40 mil. No final, o que conta é o número do administrador. É ele que vai construir as escolas e vai entregar ao Ministério para gerir. É assim que as coisas devem funcionar, mas acontece o contrário, quando há crianças fora do sistema toda a gente olha para o Ministério, mas devem olhar para o administrador. Ainda bem que estão a vir as autarquias. Por outra, as enchentes nas salas é também falta de visão dos administradores, porque quando ele nota este problema deve convocar a comunidade para, com ajuda destes, se construir escolas precárias, as igrejas são feitas com esforço da população… O importante é termos lá o professor capacitado para transmitir conhecimentos. É melhor termos escolas precárias do que termos enchentes ou crianças sem estudar.