Chefe do Exército da Etiópia e altos funcionários regionais mortos em tentativa de golpe

O chefe do Estado-Maior da Etiópia e o presidente regional do Estado de Amhara, no Norte, foram mortos em dois ataques relacionados, quando um general tentou tomar o controlo de Amhara numa tentativa de golpe, informou o gabinete do primeiro-ministro no Domingo

O presidente do Estado de Amhara, Ambachew Mekonnen, e o seu assessor foram mortos e o procurador-geral do Estado foi ferido na capital de Amhara, Bahir Dar, na noite de Sábado, segundo um comunicado do gabinete do primeiro-ministro Abiy Ahmed. Em ataque separado, mas relacionado, na mesma noite, o chefe do Estado-Maior do Exército da Etiópia, Seare Mekonnen, e outro general aposentado foram mortos a tiro na casa de Seare, em Addis Ababa, pelo seu guarda-costas.

O escritório de Abiy indicou o chefe de segurança do Estado de Amhara, General Asamnew Tsige, como responsável pelo golpe frustrado, sem dar detalhes do seu paradeiro. Asamnew foi solto no ano passado, tendo sido amnistiado por uma tentativa semelhante de golpe, de acordo com relatos dos media. Abiy assumiu o cargo há pouco mais de um ano e embarcou em reformas sem precedentes na Etiópia, o segundo país mais populoso de África e uma das economias de crescimento mais rápido.

Mas a reorganização dos serviços militares e de inteligência, pelo primeiro-ministro, valeu-lhe uma espetada de poderosos inimigos, enquanto o seu Governo luta para conter a crescente violência étnica, inclusive em Amhara. O tiroteio em Bahir Dar ocorreu quando o presidente do Estado – um aliado de Abiy – realizava uma reunião para decidir como conter o recrutamento aberto de milícias étnicas por Asamnew, disse um funcionário da Addis à Reuters. Uma semana antes, Asamnew havia aconselhado abertamente o povo Amhara, o segundo maior grupo étnico da Etiópia, a preparar- se para lutar contra outros grupos, num vídeo divulgado no Facebook e visto por um repórter da Reuters. Moradores de Bahir Dar disseram que houve pelo menos quatro horas de tiroteio no Sábado à noite e que algumas estradas foram fechadas. Abiy vestiu uniforme militar para anunciar a tentativa de golpe na televisão estatal na noite de Sábado. No começo do Domingo, o general de brigada Tefera Mamo, chefe das forças especiais em Amhara, disse à televisão estatal que “a maioria das pessoas que tentaram o golpe foram presas, embora ainda existam algumas em liberdade”. Ele não deu detalhes sobre Asamnew.

Luta por reformas

Desde que chegou ao poder, Abiy libertou prisioneiros políticos, removeu as proibições de partidos políticos e processou autoridades acusadas de abusos grosseiros dos direitos humanos, mas o seu Governo luta contra o derramamento de sangue étnico, uma vez controlado pelo poder do Estado. Agora, alguns dos muitos grupos étnicos da Etiópia estão a disputar as fronteiras dos nove estados federais do país, ou argumentando que eles também deveriam ter governos regionais, alegações que ameaçam o domínio de outros grupos. “Ele (Abiy) parece estar a desmantelar a EPRDF (coligação governante) e pensa em alterar a arquitectura do federalismo, mas não deu nenhuma direcção clara em que está se dirigindo”, disse Matt Bryden, chefe do think tank regional Sahan. “Essa incerteza está a gerar muita competição e … levando muito do atrito e da violência.” Abiy também havia mudado muitos altos funcionários da segurança quando chegou ao poder, observou Bryden, criando mais incertezas que permitiram que grupos armados antes esmagados florescessem. Seare era o terceiro chefe de gabinete que Abiy havia designado.

As mudanças de Abiy não ficaram sem contestação. Há um ano, ele sobreviveu a um ataque com granada que matou duas pessoas numa manifestação. Em Outubro, centenas de soldados marcharam até ao palácio exigindo mais salários. Ele desarmou a situação fazendo concessões, mas depois disse que eles estavam a tentar atrapalhar as reformas. A Internet foi cortada na Etiópia no Domingo, embora não tenha havido declaração do Governo sobre o assunto. Anteriormente, as autoridades cortaram a Internet várias vezes por razões de segurança e outras. A Etiópia deve realizar eleições parlamentares nacionais no próximo ano, embora a direcção do Conselho Eleitoral tenha alertado no início do mês que eles estavam atrasados e que a instabilidade e o deslocamento poderiam causar um problema para as pesquisas. Vários grupos da Oposição pediram que as eleições sejam realizadas a tempo, de qualquer maneira.

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