LIMA defende mais mulheres no Parlamento

Organização feminina da UNITA, o maior partido na Oposição, liderado por Isaías Samakuva, que comemorou 47 anos de existência no dia 18 de Junho, cujo acto central se realiza no dia 29 de Junho no Sumbe, Cuanza-Sul, defende, pela voz da sua presidente, mais mulheres no Parlamento, “para dar equilíbrio”, nesta entrevista a OPAÍS

Senhora presidente, que balanço faz destes 47 anos de existência da LIMA?

O balanço é positivo. A LIMA surgiu da participação efectiva das mulheres na luta de libertação nacional quando a UNITA se constituiu em partido e iniciou a luta contra o colonialismo. A mulher não ficou atrás, juntou-se aos homens com empenho e entrega desde a sua criação, a 18 de Junho de 1972.

Foi auxiliar dos homens também no campo de batalha?

Sim. A mulher da LIMA foi treinada também para exercer tarefas militares. Tanto poderia estar na frente de combate como na rectaguarda, mas sempre preparada para acções e atitudes militares. Quando estivesse na frente de combate, era com os homens a enfrentar directamente o inimigo.

E o que fazia na rectaguarda?

Na rectaguarda ocupava-se de tarefas sociais, educação, serviços de enfermagem, tratar nos hospitais os feridos que vinham das frentes de combate. Esta luta também subscreveu-se na emancipação da mulher na defesa pela igualdade e dignidade.

Como surgiu a LIMA?

A nossa organização, Liga da Mulher angolana (LIMA) que é o braço feminino do partido UNITA, foi criada a 18 de Junho de 1972, pelo presidente fundador Jonas Savimbi, numa localidade chamada Cutaho. De lá para cá, já teve nove presidentes, decorrentes da renovação de mandatos. A primeira presidente foi Izalina Cawina Cahunda.

Depois seguiram-se outras…

Vieram a seguir as presidentes Eunice Sapassa, Alcina Campos Mateus, Helena Coquelo Caquinda, Alda Juliana Sachihambo, Odeth Luduvina Joaquim, Miraldina Olga Jamba e outras. Em Dezembro de 2015 fui eleita presidente nacional da LIMA, recebendo o testemunho da presidente Miraldina Jamba para um mandato de quatro anos ( 2015-2019). Mas todas elas passaram pelo processo de eleição, nenhuma das presidentes tomou a direcção da LIMA sem ser eleita e esta eleição acontece de quatro em quatro anos.

Como é que a LIMA está organizada?

A LIMA foi tendo conferências nacionais, mas depois evoluiu para a realização de congressos. Desde a sua existência já realizou três congressos ordinários e estamos agora num mandato que também já está quase no fim. Estamos já a prever a realização do quarto congresso ordinário. Estamos agora na preparação da nossa IV reunião ordinária do Comité Nacional, órgão de direcção que tem o poder de orientar a presidente para convocar o congresso. Também tem a missão de supervisionar o Executivo Nacional quanto ao cumprimento das resoluções saídas dos congressos.

Quais foram as realizações mais marcantes ao longo destes 40 anos de existência?

Na minha maneira de ver, quase todas foram muito importantes: primeiro, porque a mulher libertou- se do jugo colonial, mas também despertou de que ela não poderia ser simplesmente doméstica. Despertou para a sociedade e para cumprir o seu papel duplo de mãe e também servir a pátria.

A LIMA tem muitas mulheres a ocupar cargos de direcção no partido e na função pública?

Hoje há um número considerável de mulheres nos lugares de tomada de decisão da coisa pública, apesar de que a percentagem ainda não é satisfatória. Queremos mais mulheres nos lugares de decisão onde se debatem questões nacionais de interesse público.

Para além da sua acção política de que é que se ocupa mais a LIMA?

No campo político nós temos estado a conversar com as mulheres para abraçarem a carreira política, sobretudo a nossa juventude. É importante que as mulheres estejam ligadas à política para, em conjunto com os homens, tomarem as melhores decisões. Também estamos a trabalhar na questão de incentivar as mulheres para o processo autárquico, porque queremos mulheres não só a elegerem, mas também a serem eleitas. Se um poder local for exercido por uma mulher, acredito que terá um impacto maior, pela sensibilidade feminina para ajudar a resolver os problemas das comunidades.

E no campo social?

Uma das nossas lutas também tem sido a questão de melhorar os serviços de Saúde, isto é, incentivar o Governo para construir hospitais de proximidade, para acudir nas doenças que nos afectam. Também temos estado a lutar contra o pagamento de propinas nas escolas de alunos cujos pais não têm condições para pagar, e tantas outras coisas sociais.

Como é que está a representação da LIMA no Parlamento?

Não há equilíbrio em relação à questão de género no Parlamento. Não há força política com assento parlamentar que tenha equilibrado o género, de uma maneira geral, a Assembleia Nacional está desequilibrada. Mesmo no nosso Grupo Parlamentar não temos esse equilíbrio. Somos onze deputadas numa bancada onde temos 51 deputados. Internamente vamos lutar para que o nosso partido, UNITA, reveja esta situação nos próximos pleitos eleitorais, para que tenhamos mais mulheres no parlamento.

Qual é a vossa relação com as outras organizações congéneres?

É boa. Menos com a Organização da Mulher Angolana (OMA). Nós convidamos a OMA nas nossas actividades, mas elas não se fazem presentes. Quando elas nos convidam, nós estamos presentes. Essa atitude da OMA não é boa no quadro do processo de reconciliação nacional em curso.

E com as outras associações?

Lidamos com as ONG, somos parceiras do Ministério da Acção Social e Família, da Plataforma Avante Mulher (PMA), Rede Mulher e outras. O que eu trago aqui para reflexão é que em Angola, apesar de ter estas associações da sociedade civil, temos as mulheres enquadradas nos partidos políticos, mas, infelizmente, cada uma destas associações comemora o seu próprio dia. Temos de evoluir para encontrarmos um dia em que as mulheres se reencontrem, independentemente das suas cores políticas, crenças e culturas, mas que se reencontrem para discutir questões de mulher e da sociedade em geral.

Qual é a vossa opinião sobre o novo Código Penal que condena o aborto?

Nós não somos pelo aborto, mas pelo alargar profundo do debate sobre este assunto. Para questões justificadas por médicos, cientificament, isto é um caso diferente.

Como é que a LIMA tem acompanhado a questão de violência doméstica, sobretudo contra as mulheres?

A violência doméstica em Angola atingiu proporções alarmantes. Há registos de agressões físicas, homicídios e até violência psicológica. A violência é uma pandemia a combater e nós aconselharíamos rapidamente para que se reveja a Lei 25/11, para reforçá-la. Seria bom que a difusão da lei contra a violência fosse elaborada e divulgada também em línguas nacionais.

Do seu ponto de vista, como é que se pode combater este mal?

Para minimizar esta situação, primeiro mais diálogo nas famílias, palestras nas comunidades. Reconheço haver muitos esforços do Estado, da sociedade, mas é preciso mais do que isso, porque a violência doméstica tem estado a provocar desestruturação familiar.

Biografia

Nome: Helena Bonguela Abel Data de nascimento: 03 de Junho de 1957, na província do Huambo, municipio do Catchiungo. Ingressou nas fileiras da UNITA em 1974, deputada à Assembleia Nacional, frequenta o 3º ano do curso de Psicologia na Universidade Agostinho Neto (UAN). Mãe de cinco filhos.

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