O documentário da Netflix que arrasa Moro,Bolsonaro e Temer

desde o dia 19 no streaming da Netflix, Democracia em Vertigem, de Petra Costa e com música de Rodrigo Leão, é um relato da ascensão de Bolsonaro e Moro e da queda de Dilma e Lula. A crise de um Brasil dividido em duas horas de cinema de denúncia pura e dura

POR: Diário de Notícias

Sérgio Moro está nas notícias sobre a sua possível imparcialidade na condução do processo Lava Jato, mas em Janeiro estreava no Festival Sundance este documento que investigava e dava pistas sobre o fim da democracia no Brasil desde o impeachment a Dilma Rousseff e a queda de Lula. Democracia em Vertigem tem uma realizadora que investiga em gesto político e que assume a sua parcialidade. E aí não engana ninguém: mesmo com críticas à falência ética e moral do PT, Petra Costa, filha de antigos activistas contra a ditadura militar brasileira, está a filmar um golpe e a querer dizer ao espectador que as elites e a Direita travaram o processo que Lula tinha iniciado no começo do seu primeiro mandato.

Através de imagens de arquivo e de um acesso privilegiado a Lula e a Dilma Rousseff , o filme expõe de forma didática todo o processo que culminou na queda de governo até à eleição de Jair Bolsonoro. Tem imagens que denunciam um complô entre juízes e políticos de direita, ao mesmo tempo que prova um país “rachado”, sublinhado num plano simbólico no Planalto, onde um autarca decide que os apoiantes de Dilma ficam à esquerda da linha divisória. O que surpreende mesmo é a forma como consegue mostrar as emoções de Lula à flor da pele nos momentos em que percebe que a inevitabilidade da sua detenção está ao virar da esquina ou quando segue Dilma no exacto momento em que acaba de ver a votação no Senado para a sua destituição. E, nesse plano, trata-se de um mecanismo emocional que visa afirmar uma ideia de humanidade. Dilma e Lula não são peões políticos, a câmara de Petra não corta as lágrimas que caem dos seus rostos.

De alguma forma, Democracia em Vertigem é um filme complemento a outro documentário, O Processo, de Maria Augusta Ramos. Mas se em ambas visões há um registo de prova de cabala ou de golpe palaciano, Democracia em Viagem tem um pouco menos de cinema e mais de activismo político, embora Petra ganhe o filme por apostar em confissões íntimas a partir de uma narração que revela um desencanto de quem anuncia nuvens sombrias quanto ao futuro do seu país. Ao fim ao cabo, mais do que peripécias do nascimento de um fascismo populista, a crónica neste registo é a de um trauma. É precisamente esse aspecto que parece conferir ao filme uma carga assustadora, quase de “thriller” onde os maus-da-fita roubam o sonho de uma democracia de 35 anos – “A democracia no Brasil e eu temos a mesma idade e eu pensava que aos trinta iríamos estar em terreno sólido”, ouve-se Petra a dizer.

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