Exposição Okufeit(ka) de Iris Chocolate visitada por mais de 300 pessoas

A mostra que estará ao dispor do público até 3 de Agosto próximo, na Jahmek Contemporary Art em Luanda, procura mostrar como as nuances do passado podem ser reimaginadas de uma forma poética

Okufeit(ka) é a mais recente criação artística de Iris Buchholz Chocolate, retratando a História do sítio arqueológico do Féti, situado a 95 quilómetros da cidade do Huambo, e continua a despertar o interesse do público apreciador das artes, na Jahmek Contemporary Art em Luanda. A mostra, associada ao programa educativo “Okuoya”, em umbundu, que em português significa (completar), tem como curadora, Tila Likunzi, e procura mostrar como as nuances do passado podem ser reimaginadas de uma forma poética.

Trata-se de um programa que inclui a abordagem de vários temas ligados à arqueologia, à astronomia, à metalurgia, às culturas materiais e ao património cultural. Desde a sua inauguração, a 30 de Maio último, a exposição Okufeti(ka) já foi visitada por mais de 300 pessoas, e ainda continua a receber estudantes oriundos de diferentes escolas de Luanda. Nesta prestigiada colecção, os desenhos, carimbos, estampas, estudos de cor e instalações usando latão, cobre, carvão, argila, cera, ráfia, chifres, penas e o som ecoam na linguagem, a memória; o mito e as práticas culturais e sociais de uma sociedade ancestral Ovimbundu, no Planalto Central de Angola, espelham Féti como um lugar real e imaginado, ocasionando um olhar crítico sobre a história das antigas culturas materiais como pensamos que as conhecemos.

Tila Likunzi, a comissária desta exposição, revelou a OPAÍS, que a obra reflecte a arqueologia da mente, as memórias da realeza, a mineração, a caça, a guerra e a identidade cultural, estimulando uma atmosfera de redescoberta do passado e da história da nossa existência. Sublinhou que o presente está em constante diálogo com os sujeitos e objectos do passado, o que no seu entender, o passado não pode ser revertido, mas pode ser compreendido nas suas várias dimensões”. Tila Likunzi realçou igualmente que a produção de diferentes formas de conhecimento sobre o passado e discorrer sobre a sua conservação, reconstrução ou preservação, depende da escala em que o desejamos imaginar, interpretar ou reinterpretar.

Adiantou que ao libertarmo-nos da noção de que o passado pode existir independentemente do presente, pelo facto de já ter ocorrido, desencadeamos uma mudança ontológica – do distanciamento generalizado ao engajamento localizado, desenvolvendo assim a consciência de que a intimidade entre a mente humana e o mundo material é um processo que se repete infinitamente, com características próprias dos espaços e tempo em que ocorrem. Tila Likunzi admitiu que as evoluções tecnológicas, sociais e políticas alteraram a forma como nos relacionamos com o meio em que vivemos, os objectos que o compõem e o próprio conceito da História. Recordou que ao analisarmos as antigas camadas de desenvolvimento e interacção cultural, reconhecemos que o passado pode ter sido tão subtil e dinâmico quanto o presente, exigindo assim novas historiografias.

Já Iris Buchholz Chocolate, autora da exposição, desenterrando a construção moderna de narrativas arqueológicas sobre sociedades africanas antes do impacto do tráfico transatlântico de escravos e colonização, aspira a uma reconstituição, ou mesmo restituição de uma história perdida ou desconhecida, questionando estruturas hegemónicas de olhar, aprender e sentir a história, desafiando a nossa capacidade de renegociar a nossa percepção do passado e incorporá- lo no presente. A mostra foi inicialmente inspirada por um livro do etnólogo alemão Alfred Schachtzabel, sobre as viagens no centro e Sul de Angola do etnólogo, onde visitou a estação arqueológica do Féti em 1913.

Este local de vestígios arqueológicos, segundo Tila Likunzi, é um dos maiores da África Austral e está situado próximo da confluência dos rios Cunhongâmua e Cunene. Era o povoado central de uma sociedade complexa e provavelmente a capital do reino. A particularidade do sítio consiste no facto que é bem lembrado na tradição oral ovimbundu através do mito de criação Féti. A exposição reproduz a história esquecida e é composta por obras que reflectem a arqueologia da mente, as memórias de realeza, a mineração, a caça, a guerra e a identidade cultural, estimulando assim uma atmosfera de redescoberta do passado e da história da nossa existência.

Enxertos da exposição Okufeti(ka)

O tempo viajou pelo céu como uma flecha/ Com as minhas mãos/ Do passado e do futuro/ Hei-de agarrar duas pedras E correr com elas/ Mesmo com a mais leve brisa voarei/ Invocarei um vento, para vir/ E apagar todos os vestígios/ E sentar-me-ei como um órfão/ Na berma da estrada, a chorar/ As minhas duas pedras. Tila Likunzi – Curadora

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