Kyaku Kyadaff :Da trova aos grandes palcos nacionais e internacionais

kyaku kyadaff é um nome que hoje desperta atenção. nos últimos 10 anos, é das principais revelações que surgiu na arena musical angolana, fazendo furor em palcos nacionais e internacionais. Todavia, deu os primeiros passos nessas lides animando com a sua guitarra em bares e restaurantes, participando igualmente em concursos com vista a almejar um lugar de destaque na música nacional. Persistência, trabalho e dedicação nortearam os seus objectivos. Hoje, integra a nata de músicos entre os “Mais queridos”, um feito alcançado com a música “Mónica” do álbum “igual ao prazer”, em 2018, entrado assim para a galeria dos vencedores desta prova, uma iniciativa da rádio nacional difusão de angola (rna)

O artista que fará dupla com a cantora Ary, no próximo Duetos N’Avenida, conversou em exclusivo com O PAÍS, expressando a grande responsabilidade de encerrar a segunda temporada do projecto ao lado de uma amiga e de quem se diz um fã. Kyaku Kyadaff , acima de tudo um trovador, se diz integrado numa iniciativa que tem vindo a ajudar a integrar os artistas, na medida em que os reportórios e histórias misturam-se, criando uma unidade musical. Atento à necessidade de evolução do mercado musical angolano, ele alerta os produtores para que desestimulem apresentações em playback e sinaliza ao Estado para que sejam criados mecanismos de incentivo cultural. A seguir os trechos da conversa:

É um “peso” ou responsabilidade encerrar a segunda temporada do Duetos N’avenida?

Como valia a iniciativa? Eu acho que o Duetos N’Avenida é um projecto a ser muito respeitado, que trouxe uma grande valorização dos artistas e, até certo ponto, facilitou a aproximação entre eles. É perceptível no projecto uma perspectiva diferente em relação ao trabalho artístico. Isso porque a qualidade dos shows, a construção dos temas e um artista a interpretar as músicas do outro artista, querendo ou não, trazem unidade e personalidade ao Duetos. Para mim, é uma responsabilidade enorme fechar essa temporada, porque por esse projecto passaram vários artistas e as pessoas já têm noção do que acontece. Por isso, Ary e eu, teremos que trazer a chave de ouro para fazermos um show que possa superar as expectativas das pessoas.

O que lhe transmite o conceito e o palco da Casa 70? Já alguma vez assistiu a um show?

Já assisti, sim! E foi o show da Yola Semedo e da Pérola, que me ensinou muita coisa boa e me deu uma ideia do que o formato real do Duetos N’Avenida pretende transmitir. Percebi também sobre o local e o público atraído à Casa 70, que é crítico, de alto nível e que tem noção do que quer, sendo capaz de fazer uma avaliação com cabeça tronco e membros em relação ao mosaico cultural angolano.

Fale-nos um pouco da sua relação com a trova até chegar aos grandes palcos nacionais e internacionais?

Eu continuo a ser um trovador e essa capacidade fez-me desenvolver várias veias artísticas e poéticas porque, com a trova, eu acompanhei muitos poetas e me tornei também num poeta. Então eu acho que esse lirismo, essa capacidade de poder transbordar letras numa perspectiva diferenciada, acredito que também tenha a ver muito com a trova e hoje já consigo atingir palcos internacionais graças a esse trabalho.

O facto de partilhar o palco com Ary lhe transmite alguma sensação em especial? Ary

para mim é uma artista muito especial, porque faz parte da minha história artística. Me sinto feliz ao fazer esse dueto com ela, porque é uma pessoa muito próxima e, além disso, eu a admiro, sou fã pelo seu nível artístico, capacidade e timbre vocal, que é muito nítido. De facto, me traz muita alegria poder cantar com ela. Eu considero a Ary uma intérprete de sucesso, porque desde que apareceu ela ficou oito anos consecutivos no top. Um artista que aparece pela primeira vez e fica oito anos no top é sinónimo de valorização popular e de reconhecimento do trabalho que faz. Não é à toa que ela é a “diva do povo”.

Tem alguma música em especial que gostaria de interpretar?”.

Gosto de todas, mas o tema “Funge na Catchupa” me chama muito a atenção por ter uma história muito construtiva, de unidade de povos. Vamos certamente cantar esta canção.

Começou por fazer música de bar e trova, e é um defensor da música ao vivo! Como vê o facto de a maior parte dos concertos hoje em dia serem ainda em playback?

Comecei pela música de bar porque sempre acreditei que fazer música de qualidade exige conhecimento, não só o do instrumento, mas também o desenvolvimento da capacidade vocal. Infelizmente o nosso mercado opta muito pelo playback, se calhar é aí onde há um menor esforço e os produtores deveriam tomar o controlo da situação, porque tem a ver com custos, já que um show ao vivo exige um envolvimento financeiro maior. Daí que poucas vezes se consegue fazer um show de qualidade, porque em termos de sonoridade ainda estamos muito longe, então temos que trabalhar esse elemento para facilitar os espectáculos ao vivo.

Como avalia o actual estado da música angolana?

A música angolana está num bom estado e acho que hoje em dia já se consegue ver muitos jovens a cantar bem e a executar bem a guitarra em restaurantes. E a nossa música tem muita qualidade, já é tocada noutras partes do mundo. Nós conseguimos viajar com a Kizomba pelo mundo inteiro e isso significa que estamos bem. Mas precisamos trabalhar mais, porque a Lei do Mecenato até agora não foi aprovada e os direitos autorais não são valorizados. Então, quando os compositores e intérpretes não são remunerados pelo que fazem, nós nos questionamos se Angola tem mesmo um mercado cultural. Além disso, tem de existir um certo controlo por parte do Estado, porque ele tem o dever de colocar parâmetros que regulem o consumo da música, para que os consumidores possam pagar pelo que consomem.

Qual seria o papel do Estado?

Os artistas se esforçam muito, mas nem sempre conseguem uma boa remuneração e o Estado precisa criar o que chamamos de incentivos culturais. O Ministério da Cultura, com as suas direcções, devem criar políticas públicas que auxiliem os fazedores de cultura. Então, acho que e é preciso que haja essa vontade para que a música angolana possa atingir os níveis que almejamos. Estamos bem, mas precisamos de trabalhar mais para que todos os fazedores de cultura possam viver do seu trabalho.

A quem atribui o seu sucesso?

Atribuo o meu sucesso a Deus, porque graças a ele consegui trabalhar e também graças a todos que apoiam o meu trabalho. Todos aqueles que trabalham em prol do meu sucesso eu agradeço e atribuo o sucesso a eles, porque sozinho não se vai longe. Sou grato a Deus por tudo que tenho e que me tem concedido.

O nome Kyaku Kyadaff tem algum significado especial?

O nome Kyaku Kyadaf tem significado sim. Kyaku significa teu, seu ou sua na minha língua. Mas eu não queria que me chamassem apenas Kyaku e queria que meu nome fosse Kyaku da Fineza Fernandes. Fineza minha mãe e Fernandes meu pai. Juntando a Kyaku ficou Kyadaff . Esse é o significado.

Gestão equilibrada mantém a caminhada dos duetos Duetos N’Avenida.

Quase a fechar a segunda temporada do Duetos N’Avenida e em fase de planeamento da terceira, o director executivo da Zona Jovem Produções, Figueira Ginga, numa pausa para uma breve conversa com O PAÍS, faz um balanço do trabalho que vem realizando e aproveita também para falar do modelo de gestão que vem ajudando a manter a longevidade do projecto. Sobre a próxima fase, antecipa a possibilidade do retorno da dupla formada por Puto Português e Patrícia Faria, que abriram a primeira temporada do Duetos N’Avenida.

Depois de uma segunda temporada quase fechada, qual a mensagem que o Duetos N’Avenida já está a deixar para os músicos angolanos e para as empresas que estão a apoiar o projecto?

A nossa mensagem vem alinhada à do Executivo angolano: “a cultura fortalece a nação”. É preciso valorizar os seus intérpretes, porque têm qualidade e identidade. Para as empresas, vale dizer que vale a pena apostar na cultura nacional e juntos potenciar o seu crescimento.

Teremos mais humor na terceira temporada? Teremos outra expressão artística, como teatro?

O projecto Duetos N’Avenida é também um projecto de inclusão cultural e é nossa intenção sempre aglutinar o melhor da arte. Mas as temporadas são diferentes nos seus conceitos. Não sairemos da música na terceira temporada, porém vamos ousar com géneros musicais diferentes do que temos feito e Duetos improváveis.

A promessa de levar o projecto a províncias já acontece na terceira temporada?

Como sempre dissemos, este é um objectivo que queremos alcançar, sem pressa mas com a certeza de que levaremos o Duetos N’Avenida para outras paragens. É preciso as parcerias empresariais institucionais certas para ter os Duetos por Angola a dentro.

Cita uma dupla que pretende repetir na segunda temporada.

Felizmente, todas as duplas foram marcantes. Não consigo eleger uma, mas sentimos que a primeira dupla, formada por Patrícia Faria e Puto Português, merecia estar de novo no nosso palco. De novidade, como já falamos em conferência de imprensa, já podemos avançar que teremos uma dupla da música gospel formada pelos cantores Miguel Buíla e Bambila.

Quanto à casa de espectáculos, o senhor acredita que há carência de boas casas em Luanda e mesmo em toda Angola?

Sem sombra de dúvidas, mas penso que quem de direito está preocupado com esta situação e teremos melhorias nos próximos tempos. E o espírito empreendedor dos angolanos também irá ajudar.

Como é que a produtora considera o produto final ao ter de “sustentar” o Duetos nessas duas temporadas?

O sacrifício foi enorme, mas valeu cada momento. Criamos uma marca que tem sido realmente uma mais valia para a cultura angolana, os seus intérpretes e toda a equipa de suporte. A valorização dos artistas, a criação de uma agenda cultural para o país, a geração de empregos, enfim, todos esses ganhos só nos orgulham.

Qual o modelo de gestão que a produtora pratica para tornar os números aceitáveis, apesar do custo de produção?

Um modelo muito cuidadoso e rigoroso, tentando o equilíbrio entre o mérito de todos os artistas e participantes, e a redução de despesas e contenção sufocante de custos.

Qual o balanço das duas temporadas?

O que fizemos esteve acima da nossa expectativa em termos de adesão do público, mas longe da excelência que pretendemos. Vamos continuar a trabalhar na certeza de que novos formatos dentro deste conceito trarão resultados diferentes e até mesmo surpreendentes. É nisso que a Zona Jovem acredita e lhe dá sentido. Ou seja, vamos seguir em busca da diferença, sempre!

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