Prémio do filho “arranca” lágrimas de mãe batalhadora

Foi justamente no posto de venda da sua rua onde a reportagem de oPaÍS a encontrou, vendendo roupa usada importada, vulgarmente conhecida por fardo, um ofício que vizinhos, familiares e conhecidos testemunharam ser de longa data, além de terem declarado ser mesmo deste humilde negócio que sai a propina, o transporte dos filhos e sobrinhos, bem como parte do sustento da casa da Tia Melita. aliás, esse sacrifício diário influenciou muitas mães da área a lhe seguirem o exemplo

Amélia António Sabalo, “Tia Melita”, de 50 anos de idade, moradora do bairro Inorad (Morro Bento I), município de Luanda, na província com o mesmo nome, confessou que, ao receber a notícia da conquista do filho, estudante angolano em Cuba, não resistiu à emoção e chorou, tendo, curiosamente, repetido esse sentimento na ocasião da entrevista, embora tenha tentado, sem sucesso, desviar a atenção da equipa desta reportagem. Fábio Marques, 24 anos, o quarto filho de Tia Melita, rumou para o país latino-americano em 2017, por via de uma bolsa do Instituto Nacional de Gestão de Bolsas de Estudo (INAGBE), e, na primeira quinzena deste mês, já a frequentar o terceiro ano do curso de Sistemas de Informação em Saúde, na Universidade de Ciências Médicas de Havana, foi destacado como autor de um trabalho inovador no IV Congresso Internacional de Tecnologia de Saúde, realizado de seis a 10 de Junho do corrente ano, em pleno Palácio de Convenções de Havana.

“Eu estava aqui em casa, porque tinha vindo ver alguma coisa de que já não me lembro, na hora da notícia. Lagrimei”, lembrou Tia Melita, enquanto baixava a cabeça para a direcção da parte do assento, no sofá, tendo-se desfeito noutro pranto. Depois disso, segundo conta, ganhou alguma força anímica, ligou para o filho, não tendo conseguido, de início, falar nada, porque lhe faltaram as palavras. Acrescentou que o conforto e a satisfação do momento era apenas ter o seu rebento ao telefone. “E, no jeito dele, simpático, só ria, enquanto me cobrava um discurso que eu nunca mais lhe fazia ouvir”, aliviou Amélia Sabalo, adiantado que a irmã mais velha, Manuela Marques, que até à data desta reportagem se encontrava em casa dos pais, porque acabara de dar à luz a sua primeira filha, é que continuou a falar com ele sobre todo o processo que ditou a consagração do irmão.

Já refeita das emoções, no dia seguinte (7 de Junho), com mais calma, conforme fez questão de referir, a mãe já pôde falar com Fábio. Apesar de ter celebrado a victória do filho com bastante emoção, Tia Melita realçou que as férias de Fábio Marques que antecederam o prémio lhe tinham dado um sinal animador e profético, pelo facto de o bolseiro já ter trazido um quadro ou emblema de distinção do curso. Identificando-se como autêntica cristã que professa a confissão religiosa Pentecostal, disse que ela é muito atenta aos sinais e reza muito para os entender e alimentar, porquanto, segundo Amélia, é mesmo Deus que lhe deu força de poder contribuir para a formação deles até onde estão. Recordou que, quando o filho lhe propôs a candidatura a uma bolsa em Cuba, ela negou, por duas razões. “Primeiro, porque já tínhamos sido vítimas daquela burla que mexeu com o país e perdemos mais de 90 mil Kwanzas”, contou a senhora, que acrescentou o facto de ela e amigos terem ligado o preconceito popular segundo o qual os filhos vêm a fumar e a beber. Mas, rapidamente, decidiu apoiar o desafio, já que se lembrou da máxima que vinha a defender perante os filhos e a família de que faria qualquer coisa digna para ver os seus filhos formados.

Fardo da Tia Melita diminui peso

Como muitas mães que conseguiram formar os seus filhos, Amélia António Sabalo começa a ver o seu esforço cada vez mais recompensado, porque dos seis filhos, entre estes uma sobrinha (a quem prefere atribuir este estatuto) que cuidou e continua a cuidar, alguns já de forma indirecta, a mais velha, 30 anos, é licenciada em Fisioterapia, pela Universidade Jean Piaget, o segundo, de 28, tem a licenciatura em Economia da Universidade Metropolitana de Angola e desdobra-se para a pós-graduação em Contabilidade na Universidade de Lisboa, em Portugal, sendo que o terceiro, 27, concluiu o curso de Engenharia Informática. O quinto e último filho está a frequentar o primeiro ano do ensino médio, no curso de Informática.

A sobrinha-filha, da idade da primeira, tem o curso de Direito. A tia Melita dos fardos, como também é conhecida no bairro do Inorad, revelou ter agregado recentemente mais um sobrinho, constituindo assim uma dupla com o seu cassula (último filho), os únicos a estudar no país, que lhe exigem dinheiro para comparticipações escolares e transporte. “Por isso, não acho ser nenhuma vanglória dizer que o meu fardo se tornou mais leve, pois, as despesas dos miúdos estão diminuídas”, contentou-se Amélia Sabalo, tendo recordado que antes de 2009 tinha de sustentar as necessidades de cinco filhos em escolas diferentes, algumas distantes do bairro. Sublinhou que, no discurso que prestou sobre a responsabilidade de apoio escolar dos filhos, o esforço do marido estava subtendido, esclarecendo, em seguida, que as tarefas dentro do seu lar estavam bem distribuídas, porque, no principio, quando vivia em casa da irmã, no Prenda-Maianga, alguém tinha de lutar para conseguir um espaço de terra e construir a casa própria, além de garantir os meios da mesma e outros fins.

Segundo ela, nunca se disponibilizou a trabalhar numa empresa privada ou estatal porque receava que, a depender de salários, podia ter dias em que não conseguiria dar dinheiro para arcar com os táxis das crianças. “As pessoas podem perceber que eu vendia todos os dias cinco peças, não, eu tive de arranjar clientes que me pagavam quinzenal e mensalmente, o importante era ter o caderno do controlo bem guardado e os miúdos prestavam alguma ajuda nisso, sem pressionar muito os fregueses. Assim, com a capacidade de contar e gerir que eu tenho, era fácil ter sempre dinheiro para os filhos”, relatou a Tia dos fardos, que, em um mês podia abrir quatro ou mais balões de fardo por causa da política de venda a médio e longo prazo. Embora não se tenha escusado a falar das vezes que se viu obrigada a oferecer roupa para conhecidos e, principalmente, para os amigos dos filhos, quando estivesse a escolher o vestuário para eles, desafogou dizendo que não via quaisquer prejuízos daí resultantes. Finalmente, agradeceu a todos que, de forma directa ou indirecta contribuíram para o avanço dos filhos, principalmente alguns professores do ensino primário que conseguiram desempenhar a função de segundos pais.

Projectos do futuro engenheiro informático em saúde

Com o trabalho que abordou sobre um software didáctico, com o título “Jogo didático para auto-avaliação e preparação dos estudantes de licenciatura em Sistemas de informação em Saúde”, Fábio Marques, revelou, em exclusivo a este jornal, que sente cada vez mais que é possível contribuir para o desenvolvimento desse sector na sua terra, até porque acha que ainda existem poucos quadros da especialidade. “É importante deixar bem patente que os angolanos têm muitas potencialidades, é preciso apostar mais nos talentos e iniciativas dos jovens”, disse Fábio Marques, tendo revelado que alguns doutores, mestres, médicos, e estudantes de Cuba, Brasil, México, Gana, Congo e outras de partes do mundo reconheceram isso mesmo.

Como estudante de Sistemas de informação em Saúde, que visa a organização e processamento de informação (estatística em saúde) de um sistema de atenção em saúde, o futuro especialista da referida área científica anseia, com afinco, ajudar o nosso país na organização e utilização de tecnologia informática na área da saúde para melhorar a atenção e disponibilidade dos serviços médicos. “um especialista em sistema de informação em saúde visa desenhar e implementar um sistema informático para atenção em saúde, bem como administrar todos os processos de captação, tratamento, análise (estatística), difusão e troca de informação no sector sanitário, gestão de infra-estrutura tecnológica e entornos virtuais e colaborativos”, acrescentou o técnico. Fábio, que considera os seus pais como os maiores. agradece, finalmente, a Deus e ao INAGBE que, na falta de vagas para Engenharia informática (que era sua opção inicial) lhe propôs a fazer esta carreira, que lhe exigiu conversar a família.

Ânimo gerado aos irmãos

as experiências vividas e narradas por Fábio Marques nas terras do meio do atlântico motivaram o irmão mais novo, Carlos Marques, de 17 anos, a optar também pelo curso de informática, no instituto Médio Politécnico alda Lara. Pelo que Sílvio Marques, o irmão mais velho de Fábio, deu a entender a o PaÍS, a informática já constitui um forte ou uma inclinação dos Marques, embora o engenho esteja teoricamente com os mais novos. Manuela Marques e izélia antónio Castro revelaram que, enquanto estudantes universitárias, não são poucas as vezes em que têm mesmo de recorrer aos irmãos para lhes orientar tecnicamente a feitura de um trabalho científico ou outra matéria que tenha como suporte o computador. Eles (os mais velhos) confessaram que, em algumas ocasiões, sentiram ciúmes dos mais novos, porque o pai, quando viesse com preocupação de realizar um trabalho digital, só solicitava os préstimos do Fábio. “Por isso, o prémio vem coroar apenas um talento que já se mostrava no seio da família”, sentenciaram, desejando que o mais novo lhe siga o exemplo.

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