Um fantasma que não sabia que era fantasma e ganhou muito dinheiro

Pelo menos dois milhões e setecentos mil kwanzas “caíram” na conta do nosso entrevistado, numa altura em que ele tinha a certeza de que não tinha sido admitido na Polícia nacional. acredita que tenha havido “máfi a” com a sua vaga, mas os mafi osos não terão cumprido todos os trâmites, uma vez que recebia o salário sem trabalhar na Polícia

O nosso entrevistado diz ter coragem suficiente para ser identificado (se necessário), depois das muitas voltas que recebeu e depois de ter conhecimento das declarações do antigo director do Instituto de Ciências Policiais e Criminais, Francisco Massota, e diz que nada mais tem a perder. Ainda assim, e porque “até Massota teme pela vida”, vamos tratá-lo com o nome fictício de Tiago. Candidato no concurso público da Polícia Nacional, para a Intervenção Rápida (PIR), em 2014, tendo o seu nome saído em duas listas, faltando apenas a terceira (e decisiva), que não saiu, isto fez com que fosse visto como excluído.

Desempregado, desde 2014 que não consultava a sua conta bancária no BPC, até porque tinha a certeza de não ter lá dinheiro. Foi então que em Março de 2018 foi surpreendido com uma ligação da gerente da agência em que está domiciliada a sua conta, a mostrar a preocupação pela ausência do senhor nas suas instalações e o facto de não estar a movimentar ou a aplicar o dinheiro que se acumulava na conta conta. “Respondi que não os visitava porque não tinha dinheiro na conta, mas ela insistia dizendo que tinha dinheiro e sugeria que fizesse um depósito a prazo sob, pena de sofrer descontos de manutenção… Achei estranho…”, conta. Ao verificar o seu extrato bancário, tomou conhecimento de que ia recebendo um salário do Ministério do Interior, num valor que até àquela data totalizava Kz 2.720.000,00. Tiago, até Junho de 2017 ganhava Kz 66.716,30 e no mês de Julho do mesmo ano passou a receber Kz 75.597,40.

Aqueles mais de dois milhões de Kwanzas eram uma quantia que a sua conta bancária nunca tinha registado antes, e numa altura em estava desempregado, segurar-se para não gastar era uma missão “quase impossível”. E foi impossível. Antes mesmo de começar a “desbundar” o dinheiro, encetou contactos com a direcção de Recursos Humanos da PIR-Luanda, disse, tendo tomado conhecimento de que o seu nome constava na base de dados da PN e que deveria aguardar até ser chamado. Não foi chamado. E, para a sua “tristeza”, como diz, “o salário parou de cair”. Voltou a contactar o director e a resposta foi a mesma (para esperar, que iria ser contactado). Enviou um documento à Direcção Nacional dos Recursos Humanos da PN informando o que tinha acontecido e mostrando interesse em trabalhar na Polícia, já que recebera salários sem trabalhar.

Nas listas publicadas no dia 28 de Agosto de 2018 e afixadas na Escola da Polícia Nacional do Capolo I e no Kicuxi, entre os indivíduos que concorreram em 2014 não constava o seu nome, mesmo depois de lhe terem pedido para aguardar. “O homem da informação da PN ouviu-me e encaminhou-me para a inspecção (que recebeu a exposição), mas não houve resposta positiva. “Nem que já não seja enquadrado, apenas quero ser ouvido. Desconfio que alguém entrou no meu lugar e a máfia vem do Comando Geral, em sintonia, com o Banco. Só que, desta vez, a gestora do banco era nova e acabou não actualizando, por isso, ganhava sem trabalhar”, finalizou. Do dinheiro que recebeu, só ficou a história. Ainda no desemprego, gastou todos os Kz 2.720.000,00.

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