Centenas de famílias “desterradas” no Panguila

Os munícipes do Panguila, província do Bengo, clamam por condições sociais básicas como acesso à Educação, Saúde, água potável e energia eléctrica. A falta de iluminação pública e a degradação dos acessos têm contribuído para a prática de crimes e na propagação da delinquência juvenil nessa localidade.

texto de Maria Teixeira
fotos de Lito Cahongolo

Sem condições de habitabilidade. A afirmação pode gerar várias interpretações, mas é a dura realidade que enfrentam centenas de famílias que foram transferidas há anos pelo Executivo do extinto bairro da Favela, que se localizava no prolongamento da Nova Marginal, próximo do Mausoléu, para o Panguila.

Carla Mariana, de 8 anos de idade, contou que, por vezes, fica três dias sem tomar banho por falta de água. Assistir a desenhos animados em casa transformou-se num luxo de que poucas crianças podem desfrutar. “Estudo a 3ª classe e não sei o que é assistir a desenhos animados em nossa casa. Às vezes, à noite, tenho de procurar uma casa que tenha o gerador para assistir.

Tenho mais quatro irmãos e todos os dias sonhamos com um futuro melhor”, desabafou a pequena em entrevista ao OPAÍS. A falta de água potável desestabiliza principalmente aquelas famílias que não dispõem de condições financeiras para construir um reservatório de betão nos seus quintais.

Nestes casos, limitam-se a fazê-los em recipientes de menores capacidades, como bidões e tambores de 100 ou 200 litros. Razão pela qual a venda de água tornou- se num negócio rentável para os proprietários de camiões cisternas e motoqueiros de kupapata. “Nós só queremos energia eléctrica e água.

O resto vem por acréscimo. Estamos a sofrer muito. Compramos o bidon de 20 litros de água a 100 kwanzas. A pessoa tem de decidir se vai tomar banho ou usar a pouca água na cozinha”, disse Domingas Francisco, mãe de seis filhos, que conta que muitas crianças são obrigadas a ficar dias e dias sem banho devido à falta de água.

Das casas de Tecto Vermelho para a “Terra Prometida”

Alguns dos habitantes, para ultrapassar o desafio de estarem três famílias desconhecidas entre si a partilhar uma casa T3, imposto pelo próprio Governo, refugiaramse no bairro “Terra Prometida”, Sector 11. Este nome foi atribuído pelos populare, anteriormente instalados no bairro da Casas de Tecto Vermelho, onde mais de 30 pessoas partilha(va)m uma casa de três quartos (T3).

Antónica António, uma das moradoras, esclareceu que por falta desses serviços e de saneamento básico, algumas artérias do bairro cheiram mal. “Aqui já não fazem recolha de lixo.

As pessoas, de forma desorientada, depositam o lixo em qualquer lugar”, frisou. Acrescentou em seguida que “viver aqui é muito triste, porque não há energia eléctrica, nem água potável, as casas não têm casas de banho e somos obrigados a fazer as necessidades em papelões e depositar no capim”.

Outra coisa que os inquieta é a falta de casas de banho nas suas residências. Por falta de fossas, as crianças e adultos são obrigados a fazer necessidades em papelões por trás das casas, local que serve para brincar, correndo o risco de adquirirem várias doenças. Devido à escassez de contentores, a população deposita o lixo em locais inapropriados. Por essa razão, muitas ruas estão intransitáveis.

Ao longo das vias de acesso observam-se grandes quantidades de lixo e capim, impedindo a circulação automóvel. As vias carecem de manutenção urgente. Nesta localidade, segundo os moradores, não funciona uma única empresa de limpeza e recolha de lixo. O jornal OPAÍS constatou que no interior do bairro já não circulam táxis, mas sim motoqueiros, devido à degradação das ruas. Em vários pontos da localidade, o lixo cresce consideravelmente.

Delinquência em alta

A falta de iluminação, de condições financeiras, a negligência e o abandono de crianças por parte dos seus progenitores, bem como o elevado consumo de bebidas alcoólicas e de estupefacientes, vulgo liamba, estão na base do aumento, nos últimos tempos, de crimes praticados por menores nessa localidade do Panguila.

Teresa Lopes Miranda, mãe de três filhos, que vive neste bairro há nove anos, classifica a zona como um sítio inapropriado para as crianças crescerem, devido à delinquência. Só não muda de bairro por não ter condições financeiras para tal. Por falta de actividades que estimulem a criatividade dos adolescentes e jovens deste bairro, a criminalidade tornou-se a única saída para eles.

A nossa interlocutora é de opinião que alguns delinquentes são filhos de moradores do bairro e outros Vêm de longe. “Por causa da escuridão, temos tido registos de muitos casos de violações, o último foi de uma criança de dois anos. A mãe, frustrada regressou a Malanje. Aqui, às 18 horas há um recolher quase que obrigatório”, frisou. Para colmatar a falta de energia eléctrica, o gerador tem sido a alternativa.

Essa opinião é partilhada pela sua vizinha Teresa Bernardo. Mãe de quatro filhos. Ela disse que os assaltos têm sido constantes e praticados por pessoas que vivem nos arredores. O sistema de ensino está estagnado.

Neste bairro não há escola. Por essa razão, as crianças são obrigadas a percorrer vários quilómetros a pé para beneficiarem de um serviço público constitucionalmente consagrado. Aquelas famílias com algum poder financeiro optam por recorrer às escolas particulares que lecionam até à 6ª classe.

A esperança em João Baptista Borges

Domingos Alfredo, coordenador do Sector 11 desde 2017, disse que o sector ainda é virgem, uma vez que as obras não estão concluídas. Explicou que só foram viver nesse sector porque já não aguentavam mais dividir a casa com pessoas estranhas

“Como as obras foram abandonadas pelo empreiteiro e não tínhamos informações sobre quando retomariam e algumas casas estavam a ser assaltadas, a coordenação do projecto pediu para que nós nos mudássemos e nós aceitamos, porque não tínhamos privacidade”, disse Domingos Alfredo.

Foi então que, no dia 28 de Novembro de 2016, a coordenação do projecto fez o assentamento da população nesta localidade. Ainda este ano, apareceu no local um particular com a pretensão de instalar uma rede de electricidade, todavia, desistiu sem dar qualquer informação. Passado algum tempo, renasceu a esperança, com a recente visita do ministro da Energia e Águas, João Baptista Borges.

O governante garantiu, segundo ele, que retomarão as obras a partir desta Quinta-feira, 4 de Julho. Domingos Alfredo confirmou que, por falta de saneamento básico no sector 11, as pessoas são obrigadas a defecar ao ar livre. Os marginais arrancaram as sanitas e as instalações eléctricas.

Quanto à proveniência dos delinquentes, afirmou que além de alguns serem filhos dos próprios moradores, outros saem dos municípios de Viana e Cazenga. “O povo aqui é de baixa renda e as condições em que vivemos são precárias. Não temos informações se os empreiteiros retomarão as obras ou a Administração, mas estamos a negociar.

O sector é composto por 964 casas”, contou. Algumas casas ainda se encontram desocupadas, servindo de refúgio para os marginais que instalam o caos no bairro. Conta que quando se mudaram para este sector tinham 164 casas desocupadas, mas hoje chegase às 250 casas vazias. Já pediram reforço policial à esquadra mais próxima, mas não foram atendidos. Foram informados de que a mesma não têm efectivos nem transporte suficiente para contornar a situação.

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