Desencontro entre imagem e texto deturpa aprendizagem

“Se se cria dificuldades na combinação do objecto com o texto, logicamente, está-se a investir directa, ou indirectamente, numa desestruturação do conhecimento”, afirma o docente universitário

O académico Lando Emanuel Ludi Pedro defende a necessidade urgente de se adequar muitas imagens e gravuras aos conteúdos dos manuais do ensino primário e secundário usados no país, de modo a criar harmonia na capacidade de interpretação dos alunos e facilitar a habilidade de instrução por parte dos professores. “A falta de combinação entre muitas imagens, que constituem a maioria, e os textos dos livros usados por professores, principalmente os do ensino primário, representa uma forma de bloqueio e deturpação para a cabeça das crianças, que, mesmo com inteligência, podem viver um conflito interno e silencioso”, apelou Lando Ludi Pedro.

O professor universitário formado em Educação com especialização em Teoria e Desenvolvimento Curricular realçou que o problema investigado por si afecta, com mais prejuízo, o aluno, porque ele constitui o elemento-parte do processo de ensino e aprendizagem que tem pouca preparação para se aperceber dos erros. De acordo com o entrevistado de OPAÍS, os principais problemas de desfasamento entre os conteúdos e as imagens foram encontrados nos manuais de Língua Portuguesa, Estudo do Meio e Ciências Integradas, sendo nas classes entre a primeira e a quarta as mais inquietantes.

Lando Ludi Pedro lamentou o facto de as classes iniciais do primeiro nível do ensino serem em Angola as mais endémicas, argumentando que o ideal seria os materiais de apoio para estas serem elaborados sem possibilidades de erro. Parte das causas da má qualidade de ensino, que se regista um pouco por todo país, é atribuída pelo académico a esse pormenor negativo, que pode passar despercebido, conforme fez questão de realçar o próprio, tendo desabafado que sente a falta de preocupação da parte do órgão reitor, ao qual disse ter feito chegar um exemplar do seu livro, editado em Novembro de 2018, com o título “Desencontros entre imagens, gravuras e discursos textuais nos manuais dos alunos do Ensino Primário em Angola”.

Nesta obra estão, primeiramente e de forma concreta, retratadas as gravuras dos textos de Língua Portuguesa – A comuna do Cacuaco I, A pescado carapau e Primeiro dia de aulas, respectivamente da 2ª,4ª e 5ª classe -, que são seguidas de uma proposta de imagens que se adequam com o contexto do texto. “Se se cria dificuldade na combinação do objecto com o texto, logicamente, está-se a investir directa ou indirectamente numa desestruturação do conhecimento”, disse Lando Ludi Pedro, que disse ter um sentimento pátrio que o obriga a fazer qualquer coisa para ajudar os outros a saírem da cegueira. O especialista em Teoria de Desenvolvimento Curricular aconselhou o Governo a traçar medidas urgentes que retirem a dupla função do Instituto Nacional de Investigação e Desenvolvimento da Educação (INIDE). “O INIDE não pode avaliar e elaborar os manuais, porque, desse jeito, dificilmente encontrarão erros nas suas próprias obras”, reclamou Lando Ludi Pedro, aconselhando a instituição a que se referiu a avaliar e acreditar os materiais de apoio.

Participação integral na feitura de manuais

Anunciando que dentro em breve ia colocar no mercado angolano mais uma obra do género, virada, essencialmente, para preocupações semelhantes no contexto do ensino secundário, sobretudo na 7ª e 9ª classe, Lando Ludi Pedro salientou que a elaboração de manuais de ensino deve contar com entidades e instituições alargadas, que não devem deixar de parte a comissão de pais e encarregados de educação, sindicatos e associações de professores e de estudantes e técnicos formados para reformularem currículos.

“Se fosse um cientista estrangeiro a preocupar-se e estudar esse fenómeno, já haveria atenção redobrada, mas, como se trata de um nacional, não é tido nem achado”, desabafou o técnico angolano, tendo acrescentado que o seu livro devia ser mais valorizado e utilizado no seio do ensino. “Porque aqui, em Cabinda, conseguimos trabalhar com um grupo de professores, com sessões práticas em algumas salas de aulas, orientar os docentes a procederem com as propostas imagens de correcção e estamos a ter resultados positivos”, referiu, a fim de mostrar que o instrumento didáctico de sua autoria pode contribuir para o melhoramento das actividades lectivas do ensino.

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