Apontar num e cobrar do outro

Diz o FMI, secundado por peritos angolanos, até porque agora está fácil ser-se perito, mesmo sem qualquer estudo publicado e sem experiência, que a eliminação dos subsídios estatais aos combustíveis, electricidade e água se justifi ca, porque estes subsídios apenas benefi ciam os ricos. Esta justifi cação não é nova, foi usada noutras paragens e tem sido repetida. O que eu nunca vi foi que depois disso os ricos fi cassem menos ricos e os pobres deixassem de ser pobres. Por outro lado, temos de contextualizar: é verdade que o subsídio aos combustíveis em Angola não benefi – ciam os pobres? Sejamos sérios. Em Angola, com os preços dos combustíveis mais altos tudo o resto sobe também, porque não temos transportes públicos, porque até as padarias trabalham a gerador. Se subir o preço do combustível, o pobre vai pagar mais caro o táxi, vai fi car mais horas às escuras em casa, com o “fofandó” desligado, vai ter mais prejuízos na arca que tem de encher com as compras do mês. Já o rico, além de habitar áreas urbanas com melhores serviços, vai encarecer o que vende e não lhe fará diferença. Sobre a água e a electricidade, aqui já estamos no espaço da anedota, a água para os pobres vai subir porque subiu o combustível da cisterna e da kupapata de três rodas. A água do pobre, a grande maioria da população, não vem canalizada. Já a electricidade da rede, que subam o que quiserem, só que, não cobrem ao pobre o que ele nunca viu. O melhor é assumir que o Estado se meteu numa enrascada de dívidas e de inefi ciências e precisa de dinheiro. Mas quem vai pagar mesmo serão os pobres.

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