FestiKongo salvaguarda celebração do dia da cidade de Mbanza Kongo

“As pessoas que se identificam com a cultura Kongo e as que nunca cá estiveram sonham cá estar”

Contrariamente ao que defendem os munícipes, segundo os quais as festividades alusivas ao dia da inscrição da cidade como Património da Humanidade, celebrado com o Festival Internacional de Artes, Cultura e Turismo “FestiKongo”, e o Dia da Cidade de Mbanza Kongo deveriam ser eventos celebrados separadamente, o coordenador do Festikongo, historiador João Lourenço, avançou, em exclusivo ao OPAÍS, que a actividade que ontem iniciou nesta cidade salvaguarda o Dia da Cidade de Mbanza Kongo, que passa, doravante, a ser celebrado a 8 de Julho, dia em que a mesma foi elevada à categoria de Património da Humanidade e não mais a 25 de Julho como era costume.

Explicações do responsável, seu suplemento diário de lazer e cultura CArTAz dão conta que as festividades alusivas ao Dia da Cidade decorrerão de 5 a 25 deste mês, embora especificamente a data da cidade seja agora assinalada a 8 de Julho, em função da elevação à Património, pois marca o dia de um evento mais representativo para a província. “O dia 25 é o dia de um São Tiago, que pode ser celebrado em qualquer cidade, adoptou-se como critério o dia em que a cidade foi elevada a Património Mundial. Porque a elevação dá valor ao que aconteceu antes do cristianismo”, explicou. João Lourenço ressaltou que Mbanza Kongo é uma cidade originalmente bantu.

Quandose chega a 1482, os relatos dizem que Mbanza Kongo é uma cidade antiga. Onde se calculava que pudesse ter 200 anos. Na sua origem, não é uma cidade europeia. É uma cidade bantu que incorpora elementos europeus, mas mantendo sempre a sua originalidade. Acrescentou ainda que a chegada dos portugueses não significou gestão da cidade pelos portugueses. “Costuma-se confundir contacto com colonização. Não se pode confundir igualmente que em 1982, com a chegada dos portugueses, se deu início à colonização”.

Por essa razão, o Kongo não é um local colonial português. Sendo que o primeiro espaço em que os portugueses foram administrar em 1575, é Luanda. Osportugueses viveram de acordo com as regras locais. “Logo, a adopção do cristianismo não significou submissão. De modo que a igreja do Kulumbimbi foi construída sob orientação do Rei do Kongo”, adiantou. Entretanto, de acordo ainda com João Lourenço, não há razões para divergências entre os munícipes, no que concerne à data, pelo simples facto de que além de ser uma exigência da UNESCO, a realização do festival vai propiciar que haja que cada vez mais desenvolvimento em vários domínios da província. “A perenidade de Mbanza Kongo, enquanto espírito de lugar, desde que foi fundada como cidade, continua capital, não a do reino, mas da província. De modo que nunca perdeu o estatuto de lugar político importante. Também é capital espiritual.

As pessoas que se identificam com a cultura Kongo, as que nunca cá estiveram sonham cá estar”. O vocábulo bantu é o mais difundido em todas as Américas.

Desta cidade de Mbanza Kongo, saiu o primeiro bispo da África Subsahariana em 1518, Dom António de Utika, que foi exercer o seu ministério na Mauritânia. A primeira catedral a Sul do Sahara foi contruída em Mbanza Kongo em 1596, o conhecido “Kulumbimbi”. Em língua kikongo fez o primeiro catecismo em língua bantu, 1624. Estes entre outros argumentos foram apresentados para que Mbanza Kongo fosse elevada à lista de Património Mundial da Humanidade.

Populares divergem opiniões

O coordenador das autoridades tradicionais, junto do Museu dos Reis do Kongo, Afonso Mendes, defende a ideia de que é necessário separem-se os eventos, uma vez que são actividades diferentes e que o povo já se habituou a celebrar. “Uma coisa é a celebração da inscrição e outra e bem diferente é o aniversário da província. Entendo que por questões logísticas fica difícil realizarem os dois eventos separadamente, mas cada coisa deve estar no seu devido lugar”, advogou. Um outro cidadão, Isaquiel Nzuzi, disse que é indiferente a questão das celebrações, uma vez que para si, o mais importante é que haja desenvolvimento na província, aproveitandose a tirar os melhores benefícios que advêm desta elevação. Matadi Miguel, por sua vez, augura que Mbanza Kongo não seja apenas lembrada nesta data comemorativa, mas que a sua história seja cada vez mais contada sobretudo nas escolas, de modo a incitar a que os jovens de várias partes venham conhecer esta cidade.

“Risco de desclassificação”

Questionado sobre a possibilidade de uma possível desclassificação da cidade da Lista de Património Mundial da Humanidade, João Lourenço foi peremptório em dizer que só haveria essa ideia se não se cumprirem os requisitos apresentados para a sua classificação. “Todos os bens que estão na lista do Património Mundial são avaliados periodicamente. E é uma avaliação continua enquanto o bem existir. E isso é feito com qualquer outro bem. O que devemos fazer é preservar os nossos atributos”, disse. Entre esses atributos constam a valorização e preservação do espírito de lugar, as fontes de água, o Kulumbimbi, o Tadi (dia) Bukikua, Yala Nkuwu, entre outros elementos naturais e monumentais, fazem de Mbanza Kongo um bem único.

Expectativas

Quanto às expectativas sobre a realização do evento, são óptimas, na medida em que, segundo o seu coordenador, estão criadas todas as condições para que o evento corra sem sobressaltos, uma vez que vai contar com a participação de países que pertenciam ao Reino do Kongo. Nesse sentido, estarão presentes o Gabão, a República Democrática do Congo e o Congo Brazavile, bem como Uíge, Bengo, Luanda, Cuanza-Norte e Malanje, enquanto espaços que estavam sob influência do Reino do Kongo. “Aquilo que é identidade dos elementos matriciais da cultura Kongo, estão por aí espelhados e vamos fazer uma abordagem no Soyo sobre a escravatura, para reflectir sobre a diáspora Kongo espalhada pelos quatro cantos do mundo”, vaticinou.

O Festival

Com entrada gratuita, o festival irá reunir o melhor da gastronomia, música, literatura, dança, moda, cinema e artes plásticas. O Festikongo contará com a participação especial dos artistas angolanos Sam Mangwana, Banda FM, João & Lina Alexandre, Eduardo Paim, Chana Vice, Kyaku Kyadaff, Júlio Gil, Yembe, Rui Kyame, Waldemar Bastos, Ricardo Lemvo, Dodó Miranda, Socorro, Nsimba Reoboth, Irmã Joly, Lutchiana Mobulu, W King, Noite e Dia, Walter Ananaz. “Aquilo que é identidade dos elementos matriciais da cultura Kongo, estão por aí espelhados e vamos fazer uma abordagem no Soyo sobre a escravatura, para reflectir sobre a diáspora Kongo espalhada pelos quatro cantos do mundo” Vice-presidente prestigia evento Dada a importância do evento, o vice-presidente da República, Bornito de Sousa Baltazar Diogo, prestigia a cerimónia cujo arranque acontece na manhã desta Sexta-feira, no largo adjacente ao Governo Provincial do Zaire.

Património

Mbanza Kongo, capital do antigo Reino do Kongo, é detentora de um património material e imaterial excepcional. A cidade foi inscrita na lista do Património Mundial da Unesco a 8 de Julho de 2017, durante a 41ª Sessão do Comité deste órgão, que decorreu na cidade de Cracóvia, Polónia. Dada a importância deste feito histórico, o 8 de Julho foi adoptado como o Dia da província do Zaire. Nesta data, o Comité do Património Mundial da Unesco declarou, por unanimidade, Mbanza Kongo, vestígios da capital do antigo Reino do Kongo, como Património Mundial e a sua inscrição na lista consagra o valor universal excepcional de uma propriedade cultural ou natural, para que seja protegida em benefício da humanidade.

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