Agrónomo quer que agricultura deixe de ser um discurso político

Há cerca de dois anos mostrou-se animado com a proibição de importação de farinha de trigo e esperava ver as condições técnicas e financeiras disponibilizadas para os produtores locais. Hoje, lamenta o facto de isso não estar a acontecer

O engenheiro agrónomo Adérito Costa aconselha os dirigentes de Angola a deixarem de fazer da agricultura um discurso político e a passarem a atender as necessidades reais que a prática do cultivo dos campos impõe. “É exactamente em função da proibição de importação de farinha trigo, feita pelo Executivo angolano, há mais de ano e meio, que dirijo o meu apelo, porque tal política foi positiva, no sentido em que transmitiu a confiança aos produtores nacionais e a consequente valorização das suas potencialidades no sector. Entretanto, logo a seguir, não se deu o tratamento condigno e real aos agricultores para sustentarem a manutenção das poucas máquinas que possuem, muito menos se garantiu condições para continuidade e aumento da produção, em geral”, disse o engenheiro, para quem o apoio dado a alguns fazendeiros, selecionados a custo de certas conveniências teoricamente aparentes, não representa o interesse da nação.

Segundo Adérito Costa, tão logo se lançou a medida, começou- se a passar uma imagem de que o país produzia excessivas quantidades do produto ora proibido de importar, quando os cálculos de quantidade eram feitos por estimativas e não de forma taxativa. Neste capítulo, recordou que o agricultor e a sua equipa dificilmente têm dificuldades para calcular, com exatidão, as quantidades que produzem, porque, normalmente, têm ao seu dispor, das cooperativas ou das autoridades locais, a que estão filiados,muitos meios e recursos para tais operações. “Por outro lado, o país não possui o número de moageiras que a demanda de produção requer”, salientou o técnico agrícola, chamando a atenção das pessoas para não perceberem os seus argumentos com o facto de haver cultivo suficiente. Ainda a par das indústrias que garantem a transformação do referido cereal em farinha de trigo, referenciou sobre a existência de um sector do género nas províncias de Huambo e Benguela, que teve a oportunidade de, centemente, visitar, a convite de empresários do ramo agrícola. Não deixando de falar sobre uma das moagens, em Viana, em Luanda, cuja gestão foi tomada por outras entidades que,no seu entender, se confundem com estrangeiros, asseverou que o Governo tem de criar condições para o cultivo, tratamento e transformação do trigo e de outros cereais. Por causa dessas e outras situações e porque acredita que a intenção do governo passa por ir reduzindo as importações, sobretudo de cereais e outros produtos básicos de alimentação, o engenheiro agrónomo recomenda o Executivo a fazer um estudo paciente do quadro real do sector agrícola, antes de, por exemplo, decidir que o milho e o arroz deixem de ser importados. “Porque, se for para não importarmos mais, e os mesmos produtores de cereais, no estrangeiro, virem aqui, a reboque de nacionais, para apostarem na produção nacional ou transformação desses produtos, o melhor é pararmos, ouvirmos os agricultores locais.

Milho e soja produzidos para ração

Adérito Costa é o líder do Grupo DGIL, com sede no distrito do Camama, município de Talatona, onde possui uma área agrícola cultivável (cultivada) de 17 hectares e outra de cerca de 40, no distrito do Quenguela, município de Belas. Fora de Luanda, conta com uma fazenda em Caxito, província do Bengo, além da maior, entre todas, que possui e na província do Moxico, onde, além do foco agrícola, se dedica à criação de gado bovino. O gado suíno, a avicultura e a piscicultura constituem as outras actividades levadas a cabo pela DGIL, que, no campo agrário, cultiva quase todo o tipo de produtos. Preocupado com as questões de escoamento de produtos, que, de acordo com o próprio, não tem as más condições das estradas como único empecilho, Adérito Costa revelou que, por causa da dificuldade de transportar, armazenar e expor para vender, não são poucos os empresários e técnicos do sector que enveredaram para a produção de cereais, como fez questão de referir o milho e a soja, com intenção de os comercializar a favor dos criadores de gado, aves e peixes. “Alguns agricultores estão a preferir vender milho e soja triturados aos avicultores, piscicultores e instituições pecuárias” por terem clientela regular.

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