‘A crise económica provocou a fuga dos empresários oportunistas’

Há 25 anos que Tomasz Dowbor vive em Angola. Aliás, é angolano, apesar de ter nascido em varsóvia, na Polónia. Empresário do mercado da construção civil, sobretudo no ramo imobiliário, é um dos responsáveis pelos primeiros condomínios construídos em Luanda, embora tenha hoje diversificado as actividades do conglomerado empresarial que preside para outras áreas, entre as quais a mineração, indústria e agricultura.

entrevista de Dani Costa
fotos de Lito Cahongolo

 

O projecto habitacional Boa vida, por sinal o nome do grupo de empresas que detém, é o seu principal desafio no sector imobiliário. Conheça o percurso e as acções deste jovem investidor, de 45 anos de idade, que é igualmente primeiro secretário de um Comité de Acção do MPLA, em Luanda

Como é que surge Angola na sua vida? Agradeço a oportunidade de podermos trocar algumas impressões. O meu pai veio para Angola em 1968, na época das FAPLA, na colaboração que existia entre Angola e a Polónia. Por esta razão, muitos angolanos também passavam por Varsóvia. Nos anos 80 era frequentada por muitos angolanos.

Foi desta forma que conheci todo o ambiente de Angola e a proximidade com o próprio país. É essa amizade que fez com que nos aproximássemos e decidíssemos vir de forma definitiva, como filhos. A primeira vez que vim foi em 1995, percebi que, evidentemente, apesar de ter nascido na Polónia, dentro de mim corre um sangue quente e o meu futuro será aqui no território de Angola.

Em 1995 tinha… 21 anos?

Certo.

Qual foi a Angola que encontrou há 24 anos?

Vou-lhe contar uma curta história da minha vinda aqui. Claro, se me permitir.

Esteja à vontade

Vim com um amigo angolano que me tinha dito que era detentor de propriedades e que havia também muitas oportunidades, assim como a possibilidade de fazermos determinados negócios. Quando aterrámos no Aeroporto 4 de Fevereiro percebi que, apesar de me ter dito que tínhamos todas as condições reunidas, ele não tinha carro.

Ele disse-me: ‘Tomás, tenha calma’. Não sei se se lembra, mas na altura havia os Mercedes dos congoleses que circulavam e faziam o transporte de pessoas na cidade. Disse-lhe que não havia problemas, sou uma pessoa resistente, vamos reconfigurar, e consegui.

Então seguimos, pediu que o motor ista curvasse para o lado esquerdo, mas este rejeitou porque era no Rocha Pinto. Era por volta das 17 ou 18 horas, já no final da tarde. Eu fiquei meio assustado pelo facto de o motorista ter dito que não poderia curvar.

Com as malas, todos engravatados, saíamos a pé e entramos no Rocha Pinto. Estava muito escuro, não posso esconder, e, ainda por cima andávamos a pé. Quando chegamos, no quintal não havia chão, nem luz. Havia aquelas lâmpadas de garrafas de cerveja em que punhas petróleo…

Refere-se a um candeeiro daqueles “tradicionais”?

Sim, um candeeiro. Mas eu ficava cada vez mais assustado. Pretendia apenas tomar um bom banho, porque tínhamos viajado muitas horas, mas não havia água. Fiquei todo traumatizado, depois numa fase em que havia guerra civil, mas fomos dormir.

O meu amigo disse- me que só havia uma cama e tínhamos que dormir juntos. Confesso que fiquei assustado. Durante a noite comecei a ouvir tiros, pensei que me fossem matar e seria o fim da picada. Mas, de repente, comecei a sentir água a escorrer no meu corpo e despertei.

Afinal era uma chuva e percebi que não eram tiros, mas sim a água que batia na chapa. Sentei-me junto da parede e tive uma reflexão.

Qual foi a reflexão que teve?

Nunca vou sair daqui. Vou ficar e não desistir.

Desde aquele longínquo ano de 1995 não saiu de Angola?

O que aconteceu foi a principal característica do empreendedorismo e do empreendedor: nunca desistir. Dificuldades todos nós temos.

Tu tens, eu tenho e cada um de nós passa as suas dificuldades, sejam elas empresariais, políticas, familiares, financeiras ou sociais. Mas tens que ter este formato de cérebro e pensamento de que ‘eu não vou desistir e isso não me vai abater, vou conseguir, mais cedo ou mais tarde’.

Quais foram os primeiros passos nos negócios em Angola?

O nosso negócio sempre esteve ligado à construção e à imobiliária. Introduzimos em fi nais dos anos 90 o conceito de condomínios.

Os primeiros condomínios, em Luanda, fomos nós que os concebemos, assim como o conceito de condomínio fechado, urbanizações fechadas, com luz garantida e segurança. E, assim, de facto, ao longo dos últimos 25 anos, percorremos o nosso caminho.

Evidentemente que ao longo do caminho encontramos outras oportunidades, como a agricultura, a indústria alimentar e a de construção civil. Mas, a nossa trilha, ao longo dos 25 anos, sempre foi focada na construção civil.

A aposta na construção civil não resultou de algum trauma na casa do amigo, no Rocha Pinto, quando veio a Angola? 

Encontrei Luanda como uma cidade que tinha deficiências na sua urbanização, infra-estrutura e nas condições básicas como a luz e a água. Eu percebi que a primeira necessidade da demanda humana é a dignidade de morar.

Sinto um grande prazer, orgulho e reconhecimento por parte dos clientes quando vejo as caras satisfeitas e sorridentes ao receber a sua casa, o que dignifica a vida deles. Dignifica a vida do homem que trabalha 10, 20 ou 30 anos para poder proporcionar para a sua família condições dignas. No meu entender, sempre busquei reconhecimento através de uma satisfação em proporcionar o melhor produto e serviço para as pessoas.

O nosso foco na imobiliária foi, por um lado, um trilho pessoal onde a gente viu que se consegue fazer uma coisa excelente, bem feita. Por outro lado, havia o país em pleno crescimento, com oportunidades, onde toda a trilha migratória era da parte do interior para as cidades. Era no começo e a gente percebeu a questão da urbanização e da migração das pessoas das áreas rurais para as urbanas.

Fez vários condomínios na zona Sul de Luanda. Na altura, qual era o sentimento das pessoas, uma vez que as casas eram vendidas apenas no papel?

O mercado teve uma empolgação no princípio dos anos 2000, onde vendia-se os projectos na fase inicial, isto é, no papel. Por falta de oferta do mercado todos os projectos eram aceites, mas, evidentemente, depois de 2008 e 2010, em que tivemos processos mal sucedidos, todos nós ficamos muito mais atentos.

Hoje, o mercado é regulado pela credibilidade dos empreendedores e pela confiança que se deposita aos empresários. Há empresas que conseguem fornecer o produto na qualidade prometida. O mercado daqui para a frente vai regularizar-se consoante estes novos critérios.

Qual é o feedback que tem recebido dos clientes, tendo em conta o custo- benefício? Sempre parti do princípio de que negócio entre cliente e empresa de construção civil tem que ser na base, como dizem os ingleses, ‘winwin’.

O cliente tem que perceber que o que está a comprar é feito no sentido de uma grande oportunidade. A empresa construtora tem que ganhar o seu dinheiro, porque somos uma entidade com fins lucrativos, mas tem que proporcionar para o cliente uma sensação de uma boa oportunidade.

Os angolanos, por natureza, são as pessoas que têm essa sensibilidade de enxergar a oportunidade nos diferentes negócios. Chamam-nos os tais ‘bisneiros’, mas vemos isso desde as ruas até qualquer cantina que abre, onde as pessoas tendem a ser empresários e empreendedores.

Mas isso é exactamente fruto originado desta sensação de empreendedorismo, desta sensação de ver que este é um bom ‘bussines’. Então, a principal mensagem que passamos ao cliente é o bom negócio. Esperamos alcançar boa qualidade, bons termos de pagamentos e bom preço. Esta é a origem do sucesso da trilha da Boa Vida.

Sempre teve bons negócios?

Não. A vida do empresário é sempre traçada pelas constantes provas de sucesso e insucessos.

O que tem de passar um bom empresário em Angola?

Para ser um empresário bem-sucedido em Angola você tem que ter uma alta resiliência, capacidade de tornar cada problema seu uma oportunidade de solução mais sofisticada. Vivemos diariamente problemas de complexidade e carácter diferente, seja em termos sociais, políticos, financeiros, fiscais.

Quais são estes problemas políticos, sociais e fiscais que têm vivido? 

Angola está na posição 185º entre os 193 países em termos de condições de facilitação de negócios, isto é quase no final. O nosso nível de burocracia e de formalidades necessárias para se desenvolver um negócio é muito alto.

Evidentemente que o esforço do actual Executivo é muito alto no sentido de se facilitar as coisas, mas ainda temos uma herança do passado que nos impede, impossibilita, ou complica cada passo.

Qual é a herança a que se refere?

É a herança do regime cessante. A herança de um país burocratizado que depende de muitas autorizações e de muitas assinaturas, muitas canetas.

Que tipo de canetas?

São as canetas dos dirigentes. Vou simplificar: fazendo comparação com qualquer país do Leste da Europa, por exemplo daquele donde vim, o país se desenvolve quando se desenvolve o empreendedorismo e abre a possibilidade de cada um de nós ter uma padaria ou um quiosque. Para se fazer isso, o Estado é obrigado a criar condições facilitadoras.

Portanto, nos países do Leste que surgiram do regime comunista, igual ou similar com o que se viveu em Angola, os passos foram dados nos primeiros 10 anos, onde, exactamente, abriu-se o mercado para micro e pequenos empreendedores.

Por mais dificuldades que tivessem, eles teriam suporte na realização do seu negócio. Em Angola, este desafio ainda está à frente de nós, ainda estamos a lutar para criar uma legislação favorável que pudesse te dar uma possibilidade caso quisesses abrir uma agência de publicidade ou de fotografia.

Estas macroestruturas devem ser proporcionadas pelo Estado para se ter uma facilidade no sentido de em um dia ou numa semana se poder abrir uma empresa. Ainda estamos a lutar na burocracia e na formalização dos processos. Isso desincentiva tanto os pequenos empresários como os empresários de grande porte, como os dos Estados Unidos ou da Europa. Quando eles chegam aqui em Angola enfrentam estas formalidades e dificuldades.

Apesar destes problemas que apresenta, é o presidente do Conselho de Administração de uma empresa com quatro mil trabalhadores, em quase metade de Angola e está presente em 11 países (…) Como conseguiu alcançar isso vivendo e enfrentando os problemas que enumerou?

O meu mote diário é seguindo o evolucionista Darwin: ‘não vai sobreviver o ser mais inteligente, mas sim aquele que se adaptar mais rápido’. Diante de qualquer dificuldade, nós temos uma mudança diária capacidade de adaptação imediata.

Em cada problema, por exemplo, não há divisas, não há dólares, não tem isso e aquilo, você pode proporcionar uma solução muito mais sofisticada. Hoje penso que a origem da andança do Boa Vida, como grupo empresarial, é o formato como transmitimos e incutimos nos nossos trabalhadores, é que todos os dias irão encontrar problemas, mas não nos apresentem estes problemas.

Venham com soluções, porque problemas todos nós temos. A diferença consiste na forma como você vai enxergar estes problemas: como um problema que te vai impedir ou como uma oportunidade de uma solução mais sofisticada. Nós, como grupo Boa Vida, como empresa ou como todos os trabalhadores, cada problema enxergamos como apenas uma oportunidade de uma solução muito mais sofisticada.

É esta adaptabilidade que nos permitiu trilhar o caminho para podermos todo o mês sobreviver, pagar salários, progredir, crescer, enxergar outras oportunidades e desenvolver outros negócios. política de Angola e no mundo de uma forma geral.

Perante este cenário, tens que ter Regressando aos problemas que aponta para os empresários, chega- se à conclusão que ninguém está a viver uma boa vida, mas ainda assim escolheu o nome Boa Vida para o grupo empresarial que lidera. Quais foram as razões desta escolha? É uma pergunta interessante.

Muito obrigado. Eu acho que, no fundo do coração, todos queremos boa vida para nós, nossas esposas e filhos. Todos queremos uma boa vida. E acompanhando o desenvolvimento da Nação nos últimos 25 anos, um quarto de século, de uma conjuntura política, dificuldades da guerra civil, sempre sonhei proporcionar condições de orgulho nacional.

Que não seja só o Algarve, Dubai e outros lugares bonitos lá fora, mas que tenhamos aqui dentro do país condições de que nos podemos orgulhar. Dizer que ‘nós também temos boa vida’. Lugares bons para nós, nossos filhos, sem nos preocuparmos se terão acidentes ou não, mas vão ter parques e as mesmas coisas que conhecemos lá fora.

A origem do nome ‘Boavida’ foi na busca da demanda nossa, minha e do meu irmão, onde nós pudéssemos criar em Angola alguma coisa de que tenhamos orgulho. Quando vamos lá fora compartilhar com os nossos familiares, colegas ou amigos, também mostrar que temos coisas boas em Angola. Por exemplo, Luanda não é só trânsito e poeira, também temos coisas bonitas.

Quais são as grandes apostas do Grupo Boa Vida?

O nosso grande sonho é ampliar este grande conceito e criar a chamada ‘Cidade Boavida’. Portanto, esta urbanização já tem uma segunda fase, que se chama Cidade Boavida, que vai ser ampliada em mais três mil unidades e 1500 apartamentos.

Vai ter um formato autónomo, de quase um distrito, em que as pessoas vão ter total autonomia e independência. Isso é o nosso negócio. O que sabemos fazer, fazemo-lo, melhorando todos os dias.

Mas, evidentemente, o nosso grande sonho é impactar as vidas humanas. Portanto, respondemos ao apelo do Executivo para diversificar, razão que nos levou para outros campos, como a agricultura e a indústria. São campos que acreditamos que têm grande sustentabilidade a longo prazo para Angola, porque dependemos muito ainda da importação, mas temos um consumo interno muito grande.

A nossa aposta na agricultura é no sentido de criar condições de produção interna para tornar o país menos dependente da importação e que têm mercado interno. Do outro lado, no que concerne à indústria, temos ainda grande carência nas infira-estruturas, não só na parte habitacional, como na rodoviária e na electrificação do país. Estamos a preparar toda a nossa estratégia empresarial ligada às indústrias de construção civil e transformadoras.

Quais são as apostas na agricultura e na indústria?

Na indústria, por exemplo, o nosso objectivo é tornar real e construir a fábrica de tractores em Angola. Pensamos que o futuro da agricultura em Angola depende da industrialização do sector. Portanto, uma unidade fabril que pode proporcionar equipamentos, no nosso entender vai garantir uma alta velocidade do desenvolvimento do sector agrícola.

Nós pensamos nas dificuldades que a gente tem a enfrentar o sector agrícola, para poder dar estas condições não só para o grupo Boavida, mas para o país no seu todo. Na sequência disso, temos um conjunto de terras onde já cultivamos frutas e outras espécies. Mas pensamos massificar aquilo que vai ser a fonte energética para a produção de proteínas no país, nomeadamente soja, milho e outros grãos de uma forma geral. É a base de alimentação das pessoas e também para a produção das carnes.

Importa também dizer que já temos cimenteiras e siderúrgicas que nos próximos 20 ou 30 anos vão permitir o acesso aos produtos básicos. Mas, para a produção civil, estamos a falar da electrificação do país, água para todos e as próprias residências, o que precisamos são as pequenas indústrias que vão garantir os acabamentos.

De facto, até hoje não conseguimos realizar isso como país. Abrimos uma fábrica de tintas, esferovite, tintas e janelas com algumas unidades, mas pensamos ir mais longe, por exemplo, uma fábrica de mosaicos. Estamos a falar de fábricas que permitam tornar a produção das casas e a construção das habitações de uma forma independente da importação.

Apesar da diversificação no grupo, nota-se que estão mais virados para o mercado imobiliário. Havia muita especulação neste sector?

Evidentemente. Na época em que havia uma grande abundância de dinheiro, qualquer negócio vingava. Qualquer casa, condomínio ou prédio era vendido. Hoje, esta especulação foi cortada, porque apenas vende a qualidade e o preço justo.

Na época da especulação você pagava qualquer dinheiro a qualquer produto, onde um I10 podias pagar a 2 milhões ou até mesmo 20 milhões se tivesse jantes douradas, porque havia sempre alguém maluco para pagar.

Hoje, isso não existe mais. O preço é regulado pela qualidade e a sensação de justiça no preço. O cliente só paga se tiver certeza de que é um bom produto e com preço justo. E esta é a marca da Boa Vida. As nossas casas não são baratas.

Quanto custam as casas construídas pelo grupo que lidera?

Temos casas que vão a partir dos 35 e 40 milhões de Kwanzas, que é muito dinheiro. A mais cara vai estar muito acima dos 200 milhões de Kwanzas. É muito dinheiro, mas quando perceber a qualidade, entrar, ver o tamanho do lote, a infra-estrutura vai notar que é pouco dinheiro tendo em conta o que vai receber. É um preço que consideramos ajustado, porque dá esta sensação de contrapartida.

As pessoas que escolhem as casas construídas pelo vosso grupo têm a certeza de que terão mesmo uma boa vida ou depois terão as casas já com rachaduras e uma série de deficiências?

Em todas as partes de infra-estruturas nós esperamos que sejam feitas com maior e melhor experiência que acautelamos ao longo dos 25 anos. Posso garantir que quanto à infira-estrutura, a Boa Vida está preparada para qualquer chuva.

Nenhuma nos vai surpreender. Mas, a construção civil tem essa característica de nem tudo ir para a perfeição, porque podem surgir casas com alguns defeitos e até rachaduras. Temos consciência disso, mas temos equipas para remediar eventuais falhas. Tanto que é com a maior das tranquilidades que damos aos nossos clientes cinco anos de garantia.

Vivemos num país em que mais de metade das pessoas são pobres. Não têm 30 milhões, mas ainda assim querem ter uma casa condigna para viver. Estas pessoas não constituem um nicho de mercado para o Grupo Boa Vida?

Nos últimos meses nos temos focado na análise sobre como proporcionar uma casa digna às pessoas que têm menos capacidade de aquisição. Surgiu uma ideia e em parceria com o Governo estamos a desenvolver um formato onde podemos proporcionar as casas dignas para a população que tem pouco capital.

Surge no âmbito de um projecto chamado ‘Casa Digna’ para restituir a dignidade das pessoas. Penso que até ao final do ano vamos ter condições de lançar isso oficialmente. Tem a ver propriamente com o conceito de autoconstrução, onde as próprias pessoas contribuem e participam neste processo ao longo dos anos, cruzando com o formato de uma caixa com uma espécie de renda resolúvel, em que a pessoa mensalmente deposita um valor para sustentar a construção desta casa ,

Quanto deverá custa uma casa destas no âmbito do projecto ‘Casa Digna’?

Entre 10 a 15 milhões de Kwanzas.

É um valor razoável?

Nós pensamos que a pessoa que ganha 100 ou 150 mil Kwanzas em cinco anos consegue se desenvolver. Este programa parte do princípio de que acreditamos no potencial de desenvolvimento humano, porque se hoje ganha 100 mil, pensamos que pode ser capacitada e daqui a cinco anos ganhar 200 ou 300 mil.

E assim contribuir mais. Isso não é nenhuma novidade, porque buscamos estes exemplos dos Estados Unidos, Vietname e Brasil. Eram países em desenvolvimento e apostaram na educação humana. Eles ergueram-se fruto de uma aposta na educação. Hoje ganhas 100 mil, mas nada te impede de daqui a cinco anos ganhares 500 mil. Depende de ti e da tua automotivação. Eu quero ter mais, por isso tenho que me tornar mais.

Durante a conversa não menciona os nomes das outras empresas que actuam no sector imobiliário. Mas tivemos o caso da Build Angola e agora o da Jefran. Qual é a diferença entre os projectos que vocês apresentam e os dos vossos principais concorrentes?

A Build Angola é a do Pelé?

Sim. Foi do Pelé. O que se passou?

A Build Angola foi uma burla estruturada pelos estrangeiros aqui no nosso país. Nunca houve propósito de se finalizar estes projectos. Vieram com o propósito de abater mesmo o dinheiro, ao contrário do caso da Jefran, onde houve uma morosidade excessiva na entrega e gerou uma frustração grande.

Eu percebo do mercado da construção civil e, fruto das circunstâncias difíceis do mercado, terá havido uma quebra de planeamento da Jefran, mas nunca houve uma má intenção de não entrega das residências. Houve um atraso maior do que se esperava, o que gerou frustração e chegou-se ao estado em que está. Mas tenho a certeza de que se as circunstâncias e as autoridades permitirem, ele vai acabar todos os projectos.

Vive numa casa construída pelas suas empresas?

Evidentemente.

São os montantes envolvidos em todos os projectos?

Não. Os números que você percebeu estão ligados aos investimentos feitos para retorno na Urbanização Boa Vida e torná-la realidade como vê hoje. Efectivamente, você tinha que aplicar um valor para construir este monstro que pode enxergar hoje. O capital próprio é uma cifra que depende do investimento de cada grupo.

Depende não só da aplicação dos sócios que controlam o grupo, mas também de toda alavancagem bancária. Hoje não temos só um plano, mas um conjunto de investimentos em curso que exigem de nós um esforço de investimento. Portanto, respondendo à sua pergunta, para se alavancar a cidade Boa Vida, que hoje ultrapassa os 2 milhões de metros quadrados, foram necessários mais de 400 milhões de dólares.

O que representa a crise económica para o Grupo Boavida?

Uma grande oportunidade. A crise económica de Angola provocou a fuga dos empresários oportunistas. Fez sair do mercado os gastadores e fez com que ficassem os gestores. Essa crise económica, por mais que seja muito dolorosa para nós, porque todos os dias quando vamos aos mercados e armazéns vemos os preços a duplicarem ou triplicarem, ela fez muito bem para regular o funcionamento dos empresários em Angola. A modalidade que funcionava antes, quando o dólar ainda era capim, as pessoas não percebiam o valor da moeda, porque estava em abundância.

O dólar já foi capim em Angola?

Sim, o dólar já foi capim. Tínhamos um outro formato de funcionamento dos empresários e de uma forma geral dos empreendedores. Hoje é um capítulo completamente diferente que exige de todos nós uma atitude e uma postura diferenciada. Muito mais cauteloso no planeamento, nos gastos,tanto familiares quanto empresariais.

Então, temos que mudar esta atitude. Por isso, digo que a crise trouxe disciplina, exigência no planeamento e muito mais critério na escolha dos empresários. Hoje não temos tempo de errar, porque temos um país que precisamos de salvar. As eleições aproximam-se, será daqui a três anos, e precisamos de mostrar projectos concretos para serem realizados. Não há tempo para erros nem para desperdiçar. A crise trouxe essa peneira entre os gastadores e gestores.

Como é que surgiu a sua inclinação política aqui em Angola?

Todos surgimos com algum propósito dado por Deus. Sou uma pessoa crente e com grande fé na capacidade de mudança humana. Que as pessoas conseguem evoluir e aprender.

A minha trilha política tem um único propósito: ter maior força para poder melhorar a vida humana. O objectivo é poder ajudar o maior número de pessoas a ter uma boa vida. Eu penso que o MPLA é um partido que não é perfeito, como qualquer outro partido no mundo.

O que o levou a escolher o MPLA e não um outro partido em Angola?

O MPLA tem o maior capital intelectual deste país. É o partido com maior força intelectual e com base nisso é o maior alicerce para poder construir um futuro de longo prazo para Angola. Onde todos os erros já foram cometidos, evidentemente, mas não vale a pena continuar a olhar para o retrovisor.

Também não se conduz sem saber quem vem atrás, ou não?

Evidentemente. Mas você tem que manter esta proporção, entre o que espreitas no retrovisor, mas não focas. Mas tens que te concentrar no que vai acontecer no futuro.

Como foi que as pessoas encararam um angolano de origem polaca a pretender entrar no MPLA?

Gerou um grande constrangimento e até hoje uma discussão muito ampla, mas as pessoas que me conhecem de perto sabem que Angola sempre foi minha por livre e espontânea escolha.

É o país onde desenvolvo os meus negócios e também escolhi família. A minha esposa é angolana. Gerou constrangimento sim, mas as pessoas aos poucos perceberam que tanto os Estados Unidos, Brasil, foram feitos fruto da partilha do conhecimento e das diferentes nações que se juntaram.

O que ouvia quando manifestou o interesse em se filiar no MPLA?

Ouvi coisas como a seguinte; ‘você, pula, vieste não sei de onde, o que pretendes? Agora não, mais tarde’. Houve muitos constrangimentos. Mas para mim, como lhe disse, cada problema é uma oportunidade, só queria fazer a minha parte e ajudar as pessoas.

Fui ajudando como empresário em diferentes acções sociais que a gente vai desenvolvendo, mas quero também – e porque tenho capacidade- ajudar também como político. Como pessoa que tenha uma influência maior para tornar a vida dos angolanos mais leve.

Portanto, sempre disse às pessoas que me desaconselhavam que esperassem para ver. Não sou uma pessoa que goste apenas de falar, gosto de fazer. Se avaliarem as minhas acções como negativas, ok vou recuar, mas se trouxer alguma mais-valia, então deixem os actos falarem por mim.

Como é dirigir o Comité de Acção do Partido MPLA numa localidade?

É uma experiência nova para mim, mas as pessoas têm esta empolgação de ter uma expectativa maior. Se no campo empresarial conseguimos fazer o que fizemos, provavelmente na trilha política pode ser que tenhamos ambições maiores. O que significa melhorar a vida dos integrantes.

Pretende concorrer às autarquias?

Não. Eu sou o primeiro-secretário do CAP e sou apologista de que à direcção do partido cabe a decisão de indicar as pessoas que se encaixem melhor na estratégia do presidente do MPLA.

É ele que deve escolher as pessoas que efectivamente possam contribuir na gestão do país. Se o partido achar que eu represento algumas qualidades que possam ser aproveitadas, estou à disposição do partido. Mas não cabe a mim.

Como está o país politicamente e sobretudo as alterações que ocorrem nos últimos dois anos?

Por mais que tenhamos a situação económica vulnerável, penso que do ponto de vista político o país está a passar uma fase muito boa. O actual Presidente da República indicou um caminho anti-corrupção e de se elevar ‘O MPLA tem o maior capital intelectual deste país’ ção a credibilidade internacional de Angola. Isso significa investimento estrangeiro e é o que o nosso país necessita neste momento.

Isto se pode perceber pelo interesse dos países da Europa, da América e da Ásia em quererem investir em Angola. Por mais que tenha uma posição menos favorável do ponto de vista económico, ela hoje é objecto de aposta de várias potências internacionais. O que é fruto desta mudança política e das atitudes do Presidente do país e do MPLA.

Acha que tem havido uma má interpretação das posições defendidas pelo Presidente João Lourenço ou há necessidade de se esperar um bocadinho, embora exista fome, desemprego e uma série de problemas por se resolver?

Eu penso que a implementação das políticas macroeconómicas e o seu impacto directo na vida da população exige uma paciência de longo prazo. Evidentemente, os empresários mantêm este diálogo aberto com o Executivo para melhorar, criar mais emprego, saúde e educação. Pensamos que existe este espaço de melhoria.

O Executivo está aberto para receber estes imputs, como vimos no caso IVA e noutros assuntos. Do ponto de vista político, as linhas macroeconómicas são traçadas e exigem de nós uma paciência extraordinária.

O repatriamento de capitais é uma boa acção desenvolvida pelo Executivo de João Lourenço?

É boa. Hoje o país luta pela sua sobrevivência. Todas as pessoas que se beneficiaram do sistema como ele funcionava, elas têm a obrigação de retribuir aquilo que elas receberam do país na sua proporção. Vai dar 20, 50 ou 80 por cento.

Estamos a falar da vida de 30 milhões de angolanos em detrimento de algumas centenas ou um pequeno nicho que levou a grande fatia do bolo. A tentativa de repatriar estes capitais foi uma medida política correcta.

Qual é a imagem que tem do ex- Presidente José Eduardo dos Santos?

O Presidente cessante consolidou uma Nação. Como podemos compreender, em muitos países da SADC existem grandes complexidades sociais e raciais. O Presidente José Eduardo dos Santos conseguiu consolidar uma Nação, porque temos aqui várias tribos, regiões, línguas nacionais, mas mesmo assim conseguiu cimentar uma Nação. Somos todos angolanos.

Fez-me sentir angolano apesar de eu ter nascido na Polónia. Hoje faço parte e sinto-me como integrante desta Nação. É uma grande valia e alicerce para a construção de um grande país que temos pela frente.

Erros foram cometidos, porque todos estávamos numa trilha de aprendizagem. Uns beneficiaram mais e outros menos, mas a Nação foi consolidada. Eu tenho plena certeza de que estes alicerces que foram feitos exactamente pelo Presidente cessante tiveram o propósito de tornar Angola um grande país. Então, por mais erros que tenham sido cometidos, o balanço é positivo.

Como vê Angola daqui a cinco anos?

Eu vejo Angola nos próximos cinco, 10, 15 ou 20 anos como pivot da SADC. Um país com um maior potencial, porque temos um país grande com muita água e terras boas. Não podemos nos esquecer que dentro de oito anos teremos na terra mais um bilião de pessoas. Essas pessoas vão precisar de comer. Daqui a 18 anos mais dois biliões.

E nós temos condições para esta agricultura do futuro. É uma época que se avizinha para o póspetróleo. Portanto, Angola, por força das circunstâncias e generosidade de Deus, foi feita com muitos minerais, terras e água que dão esta sustentabilidade de longo prazo.

 

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