17 líderes de associações controlam o tráfico de

17 líderes de associações controlam o tráfico de

O tráfico de drogas na província de Luanda é controlado por 17 líderes de associações criminosas identificadas pelo Serviço de Investigação Criminal (SIC), de acordo com o chefe interino de informação da Direcção Nacional de Combate ao Narcotráfico, Carlos Manuel. Em entrevista exclusiva a este jornal, Carlos Manuel evita falar em barões da droga em Angola, entretanto, refere que os 17 líderes de associações têm um poderio financeiro aceitável que lhes permite criar equipas, bem coordenadas por eles, para movimentarem a cocaína em várias localidades. “O consumo de drogas pesadas não é para qualquer pessoa. É para pessoas fidalgas, com um nível de vida aceitável. Não podemos compará-los com quem consome canábis (liamba), por exemplo”, disse.

O intendente Carlos Manuel disse que apesar de os grupos terem condições financeiras, não estão em condições de desestabilizar o país como acontece em outras realidades. Os poderes financeiros que os barões ou líderes da droga nos outros países têm, adianta Carlos Manuel, são capazes de desestabilizar uma sociedade.

No entanto, os cabecilhas das associações têm um grupo bem montado com ramificações nas outras províncias e no exterior do país, concretamente no Brasil, de onde muitas vezes começa a estratégia, na África do Sul e, em alguns casos, na Namíbia, segundo o interlocutor. O oficial do SIC disse que nos últimos anos a corporação ainda não deteve nenhum líder do tráfico, mas alguns colaboradores directos ou próximos a eles, tendo destacado a complexidade do combate ao tráfico para se chegar até aos líderes.

“O tráfico de droga é complexo e clandestino. Para chegares ao líder não é impossível, mas é muito difícil, porque eles têm uma equipa bem montada”, referiu, adiantando que o SIC precisa sempre de estar um passo a frente dos traficantes, pois estes movimentam avultadas somas financeiras. As equipas montadas por tais líderes são constituídas, na sua maioria, por “mulas”, “passadores”, “observadores”, vendedores e consumidores, agem sempre cautelosamente. As dificuldades económicas e sociais por que passam as pessoas, segundo o entrevistado, faz com que muitas aceitem ser usadas como mulas, transportando a droga inclusive no seu próprio organismo para no fim ser recompensado com uma quantia monetária.

Distritos mais preocupantes

O SIC diz conhecer os pontos em que se encontram os traficantes e onde se regista maior consumo e o tráfico, mas o intendente Carlos Manuel disse: “não podemos desvendar”, por questão de estratégia. “Preferimos sempre não tornar público esses locais porque sabemos que os traficantes também têm estratégias”, referiu. Todavia, frisou que os distritos Ingombota, Sambizanga, Maianga e Samba, no município de Luanda, destacam-se na lista de pontos na capital do país. O interlocutor garante que além de Luanda, o SIC tem identificados os locais de outras províncias em que se realiza o tráfico e consumo de drogas, mas que por uma razão estratégica não pode avançar.

Huíla e Huambo no ranking

As províncias situadas no litoral são as mais preocupantes, sendo que Luanda e Benguela lideram as estatísticas de zonas de consumo e tráfico de drogas. No entanto, a preocupação dos investigadores é extensiva às províncias da Huíla e Huambo, que, apesar de se localizarem no interior, vêm a seguir nas estatísticas da corporação. O SIC presta particular atenção às cidades com existência de portos por considerá-las vulneráveis e de risco, por serem zonas de trânsito e de atracagem de grandes embarcações onde, normalmente os traficantes aproveitam para camufl ar os seus produtos.

Apontou, como exemplo, o caso do Porto de Luanda, onde, no ano passado, foram apreendidos cerca de 500 quilos de cocaína que estava acondicionada num contentor transportado por um navio. Carlos Manuel disse que o produto saía da América e tinha como destino a Europa, usando Angola como área de passagem. O responsável do SIC aproveitou ainda para lembrar a polémica gerada em torno da droga apreendida no Porto de Dakar, no Senegal, onde foram encontradas drogas em viaturas supostamente importados pela Presidência da República de Angola.

“Aquelas viaturas partiram sim do Brasil e se destinavam à Angola. Foram importadas por uma concessionária, mas não são da Presidência da República, aliás, não me recordo de a Casa Civil ter importado carros do Brasil”, disse, acrescentando que os traficantes procuram muitas artimanhas para atingir os seus intentos. Disse que os trafi cantes encontram mais facilidades em introduzir drogas nos navios, por exemplo, em relação aos aviões, reforçando que eles aproveitaram as viaturas que vinham para Angola para colocarem os seus negócios.

SIC garante que o combate às drogas “é satisfatório”

importa referir que a Direcção nacional de Combate ao narcotráfico deteve, só no primeiro semestre deste ano, 38 pessoas acusadas de envolvimento no tráfico e consumo de cocaína e outras 23 por crack. nas detenções de cocaína, a maioria apanhadas em flagrante delito, estão 36 homens e três mulheres e no que diz respeito ao crack encontram-se a contas com a justiça 23 cidadãos nacionais, todos eles do sexo masculino. A maioria da droga apreendida no país é proveniente da república Federativa do Brasil, com destino muitas vezes para a Namíbia e África do Sul. Apesar dos constrangimentos que se registam, o oficial do SiC considera positivo o combate que o país leva a cabo contra o tráfico de drogas. para tal, tem sido útil a interacção com instituições como a polícia Federal do Brasil e a interpol.

“Não descartamos o envolvimento de membros da corporação”

questionado sobre se a polícia nacional tem
registado o envolvimento de membros da corporação
no tráfico de drogas, Carlos Manuel
disse que o SiC não descarta esta possibilidade.
“não descartamos isso. Estamos a fazer trabalhos
para apurar esses casos, principalmente
nos postos fronteiriços”, disse.
OPAíS insistiu na questão para saber do oficial
do SiC se algum membro afecto ao Ministério
do interior tinha sido detido, nos últimos anos,
por envolvimento no tráfico, ao que nos respondeu
que há um caso de um agente dos Serviços
prisionais que terá facilitado a entrada de
substâncias no interior de uma cadeia.
Acrescentou que os agentes afectos ao Ministério
do interior têm instrução adequada para
não se envolverem em actos desta natureza,
mas diante dos rumores que têm surgido, principalmente
nas cadeias, foi criada uma comissão
para investigar.