Jogos televisão e panquecas

Está quase impossível um minuto de concentração, há quatro crianças no chão da sala a jogar uma coisa qualquer que mete dados e uma espécie de cartas. Falam alto, é como se entendem, porque o televisor também tem o volume alto. Vai saltitando de canal infantil em canal infantil e eu sou uma espécie de baby-sitter. No quintal as boladas no muro. Ao menos nisso os vizinhos partilham um pouco comigo. Os cães dos dois quintais é que já se calaram, habituados ao barulho.

Eu quero alinhar os pensamentos, juro que não consigo, então paro. Foco-me um pouco na criançada e elas são mesmo especiais, estão atentas ao seu jogo e ao que passa a televisão. Pergunto quem está a ganhar e tenho a resposta, quero saber o que estão a ver na televisão e tenho respostas, contam-me até pedaços das histórias, sabem os nomes das personagens.

E com tudo isso ainda se lembram de sair a correr ou simplesmente de gritar para saber da tia Di se as panquecas estão prontas. As crianças têm esta capacidade que os adultos perderam, sem saber quando e nem como. É admirável a forma como lidam com o mundo, de pureza e sem rodeios.

Com atenção imensa mesmo quando não parece. E absorvem tudo, ainda que aparentem atenção a outra coisa. E eu à procura de espaço em mim e de uma brecha de silêncio na sua presença, para escrever um texto que eventualmente dissesse alguma coisa a quem o lesse, que dissesse alguma coisa a mim mesmo, mas as crianças querem lá saber, são felizes como são e pronto. E quando as mandamos calar, nesses momentos, muito provavelmente o fazemos por mera inveja.

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