Quem dará voz aos angolanos na diáspora?

Por: ISRAEL CAMPOS

De entre as várias motivações para a imigração temporária ou permanente de angolanos, a busca de melhores condições de vida é, seguramente, o “elo” que os une. Não são conhecidos números exactos de angolanos que bateram às portas da Europa e de outras partes do mundo, mas porque se trata de um movimento contínuo, as autoridades do nosso país deveriam olhar para esse fenómeno com alguma inquietação, quanto mais não seja porque muitos e valiosos quadros incorporam, também, as longas listas daqueles que decidiram e continuam a decidir “bazar”.Apesar de o corrente debate sobre a “fuga de quadros” se impor sempre de um lado da discussão, a questão do patriotismo que, segundo alguns, “jamais levaria alguém a abandonar o país mas sim a lutar pela sua melhoria”, é um facto, portanto inquestionável, que Angola tem uma vasta comunidade de angolanos na diáspora com motivações próprias, anseios, sonhos e histórias que todos nós, os angolanos aonde quer que estejamos, precisamos de saber e ouvir.Durante muitos anos, e até aos dias de hoje, o executivo angolano, especificamente no seu domínio das relações exteriores, optou pela lógica e crença irrealista de que as representações diplomáticas de Angola no mundo são as vias exclusivas de se “vender” e melhorar a imagem de Angola na arena internacional.Com o passar dos anos, não precisamos de fazer um grande esforço para compreender que Angola no mundo ainda é mais conhecida pelos escândalos de corrupção do que propriamente pelas suas riquezas, potencialidades e beleza do seu povo. Isto denuncia claramente o fracasso do projecto de se dar maior credibilidade ao país, com base na confiança exclusiva aos senhores embaixadores/ras. Uma das grandes fraquezas desta estratégia do Executivo, na minha opinião, é o facto de que dá um tratamento privilegiado às representações diplomáticas, esquecendo-se, por completo, de que os embaixadores de Angola no mundo, de facto, são os angolanos ordinários que lutam pela integração em novas sociedades, que falam em nome de Angola, que se destacam na academia e são reconhecidos pelo seu carisma e cada toque de kuduro ou de kizomba que dão, com orgulho.Estes são os reais embaixadores. Aqueles que elevam, todos os dias, o nome de Angola, aonde quer que estejam. Neste tempo, em que Angola precisa de firmar a sua credibilidade nos palcos do mundo para que possa captar maior investimento estrangeiro e atenção mundial é imperativo que se faça uma reflexão mais séria sobre a forma com que se pensa atingir esses objectivos. Não podemos, como no passado, permitir que as embaixadas e consulados de Angola pelo mundo sejam só mais lugares de acomodações de pessoas, com base em conveniência política.Precisamos de nos assegurar que temos os representantes certos nos países certos e de que, sobretudo, eles, os representantes, estejam focados na exploração e divulgação daquilo que de melhor existe das comunidades angolanas nos respectivos países, para além das suas demais competências.Uma outra urgente necessidade é a de criarmos mecanismos de avaliação do desempenho das missões diplomáticas enviadas pelo mundo em nome de Angola e, portanto, dos angolanos. Estes diplomatas, tal como outros governantes, são gestores públicos e por este motivo têm a obrigação de prestar contas aos angolanos.O papel da mídia A imprensa pública, em colaboração com os adidos de imprensa nas missões diplomáticas angolanas, têm responsabilidades acrescidas no que respeita à promoção dos angolanos que fazem Angola acontecer fora de Angola, elevando, deste modo, o nome do país além fronteiras. Lamentavelmente, este não tem sido o cenário real e factual.Ao contrário, sente-se, até, que a imprensa privada tem vindo a ser mais actuante no sentido de reportar as histórias, anseios, actividades e conquistas dos angolanos na diáspora. Precisamos de nos questionar o porquê da preocupação excessiva e selectiva da imprensa pública, nomeadamente TPA, RNA, Jornal de Angola, ANGOP, tão somente quando acontece uma visita presidencial a um outro país.E não, como penso que devia ser, regularmente, com a existência de repórteres correspondentes nos países de maior interesse para Angola. É sobre o presidente da república visitar os países ou sobre os angolanos que fazem Angola ser Angola no mundo? A título de exemplo, acabou de se licenciar, na semana fi nda, um número considerável de estudantes angolanos nas mais variadas universidades do Reino Unido.Quem são esses angolanos? Quais são os seus anseios? Quais as suas áreas de formação? Quantos são? O que querem? Pretendem voltar para o país? Estas são questões que jamais veremos respondidas pois a estratégia falhada de se pensar diplomacia continua mais focada nas instituições do que nas pessoas, que são quem faz, de facto, as coisas acontecer.

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