Mercado do Luvo não oferece mínimas condições de higiene e segurança

O mercado do Luvo a céu aberto, onde se realizam as trocas comerciais no lado angolano, encontra-se próximo da linha fronteiriça e não oferece as mínimas condições de higiene e segurança, disseram alguns comerciantes e compradores, que chegaram a afirmar que, por causa da desorganização, muitas pessoas provenientes da República Democrática do Congo passam despercebidas pela linha de fronteira, propiciando, deste modo, a imigração ilegal e outros crimes transfronteiriços

Questões como o péssimo estado da via entre Mbanza Kongo e o mercado fronteiriço do Luvo, fraco investimento a nível de infra-estruturas e insuficiência de recursos humanos colocados nas fronteiras do Zaire, bem como a higiene e a segurança, estão entre as preocupações dos munícipes, situação que contribui para a redução das receitas fiscais.

A localização actual do mercado fronteiriço do Luvo tem dificultado o trabalho dos órgãos operativos do Ministério do Interior destacados na localidade com o mesmo nome, propiciando, deste modo, a imigração ilegal e outros crimes transfronteiriços.

O mercado fronteiriço do Luvo dista 60 quilómetros de Mbanza Kongo, capital da província do Zaire, e abre oficialmente aos Sábados por volta das 8 horas e 30 minutos, mas a partir de Quartafeira os camiões começam a perfilar- se para entrarem mais cedo, no sentido de acelerarem o processo administrativo junto da alfândega. A nossa equipa de reportagem constatou na fronteira do Luvo o funcionamento dos vários órgãos de fiscalização na comuna, bem como as dificuldades que enfrentam os órgãos de controlo ao longo da fronteira.

Contrabando de combustível entre os crimes predominantes

Importa referir que a violação da fronteira com a República Democrática do Congo, bem como o contrabando de combustível, continuam a ser os crimes predominantes. João Ndongala, cidadão que trabalha o mercado, disse que infracções cambiais, contrabando de gasolina e gasóleo, transportados para o mercado da vizinha República Democrática do Congo (RDC) são frequentes, mas o que mais preocupa é a questão da higiene e a entrada de congoleses. “Sempre usei este mercado como meio de sustento para a minha família e, aqui, o que mais me inquieta é o lixo que se faz. No tempo de chuva fica pior, porque as pessoas estão preocupadas em vender e não em fazer limpeza. Não há segurança devido ao número de pessoas que entram e saem da RDC”, disse Alguns efectivos policiais que não aceitaram ser identificados, defendem a deslocação do mercado fronteiriço do Luvo para o interior da mesma comuna, bem como a construção de infra-estruturas que permitam maior fiscalização das mercadorias que atravessam a fronteira. “O mercado é um sítio turístico e não pode continuar tão sujo.

As pessoas que ali vendem devem fazer limpeza todos os dias e não esperar pela intervenção da Administração do mercado no dia de limpeza”, disse Maria Sampaio, cliente

 

“Lingala tenta dominar o Kikongo”

Em entrevista exclusiva a oPAíS, nzuzi Makiesse, administradora de Mbanza Congo, disse estar preocupada com a violação da fronteira. “o mercado do Luvo funciona de forma parcelar e é por semana. Uma semana Angola e a outra Congo Democrático. As pessoas quando entram directamente estão dentro do mercado”, explicou. Por essa razão, estão a pensar em movimentar o mercado para um outro lugar, para facilitar o controlo da entrada das pessoas. Uma vez que a pessoa, ao entrar, passa por alguns controlos e depois entra no mercado. “Acredito que isso vai facilitar o trabalho da Polícia, que não tem sido fácil.

Eles têm sempre muito trabalho, porque com a maneira como invadem a nossa fronteira fica difícil, mas os nossos tropas estão sempre em prontidão, a controlar as pessoas que invadem o nosso município. não é que nós não queremos que os congoleses entrem para Angola, mas que seja em conformidade”, afirmou. Garantiu que o dinheiro arrecadado pelo mercado, antes era depositado na conta única do tesouro, mas agora vai para a conta agregadora do município.

A responsável, aproveitou ainda para lembrar que, por causa das invasões, as pessoas vão perdendo um pouco da nossa Cultura. “Estamos preocupados com a nossa língua. nós fazemos fronteira com o Congo Democrático, a influência é que a língua Lingala deles tenta dominar a nossa língua Kikongo. Então, vamos dando algumas palestras a nível das escolas, com a ajuda das igrejas e associações, no sentido de enaltecermos a nossa cultura nacional”, disse.

Camionistas agastados com a Policia fronteiriça 

Irregularidades e péssimas condições em que os efectivos da Polícia de Guarda Fronteira vivem naquelas localidades estão na base do descontentamento dos camionistas que usam a via para chegar ao Luvo.

João Manuel explicou que só dão a famosa “gasosa” no polícia quando estão em falta de algum documento, mas quando estão dentro da legalidade procuram discutir os seus direitos. Ainda assim, a própria Polícia faz de tudo para que possam deixar algum dinheiro. “No meu entender, quem devia passar a multa é o polícia regulador de trânsito e não a Polícia de Fronteira, porque isso cria muitos embaraços”, disse.

Em entrevista a OPAÍS, Ramiro Henda Mateus, camionista há 22 anos, contou, que têm encontrado várias dificuldades, uma vez que as estradas do país não estão em condições e que a maior parte dos acidentes dos camionistas são devidos às esburacadas rodovias. Outra coisa que os inquieta, segundo o nosso entrevistado, é o número de controlos, exagerado, que há na via entre Luanda, Mbanza Congo e Luvo. “Só de Luanda para o Luvo encontramos cerca de seis ou sete controlos sem necessidade. E estando aqui no Luvo ainda tem outros dois que temos que passar por duas ou três barreiras. Nós achamos desnecessários estes controlos, porque somos obrigados a deixar sempre alguma coisa”, disse.

As multas deviam ser passadas pela Polícia de Trânsito e não pela de Fronteira

Ramiro Mateus, normalmente. faz as vias de Luanda para Ondjiva e Dundo. Depois Luanda, Soyo e Luvo, dependendo dos fretes. No seu entender, uma das piores estradas do país é a EN100, de Luanda ao Sumbe e depois até Canjala, mas que está a melhorar com as obras. E, por isso, têm vários problemas com os pneus, que não são baratos. “Pagamos o seguro, taxa de circulação, mas as vias estão sempre péssimas. Quando o polícia te manda parar, se tiveres todos os documentos, vai ver o pneu e dizer que está meio velho. Nós aqui no Luvo somos obrigados a pagar a licença de aluguer. E nenhum camião pode entrar enquanto não pagar a taxa de circulação”, explicou. Para ele, a Polícia de Fronteiras não devia passar multas, devia trabalhar com a Polícia reguladora do Trânsito, que tem o direito de passar a multa, uma vez que as alfândegas estão a apertar. “Quem nos cobra é a alfândega, mas até agora não consigo compreender, o porquê de o camião não entrar sem pagar a taxa, uma vez que passamos tantas fronteiras e em nenhuma nos dão recibo para comprovar que pagamos”, contestou. O camionista é de opinião que o Ministério do Interior, ou as alfândegas revejam essa atuação e decidam a quem se deve pagar, porque antes de entrarem para a área “aduaneira” pagam e se não pagarem não os deixam atravessar a fronteira do Luvo.

“Notamos que esses polícias são humanos e passam por dificuldades”

Estanislau Sardinha, também camionista há 22 anos, partilha a mesma opinião dos seus colegas, ao afirmar que a maior dificuldade que têm encontrado é o estado das vias e os incómodos da Polícia nas fronteiras. “Neste percurso de camionagem, às vezes ficamos stressados, porque mesmo com as nossas papeladas completas, sempre tem alguma coisa que os polícias encontram só para complicarem e deixarmos dinheiro. Isso já se tornou um vício da nossa Polícia”, disse.

O interlocutor, frisou que a camionagem em Angola é difícil, sendo que já viajou por quase todo o país, excepto Cabinda. E as maiores dificuldades sempre encontrou-as na via do Luvo devido ao número de fronteiras 7 controlos que são um exagero. “Para entrar no Luvo, às vezes pagam aqueles que infringem a lei. Mas também notamos que esses polícias são humanos e passam por dificuldade, então, também damos algum dinheiro, no sentido de os ajudar, porque não é fácil trabalhar nessas fronteiras”, contou. Salientou que, apesar de já ter ajudado, várias foram as vezes em que se sentiu extorquido e humilhado por parte da Polícia, e que apenas pagou para evitar o pior.

“Se queremos ver melhoria nas nossas estradas devemos pagar taxas”

Stanislau Sardinha aproveitou a ocasião e deixou um apelo aos seus colegas que não gostam de pagar as taxas de circulação, para que o façam, por ser um dever de todo o cidadão. “Se queremos ver melhorias nas nossas estradas devemos contribuir para que haja melhorias e, para tal, devemos pagar as taxas e impostos que são direitos do Estado, porque só assim o país vai crescer. E nós devemos pagar, porque é o nosso dever”, apelou. Igualmente pede à Polícia que deixe de extorquir o cidadão por coisas sem sentido, só para tirarem algum proveito. “A policia deve ser um amigo, um companheiro, e nem sempre é para multar ou extorquir, mas para dar algum conselho ao automobilista, para que da próxima vez não cometa o mesmo erro”, disse

error: Content is protected !!