“Com esta administração já não falamos”, dizem trabalhadores da RNA

Pela primeira vez na história de Angola Independente, trabalhadores do maior grupo de comunicação social nacional, sempre tido como estratégico, decretaram uma greve. São 36 canais de rádio prontos a parar e a voltar ao diálogo apenas com uma nova administração

Os profissionais dos 36 canais da Rádio Nacional de Angola, em todo o país, lançaram ontem (22) um aviso de greve interpolada com a duração total de 30 dias, devendo a primeira ser observada a partir das zero horas do dia 29 de Julho (Segundafeira). A decisão foi tomada em assembleia de trabalhadores realizada na União dos Escritores Angolanos, em Luanda, na presença do secretário-geral do Sindicato dos Jornalistas Angolanos (SJA), Teixeira Cândido.

Uma nota de imprensa por ele assinada justifica a paralisação com a alegada falta de confiança em relação à gestão dos integrantes do Conselho de Administração do grupo RNA. A acontecer a greve, Africano Neto, um dos editores da Rádio Nacional e membro do sindicato, diz que as emissões não serão desligadas, em princípio, ficando preenchidas com música instrumental. E se algum dos directores resolver entrar numa cabine e apresentar qualquer programa ou serviço noticioso, “que o faça sozinho nesses trinta dias”, apesar de esperar que não surjam os chamados “furagreve”. Executivo sai poupado Os sindicalistas da Rádio Nacional de Angola não protestam contra o Executivo, porém, alegando que este cumpriu o seu papel e desbloqueou a verba para os pagamentos e ajustamentos salariais reivindicados pelos trabalhadores, não tendo sido seguido pelo Conselho de Administração, em que também identificam algumas fissuras, com ameaças de colocação do lugar à disposição por pelo menos dois dos seus membros. Ou seja, os alvos do protesto são, sobretudo, o presidente do Conselho de Administração da empresa, Marcos António Quintino Lopes, e o administrador para a área Finanças, Fidel José Adão da Silva. “Eles aplicaram um qualificador e acabaram por distribuir entre si a verba do Estado”, acusa um dos funcionários, alegando que os dois terão aumentado os seus salários e atribuído a directores de algumas províncias um subsídio de chefia de cerca de 400 mil Kwanzas. “É como se se tivessem aproveitado da reivindicação dos trabalhadores. Isto para não falar dos carros topo de gama que compraram para os administradores, numa altura em que diziam não haver dinheiro”.

A quebra de confiança, segundo os sindicalistas, advém também do facto de suspeitarem que o novo qualificador profissional do grupo RNA tivesse sido elaborado por uma empresa, havendo quem aponte ser uma denominada Best Way, por um valor astronómico, havendo quem aponte os 80 milhões de Kwanzas, e também pelo facto de trabalhadores com pouco mais de um ano de casa terem saído dos 90 para os 325 mil Kwanzas de salário em detrimento de outros mais antigos e profissionalmente mais qualificados.

Perda de confiança

Instalado o clima de crispação há alguns meses, no mês passado, quando os trabalhadores tiveram nas suas contas bancárias os salários resultantes dos ajustes feitos pelo Conselho de Administração, quase que irrompeu um tumulto na empresa, mas, ainda assim, dizem, o presidente do Conselho de Administração saiu de férias. Outra questão que os trabalhadores dizem não estar bem explicada tem a ver com o plano de formação. Dizem que a empresa contratou formadores brasileiros para virem ensinar como se faz uma reportagem, esquecendo- se do seu historial e da quantidade de quadros de alto gabarito que detêm, alguns deles formadores e professores universitários.

Ministério apela ao diálogo

O Ministério da Comunicação Social (MCS) apela ao diálogo entre o Sindicato de Jornalistas Angolanos (SJA) e o Conselho de Administração da Rádio Nacional de Angola (RNA), para chegarem a entendimento e evitarem eventual greve marcada para o dia 29 deste mês. Segundo uma nota do MCS, citada, nesta Segunda-feira pela Angop, em Luanda, o Ministério da Comunicação Social manifesta total empenho para continuar a exercer o seu papel conciliador entre as partes, no estrito cumprimento da lei e das suas responsabilidades orgânicas. Para tal, o MCS, enquanto órgão de tutela, orientou a RNA a criar uma comissão de reclamações, com a participação de um representante do sindicato e do Ministério da Comunicação Social, para avaliar e decidir sobre as reivindicações apresentadas.

O MCS tomou conhecimento da declaração de greve na RNA assinada pela Direcção do SJA, após assembleia de trabalhadores realizada ontem, na sequência de uma convocatória datada do dia 20 deste mês. A referida declaração alega, como fundamentos da greve, uma suposta “falta de confiança dos trabalhadores no actual Conselho de Administração da Radiodifusão Nacional de Angola”. O MCS recorda à opinião pública que, no em Maio deste ano, o Conselho de Administração da RNA chegou a um acordo com o SJA em relação ao caderno reivindicativo então apresentado com um total de dez pontos. Um dos pontos principais deste caderno reivindicativo era referente ao reajuste salarial, entretanto viabilizado, com grande sacrifício, pelo Estado, enquanto accionista único.

A implementação deste reajuste causou algumas incongruências, compreensíveis em qualquer processo idêntico, que deram azo a várias reclamações legítimas dos trabalhadores. O MCS lamenta que o SJA se recuse a contribuir para a análise objectiva e séria das reclamações dos trabalhadores, preferindo radicalizar a sua posição e incitando os mesmos a uma greve completamente injustificada.

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