Agricultura tradicional impulsionada no Dombe Grande como escapatória à crise

Desenhado para promover, instruir e patrocinar as práticas agrícolas na comuna do Dombe Grande, no município da Baía Farta, província de Benguela, a Fundação Atlântico gerou o projecto Integrado “Dombe 4.0”, criado em Maio de 2018. Terça-feira, foram apresentados os resultados das primeiras colheitas, ambicionando-se obter um total de 80 toneladas de feijão.

Zuleide de Carvalho, em Benguela

Fruto de uma iniciativa filantrópica, o “Dombe 4.0”, que visa auxiliar as comunidades a tornarem- se independentes financeiramente, através do cultivo e venda de produtos, é visto pelos beneficiários como uma ajuda há muito esperada. A estratégia por detrás deste modelo de auto-sustentabilidade não envolve financiamento monetário directamente patrocinado aos alvos, ao invés, agrega conhecimentos, e funciona com permuta de matériaprima, facultada à priori e reembolsada mais tarde, sem juros. Começa-se por fornecer matéria- prima, 10ton feijão e 9ton de adubos, aos agricultores, 162 famílias, para que cultivem 157 hectares, terras pertencentes à antiga Açucareira e Ministério da Agricultura, que tenderão a ser cedidas aos camponeses.

O objectivo é que, nas futuras colheitas, periodicamente, os agricultores tradicionais possam restituir a quantidade de sementes recebida outrora, para que a coordenação do projecto as possas disponibilizar a outras famílias que careçam de ajuda. Assim, quando cada camponês colher o suficiente para reembolsar o “empréstimo”, a produção não só garantirá o sustento dos seus lares, como venderão o excedente a grosso e retalho, através das cooperativas em que estão associados. A ciência como principal trunfo São residentes na comuna do Dombe Grande mais de 41.000 pessoas, sobrevivendo a esmagadora maioria da agricultura, sem possuírem tecnologias, conhecimentos ou técnicas eficientes, que lhes permitam obter sustento ou lucro.

O envolvimento da Fundação Atlantico, parceiro financeiro, e a Fundação Ondjyla, parceiro no ramo da especialização e conhecimentos, permitiu recrutar para a equipa do projecto 8 técnicos licenciados na Faculdade de Ciências Agrárias do Huambo. A eles, cabe o acompanhamento das 162 famílias no cultivo, passando-lhes know-how, e prestar-lhes toda a assistência técnica e científica no manusear dos solos e das culturas.

 Demasiada terra fértil e poucos rendimentos…

Estudos oficiais indicam que mais de 70% da população nacional vive da agricultura. Desses, a esmagadora maioria não se consegue sustentar, por motivos identificados: inexperiência na rentabilização do solo e culturas e, créditos altos contraídos. Segundo José Wanassi, coordenador geral do programa “Dombe 4.0”, esses dados estatísticos da FAO, dão muito em que pensar. Permitem perceber o que deve ser feito para mostrar “o caminho” às várias comunidades agrícolas angolanas.

Tendo sido inquiridas 182 famílias na base do projecto, averiguou- se que 83% destes vendem os produtos agrícolas no mercado paralelo, porém, admitem que, caso tivessem assistência de técnicos agrários e material moderno, alcançariam independência financeira. O senhor Bernardo Oke, natural e residente no Dombe Grande, é agricultor há 25 anos. Para si trabalham 10 pessoas, incluindo- se alguns dos seus 6 filhos. Cuida de 8 hectares, onde planta tomate, feijão, milho e pimentos. Associado ao projecto “Dombe 4.0” há um ano, “notei que os técnicos estão a acompanhar os nossos trabalhos”, confirmou, satisfeito. Começou na vertente da agricultura familiar, para auto-sustento. Agora, inserido nesta forma de trabalhar organizada, conta “com os benefícios para amanhã atingir um bom patamar” financeiro.

Rentabilizar o tempo: máquinas precisam-se!

Na preparação de 1ha de terra, uma família de 6 elementos que cultivem diariamente, por largas horas, consomem entre 20 e 40 dias até obter o solo ao nível desejado, pronto para receber as sementes.

Porém, na apresentação do projecto “Dombe 4.0”, ocorrida Terça-feira, soube-se que, o trabalho de preparação do solo que pode levar a uma família mais de um mês a concluir, uma máquina realiza rapidamente numa hora.

Assim, o esforço manual delimita não só a periodicidade das futuras colheitas, logo, o tempo de espera para obtenção do sustento, como também condiciona o cumprimento dos prazos prometidos ao comprador grossista maioritário, um supermercado. Para obter-se sucesso num período mais breve, propiciando que mais famílias sejam alvo de inclusão no projecto e recebam acompanhamento diário dos técnicos, os beneficiados desejam o auxílio, envolvimento, de agricultores que tenham máquinas adequadas.

Cristiano Luís Joaquim, presidente do núcleo de associações agrárias locais, apelou por um tractor, pois, se lhes for doado, pretendem rentabilizá-lo ao máximo, utilizando-se à vez, em cada um dos terrenos divididos pelas 162 famílias.

O Governo deve apoiar mais…

José Gomes da Silva, director do gabinete provincial da Agricultura, enunciou que “o Governo de Benguela acolheu com grande satisfação este projecto” e que “temos dado apoio institucional”, salientou. Todavia, quando questionado sobre as adversidades, Gonçalves Paulo, soba adjunto da zona, informou que, lamentavelmente, o Dombe Grande ainda não foi abrangido nos planos de fornecimento e distribuição de energia eléctrica, nem de água potável. Falando em nome do povo que representa enquanto autoridade tradicional, a falta de electricidade para pôr as moto-bombas a trabalhar, na rega das plantações, forçando-os a recorrer aos geradores, constitui um custo permanente e avultado. para manterem as lavras verdes, com culturas semeadas, para posterior colheita, cada agricultor adquiriu moto-bombas próprias, inclusive os mais módicos, havendo famílias detentoras de somente meio hectare, sendo um recurso primordial para a agricultura tradicional. O soba Gonçalves paulo enfatizou que “as dificuldades são várias” falta apoio “em imputs agrícolas, educação, saúde…” Além disso, “já pedimos ao Governo provincial, pelo menos instalar a energia eléctrica aqui na comuna…” Entretanto, com este projecto integrado, julga que a médio-prazo as famílias que habitam os 2.172 Km2 têm uma real hipótese de gerar melhores condições de vida aos seus e garantir sustentabilidade às gerações vindouras. passado apenas um, dos quatro anos de maturação do projecto, o titular provincial das questões agrícolas declarou: “estamos a constatar uma certa melhoria no campo”. Agora, do Governo, os populares esperam por água e electricidade.

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