Quando um país miserável é fábrica dos desejos dos poderosos

 

Por:ISRAEL CAMPOS

Chegaram lá. Atingiram os extremos. Bateram na camada mais profunda da escala da vergonha. Como alguém me disse, há alguns dias, a vergonha só se perde uma vez.

O restante que vem é, simplesmente, sequência da vergonha que já não se tem. E quando já nem vergonha se tem o absurdo converte-se em norma e a porcaria é o pão de cada dia. O choque proveniente do anúncio de um dos projectos que revela, muito bem, as intenções prioritárias de quem comanda a gestão deste país, revelou as últimas gotas de esperança que restavam deste vaso partido que se torna fragilizado a cada dia e vez mais.

Continua a ser um exercício extremamente complexo, até hoje, passados alguns dias, compreender as motivações de um projecto que visa dar mais “luxo” disfarçado de “melhores condições de trabalho” a quem, pelo bem ou mal, já o tem, sobretudo no contexto do país real. Torna-se, a cada medida que frustra as expectativas do cida- ISRAEL CAMPOS dão e reduz consideravelmente a crença em “novos paradigmas”, cada vez mais difícil voltar a acreditar no projecto de país para todos, onde resolver os problemas do povo faz parte do topo da agenda de governação.

Ao que nos parece, e ao que, de facto, é, continua a existir, ao contrário, uma preocupação excessiva de melhorar as condições dos já bem posicionados, abastecer as suas mesas e egos e de se lhes dar, quanto mais e melhor, “melhores condições de trabalho” com a atribuição de carros luxuosos, mansões personalizadas, subsídios absurdos e, agora, como se não mais bastasse, um bairro próprio, para que possam, como se anuncia, “melhor reinar”.

Enquanto as prioridade dos dirigentes de um país “especial” continua a ser garantir que os “seus” continuem no mais alto nível possível da cadeia social, a Angola real é e continua a ser a mesma dos problemas inumeráveis e miséria de cortar o coração, a qualquer pessoa que o tenha. A nossa Angola, meus caros dirigentes, continua a ser a do lamento e reduzi- Uma rádio que se mantém no topo das audiênc ias e que tem emissora s nas quatro províncias mais populosas (Luanda , Hua mbo, Benguela e Hu íla). Lua nda 99.1 FM Benguela 96.3 FM Huam bo 89.9 FM Huíla 99. 3 FM da esperança de vida. A Angola da fome e das altas taxas de mortalidade infantil. A Angola onde os ricos são “angolanos especiais” e os pobres vivem condenados à pobreza e falta de oportunidades. A Angola da seca no sul, da vergonha, e falta dela, dos hospitais sem condições, das milhares de crianças fora do sistema de ensino, da má nutrição e da falta de luz, em várias dimensões. Caros “donos” do poder, já não acreditamos em discursos principalmente quando as vossas decisões e acções são as primeiras a anularem tudo aquilo que vocês dizem. Não queremos mais do que aquilo que merecemos. Relaxem. Não é nossa pretensão penetrar nos vossos meios, aquilo que vocês chamam de “elite”, onde o ser-se dinheiro é o mais importante. Podem ficar descansados, não queremos os cargos nem o conforto que os carros altos vos garantem. Só queremos, como repetidamente temos vindo aqui a dizer, respeito e um bocado de consideração. Enanam-se, meus senhores, se pensam que a tal “gestão participativa”, da qual tanto falam, esgotase em momentos de auscultação ou coisas parecidas. Gerir com todos é, sobretudo, se garantir que todo e qualquer passo da gestão tem em conta os desejos, vontades e necessidades da parte mais importante, que neste caso somos nós, os cidadãos angolanos.

É altura de dizer: Chega! Não podemos continuar a permitir que os recursos dos angolanos estejam ao exclusivo favor e disposição de quem tem a missão de geri-lo por tempo determinado. Os donos estão aqui e não precisam de bairros para os ministérios mas de bairros que possam garantir a harmonia social e devolver a esperança de milhares de angolanos espalhados por todo o país. Não temos nada contra o país ser

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