Rair, o modelo de inclusão no Colégio Kitamba

Rair é como chamam ao rapaz de sete anos padecente de uma gangrena que lhe consumiu os quatro dedos de cada mão. Desde cedo com vontade de escrever, fá-lo a custo de muito esforço

O director-geral do Colégio Kitamba, localizado na sede do distrito do Ramiros, município de Belas, em Luanda, Veloso Kitamba, revelou que classifica o pequeno Joaquim Gomes Albano Cachimbombo, conhecido por Rair, como um verdadeiro escudo de inclusão, uma vez que o seu jeito facilitou o seu próprio convívio com os outros garotos da escola que dirige. “Quando pensávamos que haveríamos de ter muito trabalho de ir moralizando o Rair, por vias de alguns métodos que não lhe denunciassem a intenção, é claro, ele próprio surpreendeunos indo ao encontro dos outros, tornando o nosso programa de inclusão mais facilitado”, disse o director do colégio, que confessou ter-se servido do dinamismo do referido aluno, para trabalhar com outros dois rapazes com necessidades semelhantes. Afinal, além de Joaquim Cachimbombo, a escola lida com a situação de outros dois miúdos, sendo uma rapariga com as pernas exageradamente encurvadas e o segundo com uma abertura considerável entre o lábio superior e o nariz.

Veloso Kitamba assegurou que houve um trabalho aturado para instruir os professores, principalmente os que leccionam na sala dos alunos em causa, já que dois são colegas, para não exagerarem no cuidado ou no sentido protecionista. “Porque a protecção em demasia, pode acabar por resultar em discriminação involuntária”, considerou o director.

Adiantou que como directorgeral, é o primeiro a considerar os três miúdos como filhos. Segundo ele, houve uma tendência de um deles se isolar das brincadeiras do recreio, mas a atenção do colectivo docente do Colégio Kitamba acabou por superar esta atitude inicial do alunio. Por sua vez, a “Secretária”, como é chamada pelos alunos, relatou que, quando, no ano passado, o pai apareceu na escola com o menino, com o objectivo de fazer a inscrição do mesmo, embora o progenitor tenha demonstrado dúvidas que o levaram a questionar “se a gente havia de aceitar, surpreendeuse com a manifestação de carinho que, na ocasião dedicamos ao Rair”. “Recebemo-lo de braços abertos no nosso colégio e considerámos como um desafio para a elaboração de um plano de inclusão, tendo também havido uma conversa prévia com a professora Alzira para dedicar uma atenção específica que não desse a entender aos outros rapazes”, explicou. Ela classificou o menino como bastante empenhado nas actividades escolares, tendo ressaltado os indicativos de caligrafia que o mesmo apresenta. “Sinceramente, nós nos admiramos, nem parece ser o miúdo que escreve apenas com o dedo polegar apoiado ao que resta da mão esquerda”, atirou. Apesar da distância de casa, ele mesmo conseguiu reunir outros colegas que vivem na zona onde reside, mais concretamente nas imediações das únicas instalações comerciais da Empresa Nacional de Distribuição de Energia (ENDE), defronte ao banco BIC, e criaram um grupo de alunos que chegam muito cedo à escola.

Pais espera apoios

Sobre a assiduidade de Rair, o pai, Constantino Cachimbombo, consentiu que o filho desperta muito cedo, porque invoca a tarefa de ir pegando os outros para não se atrasarem, uma responsabilidade que, inicialmente, o progenitor pretendia desencorajar. “Mas pensei logo no aspecto motivador que ele mesmo criou para não faltar às sessões de aula e optei por não impedi-lo de continuar com tal acção”, confessou Constantino Cachimbombo, tendo acautelado apenas a hora que o pequeno devia deitar-se, para compensar o exercício diário de levantarse cedo.

O pai, de 26 anos de idade, narrou que, mesmo quando se encontra a contorcer-se de dor, o filho não quer ficar sem ir à escola. Por causa disso, Constantino Cachimbombo teve de se predispor a criar um sector de explicação dirigida ao pequeno e aos seus amigos mais próximos, de maneira a evitar que Rair veja a oportunidade de aprender totalmente perdida quando as circunstâncias o limitam de ir à escola. Embora esteja separado da esposa, juntam-se sempre que o assunto é pedir apoio para a manutenção da saúde física e mental do pequeno, conforme o fizeram ontem, no Ramiros, durante a entrevista que concederam ao Jornal OPAÍS.

Separação contrária

Contrariamente ao que acontece com a maioria das situações em que marido e mulher se separam, na relação que envolveu Constantino e Maria NGueve Albano foi esta que se retirou do Ramiros para outro bairro, deixando as crianças com o pai, alegadamente, porque ainda não criou condições para albergar os filhos. “Eu até tentei viver com o mais novo, de quatro anos de idade, mas, como estou na casa da tia, onde vivo, achei que ia constituir mais responsabilidade, preferi entregar as crianças à guarda do pai a ver eles passarem todo dia sem mim, porque eu trabalho em prestação de serviço de vendas em roulottes, que ainda não dá muito para o sustento”, declarou Maria NGueve, mostrando-se sentida pelo peso que delegou ao ex-marido e os seus familiares.

Superstição à mistura

Tanto Constantino Cachimbombo quanto Maria NGueve já tentaram encontrar a causa da “queda” dos dedos das mãos de Rairzinho, como também é tratado por familiares, amigos e conhecidos, na feitiçaria. O primeiro descreveu que, em 2012, logo depois do menino ter completado seis meses, um parente próximo da então esposa deixou para ela uma galinha preta, tendo-lhe recomendado para tratá-la bem, até decidirem consumi-la. “Só que um dia a galinha se perde, e ela, ao tentar procurar e reavê-la, encontra outra e, sem se dar ao esforço de identificação exacta, trouxe a galinha preta para casa, mas depois de alguns rapazes a terem apanhado distraída e terem cortado com tesoura de poda de plantas”, contou o entrevistado, realçando que a ave chegou a morrer, antes mesmo de ela chegar à sua casa. Cachimbombo ainda tentou alojar os dois pintos que vieram na aquisição, resultante da busca empreendida por Maria NGueve. Dias depois, uma senhora veio reclamar pela galinha, mas o casal e os filhos já a tinham comido, tendo concedido a verdadeira dona apenas os pintinhos.

“Um mês depois, o miúdo começou a adoecer, até que internou por um tempo considerável e foi perdendo mesmo os dedos, a pouco e pouco”, detalhou Constantino, informando que, antes disso, as mãos do filho escureceram totalmente. Vendo que o curso da história que o ex-esposo acabava de contar apontava-a como culpada, Maria NGueve contra-atacou, expondo outra narrativa. “Quando nasceu o primeiro filho, demos o nome do pai do Constantino, mas uma irmã dele veio me cobrar satisfação de forma compulsiva, questionando porquê o fizemos sem o seu consentimento, ao ponto de exigir que retirássemos a denominação de um avó que abandonou os próprios filhos, quando ainda eram pequenos”, pormenorizou Inha, o pseudónimo pelo qual também responde, tendo revelado que Jair é o segundo filho da relação que teve com Constantino. A progenitora revelou que o seu primogénito acabou por falecer, depois do silêncio da cunhada

 

Travada progressão da gangrena

As trocas de acusação entre familiares de ambas as partes tiveram fim quando os médicos do Hospital Josina Machel, onde Maria Ngueve Albano obedeceu à recomendação de se internar com o menino, detectaram tratar- se de uma gangrena, que obrigou o corpo médico que assistiu o pequeno a administrar injecções de medicamentos capazes de impedir a progressão da doença e a consequente perda paulatina dos membros superiores e inferiores. Os médicos consideram a gangrena como a morte e putrefação de tecidos do corpo, por causa da falta de circulação sanguínea local. Se não é tratada a tempo, acarreta consequências graves

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