A vida dura dos vizinhos da Centralidade do Kilamba

Por causa da invasão de terrenos, o acesso ao bairro Cinco Fios ficou difícil. No interior do bairro há mais cubatas de chapas enumeradas do que construções definitivas, porque em 2014 as casas de cimento foram demolidas. Tudo o que querem os moradores é básico

Os moradores da zona dos Cinco Fios, bairro adjacente à Centralidade do Kilamba, vivem em situação precária. Grande parte da população é idosa, porque a zona era um espaço reservado para actividades agrícolas, sendo que os primeiros camponeses chegaram em 1973. Passado algum tempo, muitos deles construíram as suas moradias, outros cederam os espaços aos filhos e netos, mas, devido às condições actuais do bairro, muitos abandonaram o local. João Ladislau perdeu o filho na altura das demolições e até ao momento não houve uma responsabilização. Não tendo onde ir, continua a viver no mesmo sítio, apesar da falta de energia e de outros serviços sociais.

Actualmente, a população vive em cubatas de chapas, porque as casas que construíram foram destruídas sem explicação alguma. Por agora, a população sobrevive na zona sem condições básicas. Por isso, clamam que lhes seja colocada energia eléctrica e um chafariz, no sentido de evitar a travessia constante para o KK5000 em busca de água. Domingos Damião Manuel, 73 anos, também viu a sua casa a ser demolida em 2014, e posteriormente ergueu uma cubata de chapa onde vive até ao momento, sem condições mínimas de habitabilidade. “Estamos a perder a esperança de termos dias melhores, porque ainda vimos máquinas a trabalhar muito próximo das nossas casas. Não temos água, luz, nem escola”, disse.

Desde então, os moradores bateram a várias portas com o propósito de “responsabilizar os autores”, mas até ao momento não tiveram êxitos. Os moradores do bairro Cinco Fios, depois das demolições, receberam também várias visitas de dirigentes, uns a acalmá-los e outros a mostrarem interesse em resolver a sua situação, mas nada mudou. Chegaram a registar um processo de enumeração das casas, sem explicação, que não deu em nada, senão aguçar a revolta dos moradores que tiveram de expulsar os agentes da Administração. “Quando a comunidade questionava, não sabiam como responder e limitavam-se a dizer que estavam a cumprir ordens. Por causa desta situação, muitas mamãs saíram do bairro e estão a viver em casas das suas filhas.

Outras até perderam a vida por desespero”, disse. Outro morador que também almeja ver a situação dos residentes ultrapassada é Diniz Augusto, de 64 anos, camponês. Lembra que foi parar ao bairro em 1979, por indicação do primeiro Presidente da República de Angola, Agostinho Neto, que, ao ver o povo a passar fome em Luanda, até porque havia apenas duas lojas que forneciam alimentação à população, que eram o Jumbo e a Cimex, orientou a população a dirigir-se ao campo para cultivar a terra e garantir o próprio sustento. Quando chegou ao local encontrou algumas senhoras que já praticavam a actividade agrícola desde 1973.

“As mães saíam do bairro do Golf com os bidons de 20 litros de água nas costas até ao Cinco Fios a pé, não havia táxi, na altura. É triste que agora somos tratados assim”, lamenta aquele cidadão, que apenas quer um lugar para viver. O bairro Cinco Fios tem sido constantemente palco de demolições por ser uma Reserva Fundiária, mas, ainda assim, muitos moradores, que dizem ser “sem abrigo” e por terem ocupado há bastante tempo o espaço, têm construído casas no local. Sem uma solução alternativa, os cidadãos insistem em permanecer no Cinco Fios.

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