Suzana Mendes: “A luta pela igualdade de género continua a ser uma constante”

Em entrevista a OPAÍS, em alusão ao Dia da Mulher Africana, que hoje se assinala, Suzana Mendes, directora para gestão de projectos e porta-voz do Fórum de Mulheres Jornalistas para a Igualdade de Género (FMJIG ), fala sobre os avanços e retrocessos no processo de emancipação feminina. Para ela, a luta pela igualdade de género continua a ser uma constante, tendo em atenção os factores de desigualdade com que as mulheres africanas ainda se debatem

Qual é a reflexão que faz sobre o dia 31 de Julho em termos da emancipação da mulher africana?

É mais um dia de reflexão em que temos de pensar sobre aquilo que é a posição da mulher africana no contexto das sociedades em que estão inseridas. É ainda um contexto marcado por desafios, em que a luta pela igualdade de género continua a ser uma constante porque não há uma igualdade de género plena para as mulheres, sobretudo africanas. As mulheres no continente enfrentam outros desafios também, que se prendem com os costumes, muitas das vezes em estado de choque com aquilo que são os princípios da igualdade de oportunidades, onde temos práticas que são discriminatórias e constituem crime contra a mulher.

Quais são os principais desafios que as mulheres africanas enfrentam, sobretudo no âmbito da igualdade de direitos?

A própria violação dos seus direitos, como a mutilação genital e a questão das raparigas que são obrigadas a casamentos forçados ainda adolescentes. Por outro lado, o facto de muitas mulheres no meio rural estarem impedidas de ir à escola. É que, muitas vezes, as famílias preferem deixar que os rapazes vão à escola e as raparigas cuidam dos trabalhos domésticos. Ser mulher no actual contexto mundial e exercer os seus plenos direitos já é difícil, mas no continente africano é duplamente difícil.

Considera que hoje a mulher africana, em particular a angolana, tem maior conhecimento dos seus direitos?

A mulher africana hoje, fruto daquilo que tem sido a dinâmica mundial, a julgar pela disponibilidade de uma maior informação, tem mais consciência dos seus direitos. A nível de Angola, hoje temos uma Constituição que consagra a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres. Ratificou- se uma série de instrumentos legais que consagram a igualdade do género e proíbem a discriminação com base no género como a convenção para a eliminação de todas as formas de discriminação sobre a mulher. Temos ainda uma lei contra a violência doméstica, tendo em atenção que a maior parte das vítimas são as mulheres.

A criação de todos esses instrumentos legais, satisfaz?

Temos um quadro legal que é favorável para que a mulher angolana possa se afirmar e evoluir. Entretanto, em termos de política de Estado nota-se que o Governo tem a questão da igualdade de género como uma prioridade. Podemos discutir aquilo que é a implementação, porque uma coisa é termos toda a questão legal num quadro favorável, a outra é a implementação. E neste quadro ainda temos muitos desafios. Precisamos de lutar para que aquilo que está plasmado na lei e os compromissos internacionais que Angola assumiu, se cumpram na efectividade.

Relativamente aos avanços no que à emancipação da mulher africana diz respeito, estamos como?

Noto particularmente uma maior liberdade por parte das mulheres de se expressar. Isto em si já é um ganho. As mulheres hoje têm coragem de se expressar, reivindicam os seus direitos e também estão reunidas em organizações femininas e tentam fazer valer os seus direitos. Por outro lado, hoje, as mulheres estão inseridas nas diversas áreas do mercado de trabalho, vão conquistando áreas que anteriormente só eram reservadas para os homens. A nível político temos um crescimento cada vez maior do envolvimento das mulheres e tudo isso são vitórias. Mas temos outros desafios, pois a nível dos governos provinciais existem poucas mulheres a exercer esse cargo. No entanto, considero isso, a nível de toda a sociedade, como ainda sendo um desafio muito grande para as mulheres.

O papel da mulher africana já é decisivo?

É uma questão difícil. Eu poderia dizer que é decisivo porque as mulheres hoje fazem valer a sua voz, mas ainda estão muito longe daquilo que é o potencial do que elas poderiam fazer. Por exemplo, em Angola as mulheres são a maioria da população mas isto não se traduz na sua participação e na força que têm nas instituições, até porque a mulher é um factor decisivo, mesmo no continente.

Hoje a questão da emancipação já é um facto?

Nós lutamos ainda pela emancipação. Não podemos falar de uma emancipação plena, apesar de algumas mulheres já estarem nesse processo. E, enquanto restar uma única mulher que não esteja emancipada e que não tenha plena consciência dos seus direitos, que não tenha acesso aos serviços sociais básicos, não podemos falar de emancipação como um todo.

Que passos que as mulheres precisam de dar para a sua efectiva afirmação?

Eu penso que os homens devem mudar a sua dinâmica de pensamento. Não passa pelas mulheres mas sim pela sociedade num todo, principalmente para aquelas pessoas que ainda têm um pensamento machista, uma perspectiva de discriminação das amulheres precisam de mudar de comportamento.

Como assim?

A mulher é um elo forte na sociedade. Eu acho que as mulheres têm sido muito corajosas nos últimos tempos. Elas esforçam-se para fazer valer a sua posição. A sociedade ainda é muito machista e impede que muitas vezes isto se verifique. Portanto, aconselho as mulheres africanas a não desistirem e continuarem a lutar pelos seus direitos e o seu lugar na sociedade, independentemente de onde estiverem, no meio rural ou urbano, que façam valer a sua voz, se impor e buscar cada vez mais a educação, que é a ferramenta que as pode ajudar a conquistar o lugar que almejam.

SOBRE A DATA

O 31 de Julho é consagrado como Dia da Mulher Africana. É uma data que é aproveitada para a reflexão do papel do género feminino de África na sociedade. A data foi instituida em 1962, em Dar-Es-Salaam, Tanzânia, por 14 países e oito movimentos de libertação nacional na Conferência das Mulheres Africanas.

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