Yuri Quixina: “Se estão a gastar muito com os ministérios reduzam, fiquem com 12”

O professor de Macroeconomia Yuri Quixina sugere ao Governo a focar-se nas questões prioritárias, em tempo de crise, reagindo ao anúncio da construção do bairro dos ministérios. A nomeação de novos auxiliares do PR e a subida dos preços dos transportes públicos são, entre outros, os temas analisados no espaço Economia Real da Rádio Mais (99.1), emitido às Terças-feiras, às 11 horas

A fome continua a assolar a população do Cunene, mas há outros focos em várias partes do país. Como contornar esse quadro?

A seca do Cunene está a destapar os vários problemas que temos. Há zonas em que, na ausência da seca, também passam fome. E o Cunene está a ser um indicador interessante para destapar isso. As rádios, a comunicação social, de modo geral, falam sobre o assunto e estão a fazer um grande trabalho. Há povos a sofrer muito e o que mais me preocupa é que reagimos tarde para mitigar os problemas. Devemos repensar e evitar projectos megalómanos, infra-estruturas que não reduzem os custos de produção, para ajudar esse povo.

Quando a solução dos problemas sócio-económicos das famílias passa por via de doações o que pressupõe?

Um falhanço enorme das políticas públicas, porque quando o Estado faz tudo, depois não tem poupança para fazer face a essas situações. Se o Estado se focasse apenas nas questões sociais teria condições para resolver esses problemas. O Estado está na economia, nas infra- estruturaras, quer fazer tudo e abandona as suas funções. Com isso, quem passa mal é o povo.

E para imprimir melhor desempenho do Executivo, o Presidente da República exonerou e nomeou novos auxiliares. Qual é a sua expectativa?

Há pessoas que julgam ter havido ‘dança das cadeiras’. Penso que foi mais do que isso. A ‘dança das cadeiras’ pressupõe redução de cadeiras até que se encontre o vencedor. Mas neste caso aumentam-se cadeiras. Aumentamos recentemente um ministro de Estado, por exemplo, e isso aumenta despesas. Nessas nomeações não houve nenhuma novidade, porque todos vêm do sector público. Há alguma relevância em relação ao ministro da Agricultura. António Assis conhece a Agricultura e está muito ligado à terra. Talvez a novidade seja a de Samahina de Sousa da Silva Saúde, para secretário de Estado para o Planeamento. Não me lembro de o ter visto num cargo público

João Lourenço tem novo secretário para os Assuntos Económicos…

O que me preocupa muito. Em menos de quatro anos já vamos no quarto assessor económico do Presidente da República. Isso é muito grave, não vejam isso como coisa mínima. O adviser (conselheiro) noutros países é aquele que ajudou a criar o plano económico nas eleições para implementar. Mário Centeno foi adviser, Milton Friedman foi adviser de Ronald Reagan. É a primeira vez que assisto numa economia que se quer modernizar, a substituição do conselheiro económico do Presidente da República em menos de quatro anos.

Qual é a consequência?

Isso pode influenciar os processos económicos, porque é a voz máxima dos dados que o Presidente da República apresenta e os agentes económicos levam em consideração. O outro elemento é a remodelação constante. Isso faz com que a máquina não funcione. A primeira consequência é a redução de confiança dos agentes económicos, o povo fica desconfiado, transmite insegurança aos ministros, porque a qualquer altura podem sair. E mais: reduz a credibilidade. Num país em crise não é aconselhável mexer constantemente na equipa.

Que desafios tem o secretário do Presidente para os Assuntos Económicos?

Quando tens um ministro de Estado para a coordenação económica, o secretário serve para transmitir informações ao Presidente da República. Se não houvesse um ministro de Estado para a coordenação económica, defendo que essa função ficasse com o ministro das Finanças ou com o secretário do Presidente.

Foi ainda notícia a apresentação do primeiro Bairro dos Ministérios, que visa reduzir os custos com o arrendamentos e acomodar melhor os servidores públicos. Com que sensação ficou quando ouviu?

Fiquei com a sensação de que é um novo Kilamba para o Estado. Esse é um modelo que se faz habitualmente em países crescidos. Mas numa economia em depressão, com baixa expectativa, levanta vários questionamentos. O argumento é de que o Estado gasta muito dinheiro com arrendamento. Mas para avaliar a viabilidade temos de saber se a taxa de juro for superior às mensalidades com o arrendamento, é desvantajoso. A outra questão que se coloca é da prioridade. Em tempo de crise vale a pena investir nessas infraestruturas ou numa despesa que tem efeito multiplicador? Pretendemos dar dignidade aos ministros ou ao povo que não tem o que comer, hospital, água e luz? A única forma de reduzir a gordura é reduzir os ministérios. Isso pode ser um elemento fundamental. Há 35 ministérios e estás a gastar muito com isso, reduz os ministérios e fica com doze. O governo tem que entender o que é necessário para sair da crise sem petróleo, o governo parece que está a desfocar-se. Está num problema enorme da economia da sociedade e está a fazer construção que só tem ganhos políticos. Isso não terá efeito prático na vida das pessoas que não têm mesmo nada. Você tem seca, gente a morrer de fome, então foque-se nisso! Será que é urgente e necessário construir infras-estruturas para ministérios?

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