Akongo, uma legítima e pertinente reivindicação

 

Por;Ricardo Vita

Como Aimé Césaire, também acho que há duas maneiras de se perder: por segregação presa no particular ou por diluição no universal, o dos outros e batoteiro sobretudo. Como ele ainda, a minha concepção do universal é a de um rico universal de todo o particular, rico de todos os particulares, aprofundamento e coexistência de todos os particulares. O Colono destruiu muito do nosso particular, a nossa essência. Então devemos ter paciência para retomar a obra, a força para refazer o que foi desfeito; a força para inventar em vez de seguir; a força para inventar o nosso caminho e livrálo de formas prontas, formas petrificadas que o obstruem. Nenhum país do mundo foi construído por estrangeiros para os fi lhos da terra. E quando o fazem, fazem-no para eles. Foi assim que nasceram em Angola os poucos hospitais básicos e algumas vias que chamaram estradas. Foi assim também que tivemos Salvador Correia, a escola que foi construída para os fi lhos do Co- lono primeiro e, depois, para aqueles que ele pensava fazer seus asseclas ou partidários. Sim, é essa escola mesmo que alguns querem ver classifi cada como Patrimônio Mundial – por saudade? -, a instituição que simbolizou a exclusão colonial, um Patrimônio Mundial da Humanidade, para enriquecer Angola de história digna ! Pelo menos temos a certeza de que o ridículo não mata em Angola! Voltando ao assunto, o estrangeiro não constrói terra de ninguém, constrói para ele próprio e unicamente para ele. E foi precisamente isso que levou Salazar a criar em Lisboa a Casa dos Estudantes do Império em 1944; para ‘fortalecer a mentalidade imperial entre os estudantes das colónias’. Alguns dos nossos dirigentes e animadores da cena cultural por lá passaram. Isso diz-nos simplesmente que o estrangeiro que ocupou o nosso país durante séculos também o moldou para se perpetuar. Chamou as nossas terras com os seus nomes, incluindo aqueles que usava para zombar de nós. Também as baptizou com água benta enquanto gravava os seus nomes em nós como em um mármore. E acabamos assim, perdidos. Até hoje. Por isso continuamos a achar os nomes coloniais mais bonitos do que os nossos próprios nomes. Um dia uma das minhas irmãs chamou-me em Paris, a partir de Luanda, para me dizer que o menino que a sua fi lha acabava de ter seria meu xará. E acrescentou imediatamente que me cabia a mim, seu xará, segundo a tradição da parte de Angola de onde eu venho, o direito de escolher o nome que o menino usaria em casa. Como sou um negro emancipado e sem complexos, apressei-me então a propor um lindo nome em Kikongo, « Mwinda », mas senti a relutância no silêncio da minha irmã quando me ouviu a pronunciar esse nome, mesmo se concordou depois, por uma questão de forma, com certa reticência. Passado algum tempo, ainda por telefone, ouvi alguém chamar alguém de « Lumière ». Então perguntei quem era esse ou essa Lumière que aí chamavam. Responderam-me com orgu- lho palpável que se tratava do meu xará, « traduzimos o nome para o Francês, é mais bonito », foi-me dito isso com deleite. « E », acrescentou ainda a voz que me falava, « também às vezes o chamamos de Luz !». O que poderia eu responder a isso? Nada. Absolutamente nada. Esta é a nossa realidade, devemos negá-la? Pelo contrário, devemos assumi-la para melhor superá- la. Mas ainda acho « Mwinda » mil vezes mais bonito como nome, bem que tivessem preferido dizer aproximadamente a mesma coisa em Francês e em Português, era mais chique para eles, aparentemente, porque não soava colonizado. Foi isso que me incomodou, ver, mais uma vez, os nossos imaginários manipulados! Na minha família também há complexados, alguns deveras. Esta é a razão que me leva a apoiar plenamente a iniciativa do núcleo das Autoridades Tradicionais da Corte Real do Kongo, que foi pedir ao Presidente da República, pela voz do seu chefe máximo, o Mbunta-a-Muntu Afonso Mendes, para dar à sua terra um nome que tenha sonoridades e um signifi cado do vernáculo. Isso foi no dia 23 de Julho passado. Outras terras de Angola deveriam seguir este exemplo. Já tive a ocasião de escrever e repito agora que as regras de uma língua são ditadas por aquilo que ela transmite. A língua é um instrumento político. Ela revela o falante e defi ne o interlocutor. Descreve circunstâncias e realidades, exprimido- as com a intenção de controlá- las. A língua é uma identidade. A língua é um poder. Mas o usufruto que temos do Português ainda serve propósitos coloniais. Sabemos que o Colono cultivou o auto- ódio em nós. Houve tempos em Angola, depois da Independência, onde falar certas línguas da terra em certos meios podia ser perigoso; elas revelavam a identidade do falante, a sua tribo, os seus avoengos. Carreiras e reputações foram destruídas por causa disso. Era a obra do Colono que continuávamos assim. As nossas línguas eram banidas nas escolas e pouco a pouco fomos perdendo o sustento da nossa identidade, através do qual podíamos exprimir a nossa experiência humana, o nosso particular. Foram-se saberes. Evaporam-se filosofias. Sufocaram- se poesias. Perdeu-se assim muitos fi lhos da terra, por complexos e psicoses. Saudemos aqui o grupo que foi liderado pelo Mais- Velho Casimiro, que, em Mbanzaa- Kongo, enfrentou perigosas noites coloniais para ir reunir-se clandestinamente a fi m de pensar em como derrotar o colonialismo. Foi esse grupo que também lutou para restaurar o nome autêntico dessa cidade – cuja boa ortografia, Mbanza-a-Kongo, tenho a certeza de que não serei o único a reconhecer num futuro próximo – no lugar de São Salvador. Isso foi feito na independência, em 1975. Muitos dos seus membros, heróis anónimos e nativos daquela terra, seguiram o MPLA apesar das ameaças da FNLA e do perigo que a afronta representava para eles. Dirigiram as Comissões Populares de Bairro (CPBs), receberam Agostinho Neto lá em 1977 e integraram o governo provincial. É, portanto, o mesmo espírito de autenticidade que os representantes da Corte Real do Kongo foram recordar ao presidente João Lourenço. Porque Angola é uma obra em constante andamento e ela será o que nós, Angolanos, faremos dela. Lá chegaremos. Resgataremos a alma da nossa Angola e construiremos uma pátria mais perfeita. Para isso, precisamos despertar a sua consciência.

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