O outro

O que a vida tem de melhor, de facto, é o outro. É-nos impossível imaginar a existência sem o outro. Não falo da solidão, falo da impossível existência sem o outro. Vivemos sempre um pouco para os outros, para não dizer em absoluto. Existimos por eles e para eles, através deles. Vamos esmiuçar e simplifi car, trivializar até, o nosso comportamento social é variável em função dos outros, muita acção pueril de gente adulta é feita em função do outro, da sua resposta visível, ou do sentimento que se imagina lhe trespassará a alma. Assim como as acções grandiosas. O outro é o centro de nós – “nosotros”, dizem os espanhóis – , do que fazemos, do que pensamos, do que sonhamos. Amamos o outro, queremos que ele também nos ame. Competimos com o outro, ajudamo-lo a se realizar e por ele nos realizamos naquilo que realizamos. Mas, ao mesmo tempo, disseminam- se ideias supostamente vencedoras, apelando a que vivamos por nós, para nós e sem nos importarmos com os outros. Puro engano, porque até aí, nesse fi gurino, estamos a agir para os outros. O logro de se acreditar ser possível viver sem o outro leva muita gente a procurar destruí-lo, talvez em busca de uma compensação espiritual qualquer, odeia-se o outro e o que ele representa, sobrevaloriza- se o ego, mas em função sempre do outro. Sem se ter a noção de que o único caminho para a felicidade inclui sempre um outro qualquer, homem, alter ego, ou aquele que consideramos Deus. Porque ninguém se basta. Porque Deus também está sempre no outro. A paz com o outro é a única forma de construir e elevar um eu feliz. E, em boa verdade, sentimo- nos verdadeiramente felizes, mais que sempre, quando descobrimos a felicidade nos olhos do outro.

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