“Na sociedade angolana, o branco representa um modelo e um demónio ameaçador’

No âmbito da pesquisa sobre a Literatura Colonial, Alberto Oliveira Pinto é um dos escritores bem ouvidos, num leque de críticos literários, ensaístas e escritores angolanos, e não só, que frequentemente participam nas “tertúlias” nas quais a cultura, em geral, e a literatura, em particular, têm sido motivos de discussão.

João Ngola Trindade*

O ‹‹Vamos Descobrir Angola» é um slogan que, a meu ver, reflecte o propósito do pan-africanismo e da negritude: a sobrevalorização da cultura dos povos colonizados em detrimento da cultura europeia, colonial.

Sem dúvida. Mas estou em crer que Viriato da Cruz estava bem informado do facto de esse ano de 1948 ser um ano muito agressivo no que diz respeito à literatura colonial. E também à historiografia colonial. É o ano em que é publicada a primeira edição da História de Angola de Ralph Delgado. Viriato da Cruz preconiza criar uma outra literatura e uma outra visão sobre Angola e a sua história, por parte de quem verdadeiramente se sente angolano. Ou seja, a tal literatura e a tal história, como diz, dos povos colonizados, em detrimento de uma visão europeia.

Tenha-se em conta que na época eram lidos livros importados, da autoria de Senghor, Cesaire.

A literatura marxista era lida clandestinamente. Voltando a falar sobre a cultura colonial como substracto da literatura colonial, penso que ela é resultado da visão sobre o Outro construída ao longo de séculos. Desde a Antiguidade, conforme o Prof. refere ao mencionar os Gregos, e não só, houve sempre esta tendência de inferiorizar o Outro.

Sem dúvida.Mas a Literatura Colonial, no caso português, foi muito teorizada durante a Primeira República (1911- 1926). Tardiamente, diga-se de passagem, se compararmos com os casos inglês e francês.

Toda a produção intelectual, inclusive a teológica, foi minada pelos preconceitos criados ao longo do tempo. E muitos destes preconceitos, dos quais a inferioridade intelectual do Africano, supostamente descendente de Caím, ainda prevalecem no imaginário de muitos. Agora é que você disse uma grande verdade, caro amigo (não quer dizer que antes não tenha dito também grandes verdades). Isso de os preconceitos estarem ainda em todos nós foi o que pretendi mostrar em “A Criança Branca de Fanon”. Já não me recordo se lhe deixei esse livro… Deixou-o comigo.

Ok. Leia quando puder. Penso que o impacto que esse livro teve deve-se justamente a isso, ao facto de os preconceitos coloniais estarem connosco e haver sempre um silenciamento em torno deles. Mas acredito que o seu trabalho seja importante num caminho de conhecimento para que [os preconceitos] sejam quebrados aos poucos.

O “enselvajamento” me parece ser um conceito criado pelo Professor a partir das considerações de Alfredo Margarido sobre a “produção de selvagens”.

De Alfredo Margarido e não só. Embora nos meus estudos, de facto, cite muito Alfredo Margarido, de quem fui aluno com muito orgulho.

Lendo Angola e as Retóricas Coloniais, Representações Literárias Coloniais de Angola, dos Angolanos e das Suas Culturas e, provavelmente, A Criança Branca de Fanon, chega-se à conclusão de que a História das Relações Interculturais é também a História das Relações com o Outro.

A História das Relações Interculturais é necessariamente a História das Relações com o Outro, e isto em todos os tempos. A esse propósito, convém não confundir racismo com etnocentrismo, que é um sentimento universal e plenamente humano. A nossa casa é sempre mais bonita do que a do vizinho, não é? Isso é etnocentrismo. Já o racismo, embora nasça a partir do etnocentrismo, tem a ver com uma classificação do outro em termos somáticos e no sentido de o reduzir face ao mesmo.

Quer queiramos, quer não, o racismo foi inventado pelos Europeus – inicialmente pelos Portugueses e pelos Espanhóis – e prende-se directamente com o tráfico de escravos africanos em doses industriais para o continente americano. Evidentemente que a escravatura é uma instituição muito mais antiga.

Mas o critério dos greco-romanos para legitimar que certos povos deviam ser escravizados – os chamados “povos bárbaros” – não era o da cor da pele nem o das características somáticas. Na Odisseia de Homero, por exemplo, é bem evidente que o bárbaro é aquele que não sabe fermentar a uva e fazer vinho e só bebe leite. É indiferente se é branco ou negro.

Aliás, há um ensaio muito interessante da historiadora francesa Catherine Coquery-Vidrovitch – “Le postulat de la supériorité blanche et de l’infériorité noire”, in Marc Ferro (Dir. de), Le Livre Noir du Colonialisme, XVIe-XXIe siècle: de l’extermination à la repentance, pp. 863-925 – sobre o tema.

O primeiro documento escrito conhecido que estabelece uma hierarquia de tipos humanos a respeito de escravizados em função dos seus caracteres somáticos – além da religião e da língua – é da autoria de um português, o cronista Gomes Eanes de Zurara, em 1453. O racismo deve ser sempre visto como uma invenção europeia, mesmo quando se manifesta por parte de negros em relação a brancos, porquanto reflecte sempre a apropriação das representações criadas pelos colonizadores.

Portanto, o racismo ou os comportamentos racistas são sempre, inquestionavelmente, heranças coloniais. E é impossível combatê-lo(s) em Angola sem passar necessariamente pela revisitação do colonialismo português, nomeadamente pela literatura colonial.

Só assim se torna viável atingir, quer a “desalienação” de que falava Frantz Fanon, quer – na acepção de pensadores mais recentes, como Jacques Nanema – a “descolonização interior”, na expectativa de libertar as gerações vindouras de uma labiríntica cultura colonial epidermicamente impregnada na sociedade angolana ou, como também já foi assaz teorizado, de um inextricável “(neo)colonialismo interno”. (…)

O subdirector de um banco angolano contou-me uma história verídica que acho interessante. Enquanto estava na África do Sul a frequentar uma curso, conheceu uma uma espanhola que o desejava. Dizia aos formadores que ele era seu sexy boy, contudo, os formadores diziam a ela que o senhor já era casado. Manifestava interesse em recebê- lo nos seus aposentos e ele rejeitava. E questionava-lhe: “eu sou branca. Isto não te diz nada?” Em muitos casos, o fascínio pela cor da pele funciona como feitiço que faz com a pessoa seja incapaz de resistir. Não me parece ter sido o caso deste cinquentão que, além de bancário, é Pastor evangélico.

Registo esse caso que relatou e dá-me vontade de lhe contar outro aparentemente muito diferente mas que, a meu ver, é exemplificativo do racismo em Portugal presentemente. Não sei se viu, há uns três anos, um programa da SIC chamado “E se fosse consigo?”. O programa consistia em 3 partes: 1) Numa esplanada de Lisboa, três actores simulavam uma cena patética: um homem de uns 50 anos de idade, da minha geração, portanto, repreendia a filha de 20 anos por ela aparecer ali acompanhada de um namorado negro; 2) Inquérito às pessoas que passavam na rua e que assistiam à cena, julgando-a real; 3) Debate em estúdio com 3 convidados: um sociólogo (cujo nome não me recordo), um músico negro angolano residente em Portugal (cujo nome também não me recordo) e a escritora Dulce Maria Cardoso, natural de Angola, para aonde não quer voltar e não se assume como angolana.

Vou começar por comentar as intervenções de estúdio e depois passarei às entrevistas da rua. O sociólogo não disse nada que eu considerasse relevante. O músico angolano disse que José Eduardo dos Santos – ao tempo ainda Presidente de Angola – era um branco pelo facto de ser Presidente e de ter poder económico. Dulce Maria Cardoso ficou muito chocada com um pequeno filme que passou e onde se viam crianças negras a preferirem bonecas brancas em vez de negras.

Tal não me espantou, pois já tinha assistido a cenas idênticas por parte de filhos de amigos meus, em Angola. Além disso, li Frantz Fanon, e duvido que Dulce Maria Cardoso tenha lido. Quanto aos entrevistados na rua, na maioria eram pessoas com mais de 70 anos de idade e lamentaram (a meu ver com hipocrisia) a cena feita por aquele pai perante o namorado negro da filha. O argumento dessas pessoas era caricato: achavam que uma cena nia angolana, furtavam- se às suas respons abi l idade s conjugais. Ou seja, o casamento era uma via de obtenção (rápida) da cidadania angolana e com ela asseguravam- se os interesses económicos do até então estrangeiro.

Não tenho nada a acrescentar a não ser que concordo plenamente consigo. E que o que acabou de descrever é mais um exemplo de cultura colonial, no caso, num entrosamento entre ambas as sociedades contemporâneas, a portuguesa e a angolana, nas quais a cultura colonial se encontra impregnada. JNT: Tendo em A Criança Branca de Fanon analisado o processo de formatação da mente, tanto do ex-colonizador como da do ex-colonizado, peço-lhe que se faça alguns comentários a respeito da narrativa, cujo personagem, um negro, afirma com convicção o seguinte:

“Eu sou como o branco”. AOP: Não sei se aqui há grandes comentários a fazer para além de citar Frantz Fanon de ponta a ponta. Mas vou tentar enriquecer o nosso diálogo com réplicas – se me permite a expressão – “do lado de cá”, isto é, “do branco”. Penso que essa personagem negra, ao dizer “Eu sou como o branco”, está a dizer qualquer coisa como que é muito trabalhador, diligente, etc.

Porque, sempre ouvi brancos, muitos deles meus familiares, dizerem “Eu sou como o preto”, normalmente era em momentos que lhes apetecia preguiçar ou não fazer nada. Portanto, os paradigmas de “branco” e “negro” estão associados, entre outras dicotomias, à capacidade de trabalho. Penso que é uma reminiscência da teorização do trabalho forçado. António Ennes ficou famoso por ter teorizado daquelas seria admissível há 20 anos, mas não hoje (lá vem o fatal darwinismo ilusório!).

No entanto, houve um homem entrevistado na rua cujas palavras, lamentavelmente, ninguém em estúdio comentou. Tratava- se de um homem da minha idade e da idade do pretenso pai da filha que namorava com o jovem negro. Esse homem disse claramente, diante da câmara, que não lhe espantava a atitude daquele pai e que, se a filha dele tivesse um namorado negro, a reacção dele seria a mesma. Teve, contudo, a preocupação de acrescentar duas coisas interessantíssimas, a meu ver, e que me fizeram dar uma gargalhada.

A primeira é que repreenderia a filha em privado, em casa, e não em público, numa esplanada, como o outro. A segunda, foi um remate magistral que vou transcrever literalmente: “E notem que eu não sou nada racista, pois até vou muitas vezes a Angola em trabalho e tenho lá muitos amigos negros!” (Sic.). Tenho pena que ninguém tenha comentado as afirmações deste homem, pois ele é que me pareceu ser o verdadeiro retrato da sociedade portuguesa contemporânea no que diz respeito às questões raciais. E repare, João Ngola Trindade, estou a falar de pessoas da minha geração, da minha idade.

A colonização sexual de que fala no seu livro remete para a contemporaneidade onde se registaram casos de casamentos entre angolanas e estrangeiros (particularizo aqui os Portugueses) que, tendo adquirido automaticamente a cidadania angolana  furtavam- se às suas responsabilidades conjugais. Ou seja, o casamento era uma via de obtenção (rápida) da cidadania angolana e com ela asseguravam- se os interesses económicos do até então estrangeiro.

Não tenho nada a acrescentar a não ser que concordo plenamente consigo. E que o que acabou de descrever é mais um exemplo de cultura colonial, no caso, num entrosamento entre ambas as sociedades contemporâneas, a portuguesa e a angolana, nas quais a cultura colonial se encontra impregnada. JNT: Tendo em A Criança Branca de Fanon analisado o processo de formatação da mente, tanto do ex-colonizador como da do ex-colonizado, peço-lhe que se faça alguns comentários a respeito da narrativa, cujo personagem, um negro, afirma com convicção o seguinte: “Eu sou como o branco”.

AOP: Não sei se aqui há grandes comentários a fazer para além de citar Frantz Fanon de ponta a ponta. Mas vou tentar enriquecer o nosso diálogo com réplicas – se me permite a expressão – “do lado de cá”, isto é, “do branco”. Penso que essa personagem negra, ao dizer “Eu sou como o branco”, está a dizer qualquer coisa como que é muito trabalhador, diligente, etc. Porque, sempre ouvi brancos, muitos deles meus familiares, dizerem “Eu sou como o preto”, normalmente era em momentos que lhes apetecia preguiçar ou não fazer nada. Portanto, os paradigmas de “branco” e “negro” estão associados, entre outras dicotomias, à capacidade de trabalho.

Penso que é uma reminiscência da teorização do trabalho forçado. António Ennes ficou famoso por ter teorizado que o negro, para trabalhar, tinha que ser forçado (ou transformado em indígena, uma vez que António Ennes é do tempo em que a escravatura é metamorfoseada em indigenato, por isso não se podia dizer “escravizado”). No entanto, muitos antes dele o teorizaram. Estou, neste momento, a preparar uma aula que amanhã vou dar no Curso Livre História de Angola, na UCCLA.

A aula versa sobre a viragem do século XVIII para o século XIX. No fim do século XVIII, governadores de Angola como o barão de Mossâmedes e o seu irmão foram entusiastas das primeiras tentativas de expansionismo, procurando ligar Angola à contracosta. O grande impulsionador, em Lisboa, era o Secretário de Estado dos Negócios da Marinha e Domínios Ultramarinos, D. Rodrigo de Sousa Coutinho, filho do famoso governador Inocêncio de Sousa Coutinho, o “Marquês de Pombal de Angola”.

Ora o governador que toma posse em Luanda em 1797 e governa até 1802, D. Miguel António de Melo, um professor de Coimbra, não acredita nesse empreendimento e escreve para Lisboa a Sousa Coutinho: “desengane-se, que Angola não é o Brasil” porque, acrescentava, “não há negro que queira trabalhar, por maiores lucros que lhe ofereçam, donde vem que, só sendo escravo e vigiado pelo seu senhor mui de perto, é que deixa de viver no ócio, ao qual se entrega por natureza, por influência do clima e da educação e até por princípios supersticiosos a que todos os povos desta África Ocidental são grande e geralmente afeiçoados” (Sic.). Penso que são estes estereótipos que estão ainda na cabeça de todos nós.

Noutra narrativa, uma personagem de sexo feminino associa o negro a todos os defeitos que possam existir e o branco à virtude. Tanto mais que, sendo ela empresária, atribuiu ao sócio – um branco de nacionalidade portuguesa – poderes para movimentar a parte dos lucros que lhe cabiam, aplicandoos e rentabilizando-os. Quando se apercebeu que o sócio se apropriara do seu dinheiro, ou seja, roubou-o, e já não regressava para Angola, passou a considerá- lo a personificação do mal. “Esta raça não serve para nada! Nem me fales desta gente”.

Bom, esta história, que também reflecte o que eu disse atrás, lembra- me várias que ouvi – e algumas até presenciei – entre os anos de 1990 e os dias de hoje, sobretudo entre portugueses que vão para Angola (até falei vagamente numa no meu romance Travessa do Rosário, de 2001).

De facto, vi muitos portugueses chegarem a Angola, já no pós-independência, sublinhe-se, convencidos de que “ludibriavam os pretos” e eles próprios é que eram ludibriados. Voltavam para Portugal fazendo queixas idênticas às dessas senhora. Aconteciam e acontecem ainda estes casos dos dois lados porque continua a não haver conhecimento nem estudos condignos sobre o assunto.

A esse propósito, não sei se está informado, desde meados da década passada, quando certos sectores da sociedade portuguesa acharam ilusoriamente que havia um boom angolano, publicaram-se em Portugal – ainda estão à venda em certas livrarias – manuais de como lidar com os angolanos a fazer negócios em Angola.

E muita gente, antes de partir para Angola, comprava esses manuais e levava-os para ler. Creio que isso ainda acontece. É incrível, mas é verdade! Quando inaugurei, no ano passado, este Curso Livre História de Angola na UCCLA, alguém – fora da UCCLA, sublinhe-se – me sugeriu que dedicasse uma aula a essa questão. Rejeitei liminarmente a proposta, e tenho a certeza de que todos os meus colegas docentes também a rejeitariam. Aleguei que se tratava de um curso de História de Angola e não de contemporaneidade. Mas atrevi-me ainda a dizer, cara a cara, a quem o propôs que se tratava de neo-colonialismo. E não me arrependo.

Noutra história, um grupo de bancários encontra-se num restaurante. Enquanto aguardam pelo atendimento, ouve-se no meio deste grupo uma voz: “Vou escolher bacalhau com natas. Não vou comer funje. Não tenho hábitos de pretos”.

Esta história agora lembra-me uma afirmação do falecido almirante Rosa Coutinho, que julgo ter citado numa nota de rodapé em A Criança Branca de Fanon. Em 1995, no ano em que se comemoravam os 20 anos da Independência de Angola, Rosa Coutinho foi convidado pela SIC para falar da sua experiência como “almirante vermelho” (como lhe chamavam) nos meses de transição, em 1974.

Nessa entrevista, Rosa Coutinho afirmou abertamente, diante das câmaras de televisão, que apoiou o MPLA por o considerar “o mais português de todos os movimentos de libertação angolanos” (Sic.). E ainda acrescentou que os militantes do MPLA eram os únicos angolanos que gostavam de bacalhau.

Evidentemente que dei uma gargalhada. Será que os da UNITA e os da FNLA e os de outros partidos políticos não gostam? Ou seja, esse bancário que afirmou “não tenho hábitos de pretos”, fê-lo sem a menor das intenções. Acho que não devemos condenar à fogueira certas afirmações espontâneas, e vivemos num tempo em que se proíbe por tudo e por nada em nome do politicamente correcto. Mas devemos ressaltar que o racismo é isso mesmo, é fazer essas afirmações sem nos apercebermos. Não há mal nenhum em ser racista. Todos o somos e fazemos afirmações dessas. O problema do racismo, insisto sempre, é quando dizemos que não somos racistas.

Uma jovem questionada sobre como reagiria se fosse chamada de “preta” disse o seguinte: “Não me sinto mal se eu for chamada deste jeito por alguém da minha cor. Mas, sinto-me ofendida se o branco me tratar dessa forma. Penso que ele estaria a inferiorizar-me por causa da minha cor”.

Sem dúvida que também está aí o preconceito racial. Embora pareça (mas nem tudo o que parece é) o oposto do irmão da Rainha Jinga, que se recusou a ser baptizado por um padre negro, afirmando que, a sê-lo, preferia que fosse por um branco, julgo que não há grandes diferenças entre os dois casos, pois a representação do negro como inferior ao branco está em ambos. Mas esse preconceito existe “do lado de cá”.

Em A Criança Branca de Fanon – e também na minha entrevista ao Mar de Letras, que outro dia lhe enviei – conto uma história curiosa que se passou entre mim e a minha saudosa avó alentejana, em Luanda, nos anos de 1960. Mas esse preconceito está plenamente actual entre as novas gerações de portugueses. Como sabe, sou músico amador, e canto à viola algumas canções angolanas. Não há muito tempo, cantei entre amigos, portugueses e angolanos, o “Monangambé” (poema de António Jacinto e música de Ruy Mingas), que já é um clássico angolano e que, praticamente todos os angolanos, negros ou brancos, apreciam. Pois houve amigos portugueses que me censuraram, dizendo que eu não devia cantar aquilo diante dos negros, porque os ofendia com a frase “porrada se refilares”. É incrível! Penso que o racismo está aí, nesse lado escondido, nesse… porque não dizer?, nessa hipocrisia que vem do tempo colonial.Em contrapartida, já poderia cantar a canção se só estivessem brancos presentes. Já viu?

Uma jovem negra, que está diante dos seus pais, vai olhando para as fotografias guardadas no seu álbum. Numa das fotos está um jovem, um branco.

A moça exclama: “Eu vou ficar com este branco”. Os pais respondem imediatamente: “Não tragas branco no nosso seio! Não queremos branco!” Estou menos à vontade para comentar este caso, por razões óbvias, por ser de uma família branca. Em todo o caso, parece-me que os motivos desses pais ao fazerem essa advertência à filha, são os opostos – aqui fica levantada a discussão – aos que estariam em causa caso se tratasse de uma família de brancos em que os pais dissessem para a filha: “Não tragas nenhum negro (em família, entre brancos, todos dizem ainda “preto”, não o podemos negar) para nossa casa! Não queremos pretos”. Onde é que estará a diferença? Parece-me que, na sociedade angolana, o branco representa, ao mesmo tempo, um modelo e um demónio ameaçador. E isso dá que pensar…

*Especial para OPAÍS

Quem é Alberto Oliveira Pinto?

Investigador do Centro de História da Universidade de Lisboa, o Professor Alberto Oliveira Pinto é um estudioso com o qual mantive contacto, primeiramente, por via do seu livro Cabinda e as Construções da sua História (1783-1887) no qual disserta sobre o modo como a História desta Província Angolana foi escrita pelo colonizador num período caracterizado pela partilha de África pelas potências coloniais, signatárias da Conferência de Berlim (1884-1885). Da sua vasta produção científica, destacam-se os seguintes estudos: Imaginários da História Cultural de Angola (Prémio Literário Sagrada Esperança, 2016), Representações Literárias Coloniais de Angola, dos Angolanos e das Suas Culturas (1924-1939), História de Angola. Da Pré-História ao Início do Século XXI (primeira sistematização da História de Angola), A Criança Branca de Fanon, etc.

Angola e as Retóricas Coloniais, outro estudo interessante da sua autoria, ampliou a minha visão sobre a Literatura Colonial à qual se junta a sua tese doutoral, Representações Literárias Coloniais de Angola, dos Angolanos e das Suas Culturas (1924-1939), citada anteriormente. Em função dos acontecimentos ocorridos no Bairro Jamaica, bairro lisboeta onde uma equipa da TPA efectuou uma reportagem sobre os acontecimentos noticiados na imprensa e, atendendo à tese da inexistência de racismo na sociedade portuguesa defendida pelo Director de Informação da TVI, decidi, com a permissão do Professor, partilhar parte da conversa-entrevista que mantivemos depois de revista, corrigida e enriquecida pelo Mestre e pelo pupilo.

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