Paradigma da Moderna Literatura Angolana

POR: João Ngola Trindade

A 13 de Julho de 1973 partia outra dimensão da vida o poeta Viriato da Cruz. Silenciado durante longos anos pela historiografia oficial, o autor de Só Santo, Makezu, Namoro – este último tornado clássico não apenas em Angola (exemplos disso são as versões musicais do Fausto e do Sérgio Godinho)– foi reabilitado recentemente (2018) com a outorga do Prémio Nacional de Cultura e Artes na modalidade de Literatura e com a Ordem da Independência de Primeiro Grau. Trata-se de uma personalidade literária e política de quem tive conhecimento pela primeira vez em 2003 através do livro de Edmundo Rocha, Contribuição ao Estudo da Génese do Nacionalismo Moderno Angolano (período de 1950-1964) (Testemunho e Estudo Documento Documental), que, em 2003,foi distinguido com o Prémio Nacional de Cultura e Artes na modalidade de investigação em Ciências Humanas e Sociais. Das “grandes personalidades do MPLA”, citadas pelo autor deste livro, Viriato da Cruz, que, contrariamente a Agostinho Neto, Mário de Andrade e Lúcio Lara, não frequentou estudos superiores na Europa, foi a que mais atenção e interesse despertou da minha parte. Esta admiração por Viriato permanece até hoje em razão da magnitude da sua obra e do alcance do seu pensamento expresso na sua interessante dissertação sobre O Intelectual Negro e as Suas Responsabilidades – um texto desconhecido por muitos estudantes e especialistas em Relações Internacionais, sobretudo as Relações Interafricanas. Neste texto, apresentado no Congresso dos Artistas e Escritores Negros (Roma, 1959), o pensador angolano, na esteira de Frantz Fanon, reflecte sobre a problemática da Unidade de África, o Estado Federal Africano concebido por KwameNkrumah e Cheikh Anta Diop, as relações Europa-África no período pós-colonial e os efeitos da política colonial portuguesa. Segundo Viriato, o negro seria “sempre um assimilado”; nesta condição, ele tenderia a mostrar-se apto para adoptar os valores culturais do Ocidente em detrimento da cultura do seu povo. Pelo que, havia necessidade de vigiar a “a operação de enxerto da cultura ocidental” que condicionava (e ainda condiciona) o Africano que, forçado a frequentar os estudos superiores na Europa, adoptava formas de expressão tipicamente europeias. Uma vez que o ensino colonial se ajustava aos propósitos coloniais e não correspondia a realidade africana, e convencido da inevitabilidade da conquista da independência pelas então colónias, impunha-se a necessidade imperiosa de criar um sistema de ensino que estivesse ajustado à realidade dos países africanos. O intelectual angolano afirmava que as «nossas» instituições de ensino tinham grande dificuldade em afirmar-se como centros de produção de conhecimento e que limitavam-se a reproduzi-lo. Pois, conforme afirmava um adepto da colonização, em África, o ensino era acima de tudo “uma questão política”. Se pensarmos na banalização do ensino superior em Angola consubstanciada, entre outros exemplos, na improdutividade científica das “fábricas” que anualmente outorgam diplomas universitários aos estudantes,e que tais “fábricas de diplomas” são incapazes de “atrair estudantes africanos”, chegaremos a conclusão de que o pensamento de Viriato da Cruz permanece actual e que deveria suscitar reflexões entre os jovens estudantes (e não só) sobre as suas “responsabilidades” no processo de desenvolvimento científico e cultural do nosso Pais. Sobre a poesia de Viriato, o ensaísta Filinto Elísio de Menezes considera- a de “genuinamente angolana”; Mário António refere que ela foi profundamente marcada pelo sentido de “descoberta” que norteou o movimento “Vamos Descobrir Angola” encabeçado pelo ilustre poeta angolano. Estamos assim diante de um poeta “consagrado” – expressão usada por Fernando Mourão para qualifica-lo – que deixou as suas impressões digitais na construção do “edifício literário angolano” e no movimento nacionalista que teve inicialmente como arma de combate ao colonialismo a Literatura Angolana de que foi “o seu máximo expoente poético”, conforme assinala Francisco Soares. Este texto, escrito a pedido do professor e crítico literário Francisco Soares, deveria ser curto. Contudo, em função da admiração que tenho por Viriato, senti-me incapaz de encurtá-lo. Na verdade, há ainda muitos aspectos sobre esta figura cultural e política que permanecem desconhecidos e que poderão deixar de o ser quando o seu processo for aberto pelas autoridades chinesas. Todavia, o poeta já tem garantida a sua imortalidade com a transformação, em música, de alguns dos seus poemas, como Namoro, que continua e continuará a ser declamado.

Mandei-lhe uma carta em papel perfumado e com a letra bonita eu disse ela tinha um sorrir luminoso tão quente e gaiato como o sol de Novembro brincando de artista nas acácias floridas espalhando diamantes na fímbria do mar e dando calor ao sumo das mangas. sua pele macia – era sumaúma… Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas tão rijo e tão doce – como o maboque… Seu seios laranjas – laranjas do Loge seus dentes… – marfim… Mandei-lhe uma carta e ela disse que não. Mandei-lhe um cartão que o Maninjo tipografou: “Por ti sofre o meu coração” Num canto – SIM, noutro canto – NÃO E ela o canto do NÃO dobrou. Mandei-lhe um cartão que o Maninjo tipografou: “Por ti sofre o meu coração” Num canto – SIM, noutro canto – NÃO E ela o canto do NÃO dobrou. Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete pedindo rogando de joelhos no chão pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigénia, me desse a ventura do seu namoro… E ela disse que não. Levei à avó Chica, quimbanda de fama a areia da marca que o seu pé deixou para que fi zesse um feitiço forte e seguro que nela nascesse um amor como o meu… E o feitiço falhou. Esperei-a de tarde, à porta da fábrica, ofertei-lhe um colar e um anel e um broche, paguei-lhe doces na calçada da Missão, ficamos num banco do largo da Estátua, afaguei-lhe as mãos… falei-lhe de amor… e ela disse que não. Andei barbado, sujo, e descalço, como um mona-ngamba. Procuraram por mim “ – Não viu…(ai, não viu…?) Não viu Benjamim?” E perdido me deram no morro da Samba. E para me distrair levaram-me ao baile do sô Januário mas ela lá estava num canto a rir contando o meu caso às moças mais lindas do Bairro Operário Tocaram uma rumba dancei com ela e num passo maluco voamos na sala qual uma estrela riscando o céu! E a malta gritou: “Aí Benjamim!” Olhei-a nos olhos – sorriu para mim pedi-lhe um beijo – e ela disse que sim.

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