Sonho não morre com a noite

“Saber perdurar / O sonho / Para além dos limites / Da noite”. Começa assim o poema “Sabedoria”, de António Pitra Neto, dedicado à Mulher, a “Feliz Raridade” que dá título ao seu primeiro livro de poesia. Há momentos em que algumas palavras nos chocam, provocam, nos mostram que a noite pode ser bem mais longa do que o esperado e, sobretudo, que não a controlamos, não sabemos quando terminará, mas terá de haver sonho a seguir, para amar, para construir, para receber uma nova noite. O Sonho não morre com a noite. O importante porém, aquilo que é absolutamente essencial é manter a capacidade de sonhar, de realizar. E de sonhar sempre pelos outros, como a mulher luta e sonha pelos seus fi lhos. Num país em que se mata a poesia todos os dias, em que nos confrontam com a dureza da realidade para dizer que dela não há escapatória, que a aridez de ideias e de sonhos é tudo o que existe, e que, para os mais loucos delírios existe espaço, então, há que saber perdurar o sonho. Não com slogans revolucionários tirados de uma qualquer cartilha propagandista, não com a vã tentativa de substituição de uma religião por outra, construindo sobre as anteriores novas catedrais, mas abrindo alas aos sonhos de todos os cidadãos, de todos os corações, ou a vida, simplesmente não se realiza, porque sucumbe com a noite.

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