Toni Morrison é eterna

Toni Morrison pertence à Eternidade. O mundo da literatura perdeu no dia 5 de Agosto uma das suas figuras mais finas, os Estados Unidos e os negros a sua representante feminina mais reconhecida. Sentiremos a ausência da sua voz íntima profundamente. Nessa voz havia a capacidade de exprimir a Liberdade, ela entendia a violência da opressão. A tristeza com a qual recebemos o anúncio da sua morte provocou também o que a morte geralmente sabe produzir: uniu todos aqueles que entendiam o sentido dessa sua voz íntima além das páginas dos seus livros. Toni Morrison sabia como falar sobre a odisseia do Negro através da memória e da herança do Negro americano. O comércio transatlântico de escravos. A escravatura. A Guerra de Secessão. A segregação e as linchagens. As lutas de resistência e a libertação levadas a cabo pelo Negro americano em todos os momentos. Ela fez com os seus romances o que W.E.B. Du Bois fez com os seus ensaios, especialmente As Almas da Gente Negra (Th e Souls of Black Folk), uma leitura obrigatória. Uma das maiores contribuições de Toni Morrison para a literatura foi a visão caleidoscópica com a qual via os negros e a rigorosa compaixão com que descrevia os personagens negros. Escolheu escrever somente dentro do rico campo das experiências negras. Em 2015, ela confessou ao jornal Th e Guardian que escrevia para negros, « da mesma forma que Tolstoi não escrevia para mim quando eu tinha 14 anos de idade em Ohio », e assumiu que não se sentia mal ou limitada com isso. Mas há personagens brancos nos seus livros; escreveu páginas inesquecíveis sobre o « olhar branco » que paira sobre tantos Afro-amerirICArDO vITA* canos. Essa resposta foi simplesmente a sua maneira para dizer que não esperava nenhuma aprovação de nenhum crítico branco. Também revelou no programa de Charlie Rose que aprendeu a assumir a « centralidade da sua raça » com escritores africanos como Chinua Achebe, daí também as cadências da tradição oral africana na sua prosa. Passou toda a sua vida de escritora a tentar ter a certeza de que o personagem branco não fosse dominante em nenhum dos seus livros. Porque o contrário seria afi rmar que as vidas negras não contam ou não têm profundidade sem personagens brancos. Ela não precisava ser consumida nem se preocupar com o personagem branco e isso foi libertador para ela. « Agora podemos ocupar o ofício da escrita no qual os negros falarão aos negros », disse um dia. E marcou a sua soberania, a sua autoridade como uma escritora racializada imediatamente com o primeiro livro, Th e Bluest Eye (O olho mais azul). Toni Morrison era livre e tinha um nível de liberdade que poucos de nós alcançaram. A sua era a liberdade que negava a negação da Liberdade, como a Négritude de Césaire que negava a negação do Negro. Tudo em Toni Morrison era nobreza. O seu cabelo era a dignidade e a sua voz a da guerreira redentora. Os negros do mundo inteiro perderam uma mãe na literatura. Uma mãe livre e emancipada que queria também libertar os seus fi lhos, porque a Liberdade era o seu valor fundamental. Toni Morrison era a consciência negra, a contadora da sua verdade. Com ela sempre foi necessário transmitir a cultura, a identidade e o sentimento de pertença, de pais para fi lhos e de pais para netos. Estas ligações geracionais formam para ela as únicas cadeias salutares da experiência humana. Com ela, aprendemos também a ver o papel fundamental que as mulheres negras desempenham na sobrevivência da sua comunidade. Como Calibã, na Tempestade de Shakespeare, ela entendeu o poder das palavras e estudou pacientemente para possuir plenamente a língua com a qual o seu povo é oprimido. E será nesta língua que ela falará poderosamente para também amaldiçoar. Perdemos a nossa mãe. Mas antes despertou- nos, educou-nos e ajudounos a lidar com as nossas feridas mais profundas. E toda a sua vida foi guiada por este desejo de alcançar uma Liberdade maior, para o nosso benefício, e para criar uma Black Conscience. Antes de publicar o seu primeiro romance, aos 39 anos de idade, lutou para promover escritores negros, incluindo activistas do Partido dos Panteras Negras como Angela Davis e Huey P. Newton, na editora Random House onde foi a primeira O PAÍS Sexta-feira, 16 de Agosto de 2019 31 negra a ocupar uma função editorial. Em 1974 coordenou e editou Th e Black Book, uma colectânea de história e cultura negras. O livro é um testemunho da sabedoria, força e perseverança de homens e mulheres negros empenhados na Liberdade. O volume é composto de recortes profusamente ilustrados que abrangem três séculos de história afro-americana; reproduzindo recortes de jornais, fotografi as, anúncios, folhetos e similares. Começou a escrever em 1970 e produziu obras de vários gêneros: romances, contos, ensaios, artigos, música, literatura para crianças. Publicou onze romances, entre 1970 e 2015, e ganhou todos os prêmios. A sua escrita única e incomparável permaneceu ancorada na narração das experiências moldadas pela história e o seu extraordinário e singular percurso culminou em 1993 com a mais alta das recompensas desta arte: o Prêmio Nobel de Literatura. Foi a primeira Afro-americana e a segunda mulher dos Estados Unidos a ganhar este prêmio. Continuou a escrever e a ensinar a literatura em prestigiosas universidades como Princeton. Tornou-se uma crítica literária infl uente enquanto também produzia artigos e ensaios importantes. Descobri Toni Morrison através de Beloved (Amada), a sua obra-prima, que ganhou o Prêmio Pulitzer em 1988, que li vorazmente em Inglês, e que ainda me recorda os meus anos na Sorbonne onde a minha consciência se consolidava procurando respostas nos bons livros; santos e profanos. O romance conta a história de Sethe e a sua fi lha mais nova Denver após a sua fuga da escravatura. Os outros seguiram, em ordem, Th e Bluest Eye (O olho mais azul), um livro que conta a triste vida da pequena Pecola Breedlove que pensa ser feia e que reza todas as noites pela única coisa que poria fi m ao seu sofrimento: ter olhos azuis. Sula é sobre o regresso de uma jovem escandalosamente sedutora à sua terra natal e o ostracismo que enfrenta lá. Song of Solomon é uma viagem sobre a busca de identidade. Tar Baby, o seu quarto romance, trata de questões de preconceito racial e de classe entre os negros. Jazz é um romance histórico e a segunda parte da trilogia que escreveu sobre a história dos Afro-americanos, que começa com Beloved (Amada) e termina com Paradise (Paraíso). Mas nunca terminei Paradise (Paraíso). Não comprei Love (Amor) nem A Mercy ou Home (Voltar para casa) e ninguém me ofereceu God Help the Child. Arrependo-me por este atraso, porque tinha encontrado respostas nos textos que li e me identifi quei imediatamente com a Toni Morrison porque me pareceu honesta e proba. Não me mentia. A sua morte lembroume da ternura e do respeito que tenho por ela e decidi reler todos os seus livros. Todas as honras e homenagens que Toni Morrison recebeu são justificadas. A nossa gratidão deve ser infinita por ela ter vivido até 88 anos de idade. Também lhe agradeço por ter compilado e publicado os melhores ensaios de James Baldwin, outra voz negra indispensável. E é com deferência que exprimo aqui a minha gratidão por sua existência, e di-lo-ei com uma expressão agradável da sua língua: Thank you, Madam

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