Desemprego entre as principais aflições dos jovens do Nzeto

As dificuldades de acesso ao emprego acrescidas de dificuldades de criação de empresas e as débeis condições sociais, com maior realce para o acesso ao ensino superior, estão entre as principais preocupações dos jovens do Nzeto.

Texto de Maria Teixeira, enviada ao Nzeto
Fotos de Virgílio Pinto

A escassez de empregos e os critérios exigidos aos candidatados a ocupar as poucas vagas disponíveis para essa parcela do território nacional estão a causar frustrações aos seus habitantes em idade produtiva, ao ponto de muitos enveredarem para a criminalidade.

As pessoas que enfrentam essa situação descrevem o actual estado desse município como sendo desolador, ante as potencialidades de que o mesmo dispõe, e clamam que as autoridades competentes melhorem a qualidade dos serviços básicos a que têm direito.

Para os nossos interlocutores, a vida na vila do Nzeto chega a ser “aborrecida”, quase sem alternativa para os jovens, o que os tem levado a ocupar os seus tempos livres com banalidades, impulsionando assim a adesão ao mundo da criminalidade. O estudante Paulo António Estrela, residente no Nzeto há mais de 10 anos, conta que, apesar de a cidade ser bastante calma, tem

muitos problemas. Facto esse que tem contribuído para que muitos jovens emigrem após concluírem o ensino médio. Há quem o faz mesmo antes mesmo de concluir esse nível de formação. De acordo com o nosso interlocutor, depois de concluírem o segundo ciclo, as pessoas vêmse forçadas a proceder de tal maneira, na ânsia de conseguirem emprego ou de darem continuidade aos estudos ingressando no ensino superior. “Viver aqui requer muita paciência. Tudo está parado.

Não há universidade e só estudamos até ao 2º ciclo. Ao concluirmos a 12ª classe somos obrigados a partir para Luanda ou para o Soyo, a fim de dar continuidade aos estudos ou trabalhar”, frisou. Em seu entender, não restam dúvidas de que a falta de emprego tem contribuído para esta ociosidade, uma vez que nem locais para os integrantes dessa franja da sociedade se divertirem o município tem.

Contou que quando há algum concurso público no município, a preferência recai para os indivíduos que mantêm qualquer vínculo com as pessoas que estão envolvidas na sua realização ou próximas delas. Razão pela qual os considera como meras “fachadas”, o que tem de acabar. Pedem a intervenção dos empresários .

O estudante apela aos empresários que invistam também nesse município e apostem principalmente nos jovens, com vista a contribuírem para a redução da taxa de desemprego que tende a crescer nos últimos anos. Na esperança de convencer os potenciais investidores, descreveu que as principais vias de acesso ao município estão em bom estado de conservação, pelo que os que vierem não enfrentarão constrangimentos para instalarem os seus empreendimentos.

Já José Tati Biela, de 33 anos, que sempre viveu no Nzeto, diz que tem sido bom viver nesse município por proporcionar aos seus habitantes um bom clima para estudar por ser calmo, no entanto, reconhece que faltam muitas coisas para prender os jovens talentosos e habilidosos. A escassez de um dos bens de primeira necessidade que o inquieta é a falta de água canalizada, o que os tem levado a consumirem água turva.

“Gostaríamos de ter ajuda da Administração ou do Governo Provincial nesse sentido. Que aumentassem a rede escolar porque só temos uma do 2º ciclo que não é grande coisa”, apelou. Para ele, a juventude só enfrenta tais problemas porque o Governo local nunca levou em consideração as opiniões dos representantes dessa franja da sociedade. Joana Fimba, camponesa que se dedica à produção de hortícolas, diz que têm registado elevados prejuízos devido às dificuldades que enfrentam para escoar os produtos para Mbanza Kongo, o mercado preferencial.

A nossa interlocutora enfatizou que as vias de comunicação em bom estado de transitabilidade concorrem para o desenvolvimento de qualquer região e no combate à pobreza. Por isso, juntou- se aos demais clamando pelo cumprimento da promessa, já bastante antiga, de reabilitação das vias de acesso ao interior do município.

“Não temos crianças fora do ensino escolar”

Por sua vez, um quadro da Administração local, que não quis ser identificado, garantiu que não existem crianças em idade escolar fora do sistema nem falta de professores ou salas de aulas. Quanto à água, explicou estar em fase experimental um sistema de distribuição. Tem em carteira um projecto para suprir essa lacuna que está integrado no Plano Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM) que vai arrancar em breve.

“Mas para não ficarmos parados, estamos a dar continuidade ao processo a nível local. Recentemente fizemos os primeiros ensaios e já chegou água até aqui na cidade. Por causa de algumas rupturas causadas pelas obras realizadas nas estradas, temos de fazer alguns ajustes”, contou.

Refúgio dos criminosos de Luanda

Um dos factores que têm contribuído para o aumento da criminalidade é a densidade populacional. Sublinhando, no entanto, que os praticantes destes actos são provenientes de outras províncias como Luanda, que ali se refugiam por algum tempo, de acordo com a nossa fonte.

“Além de outros problemas, a nossa cidade é limpa e estamos a lutar com o saneamento básico. A empresa encarregue da limpeza, apesar de alguns pagamentos em atraso, tem feito esforços para que tudo se mantenha, tendo em atenção que a higiene é saúde e se mantivermos a nossa cidade limpa evitaremos muitos problemas nesse sentido”, disse.

Por outro lado, fez saber que a doença que mais afecta a população do Nzeto é a malária. Na esperança de obter mais informações sobre os planos do Governo local para satisfazer as necessidades básicas descritas pelo nosso interlocutor, OPAÍS contactou o administrador do Nzeto, mas ele recusou-se a falar. Situado a 230 quilómetros da cidade de Mbanza Kongo, o município do Nzeto tem uma população estimada em 47 habitantes.

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