A maioria das doenças angolanas são tropicais negligenciadas

As doenças tropicais negligenciadas representam o maior número de patologias que o país tem, mas segundo Filomeno Fortes, especialista em malária e doenças tropicais, o quadro pode ser melhorado se “tivermos uma equipa de especialistas que entenda, do ponto de vista técnico, clínico e laboratorial, como gerir tais enfermidades”

Filomeno Fortes, eleito director do Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT) de Portugal, que falava ontem durante o acto de homenagem em sua honra, promovido pela Universidade Privada de Angola (UPRA), em Luanda, aponta as políticas de saúde pública e de formação de quadros como sendo as prioridades enquanto estiver em Portugal. No que diz respeito à questão da malária, o especialista angolano vai negociar com a entidade que estiver a implementar a vacina em África para ver se há condições para aplicá-la em Angola, pois acredita que se não houver uma vacina eficaz, a malária não será erradicada do mundo. É de opinião que se deve reforçar as acções de luta antivectorial, pelo que se encarrega de reforçar os estudos para a utilização do produto larvicida (para matar larvas). Segundo o especialista, o país tem que melhorar os diagnósticos entre as várias doenças que causam febre, tendo em conta que nem tudo é malária, pelo facto deve-se criar condições humanas e laboratoriais. Para se erradicar determinadas patologias, como a malária, por exemplo, o maior impasse é a pobreza, sendo que a nível do continente africano, “a maior parte dos países estão em via de desenvolvimento e o investimento na investigação é muito baixo, assim como a parte do Orçamento Geral do Estado atribuído à Saúde e ao ensino superior, ciências e tecnologia está longe de ter um nível desejado”. Não há cultura de pesquisa nos países africanos, segundo Filomeno Fortes, isto sem esquecer que se precisa de políticas de saúde que incentivem a investigação.

Insuficiência de financiamento para a investigação

O secretário de Estado para o Ensino Superior, Eugénio Silva, afirmou que foi feita uma justa homenagem ao professor Filomeno Fortes, pelo facto de se destacar como cientista e investigador, sendo que a sua carreira tem sido dedicada à ciência, microbiologia e investigação das doenças tropicais. Explicou que a investigação científica no país, que é feita nas universidades e centros de investigação, tem tido dificuldades de se expressar devido à insuficiência de financiamento.

Actualmente, o Ministério do Ensino Superior Ciência, Tecnologia e Inovação está a avaliar um conjunto de projectos de várias áreas, entre as quais na agricultura e saúde, que foram submetidos ao abrigo de um edital para financiamento em matéria de investigação científica. Acredita que o maior problema não é a falta de financiamento, mas sim a iniciativa dos que podem ser promotores, sendo que terão de submeter projectos. “Isto, sim, justificará o aumento dessas verbas, porque nós podemos argumentar que não há projectos porque não há financiamentos e, do outro lado, também posso dizer que não aparecem financiamentos porque não há projectos ”, frisou Eugénio Silva.

Pelo que, os investigadores, cientistas, membros das equipas dos centros de investigação das universidades, ministérios, devem justificar a necessidade de existência de financiamento com a elaboração e apresentação de projectos. A problemática é cíclica e a resolução passa por, de um lado haver projectos, e, do outro, financiamento. Segundo Eugénio Silva, de maneira a evitar a fuga de quadros, deve-se apetrechar os laboratórios e centros de investigação e criar as condições necessárias para se fazer investigação científica dentro dos padrões internacionalmente exigidos. As instituições que o país tem fazem algum trabalho, mas em alguns casos as dificuldades prendem-se com a escassez dos reagentes, materiais e equipamentos.

O Estado tem feito um esforço para, paulatinamente, adquirir o material e o equipamento, “é preciso aumentar ou reforçar o investimento na investigação científica, não só a contar com o OGE, mas também a contar com as verbas e financiamentos disponíveis por parte de organizações internacionais”, rematou.

error: Content is protected !!