“Políticas pouco assertivas não ajudam agropecuária no Cuanza-Norte”

A multiplicação de pontos de venda de produtos originários do campo, preferencialmente à beira das estradas, transformou a província do Cuanza-norte, de “potência agropecuária”, a território dependente, o que fez das pessoas cidadãos cada vez mais pobres

Especialistas na província convergem ao considerarem que a “ânsia pelo lucro imediato” e procura de solução para as necessidades de sobrevivência retirou mão-deobra aos campos, concentrando um significativo número de cidadãos em idade produtiva no negócio da revenda de manufacturados industriais em detrimento de projectos agropecuários.

A província do Cuanza-Norte compreende uma extensão territorial de 24 mil 110 quilómetros quadrados e uma população estimada em 427 mil 971 habitantes, distribuídos em 10 municípios e 34 comunas. A região é potencialmente agrícola, com grandes extensões de terras aráveis e recursos hídricos garantidos pelos rios Cuanza e Lucala, e mais outros tantos cursos de média e pequenas dimen- André MuSSAMo sões, o que proporciona a esta circunscrição de Angola uma tradição na produção em grande escala da mandioca, feijão, batata-doce e rena, inhame, milho, café, banana, citrinos, palmares, amendoim, entre outros produtos.

O Planalto de Camabatela, um dos maiores e melhores territórios para a prática da agropecuária no país, que se estende pelos municípios de Ambaca e Samba Cajú e prolonga-se até às vizinhas províncias de Malanje e Uíge, é um “tigre de papel” há muito adormecido e, por vezes, sombra de si mesmo, apesar dos programas gizados e investimentos realizados. António Sousa, um engenheiro agrário especializado em extensionismo rural, considera que a “pobreza extrema” e a procura de solução para as necessidades primárias são o “inimigo número um” para as comunidades que perderam a crença na agricultura. “Se a intenção é absorver a enorme mão-de-obra ociosa que prefere vender pacotinhos de álcool,alimentos enlatados e todas outras futilidades, as comunidades rurais devem ser transformadas em zonas agradáveis e boas de se viver”, comentou o agrónomo.

Para ele, têm estado a faltar políticas de Estado capazes de levar insumos e inputs para animar a vida do campesinato e incentivá-lo pacientemente em “desmatar, cultivar, cuidar e depois vender o excedente”. O especialista não critica as grandes fazendas, mas acredita que, para o relançamento da agropecuária na província, “a chave está nas famílias com a sua pequena produção, pelo que têm faltado políticas acertivas, o que não ajuda principalmente a agropecuária”. A província do Cuanza-Norte para voltar a ser um grande produtor agrícola precisa de políticas sistematizadas e continuadas que passam pelo apoio à agricultura familiar com modernos métodos de produção. Os municípios tradicionais produtores do bago vermelho; Bolongongo , Banga e Quiculungo, ainda enfrentam a problemática dos acessos rodoviários, servidos que estão de estradas de terra batida com pontes e pontecos que datam ainda do período colonial. Pelas mesmas razões Ngonguembo (fronteira com Bengo) podia dar ar da sua graça se não enfrentasse os mesmos problemas de falta de acessos, infra-estruturas de base como a electricidade e serviços públicos.

A província é igualmente potencial na criação de gado bovino, caprino, suíno e ovino, sobretudo nos municípios de Ambaca e Cambambe. O fazendeiro António Domingos, que está a desenvolver um projecto agropecuário denominado LUCALAGRO, coloca acento tónico na necessidade de formação de quadros. Para ele, não se consegue alavancar o sector agrícola se não houver aposta na qualidade dos técnicos que deviam servir de suporte à mudança que se impõe entre o cultivo semi-rudimentar para métodos e metodologias mais modernas. O fazendeiro, a título de exemplo, critica a fraqueza das instituições de formação na região. “Olhemos para os Institutos Médios Agrários (IMA) que temos na região. Pergunto, quantos daqueles meninos terminaram a formação fazendo algumas horas ao volante de um tractor? Acredito que muitos nem sequer estiveram ao lado de uma dessas máquinas”, questionou.

A formação a nível do ensino não universitário devia dar habilidades e competências aos formandos e induzi-los a olhar para as adversidades do campo como desafios a vencer e não barreiras que forçam o êxodo massivo em busca de emprego no conforto dos escritórios. Na região composta pelas províncias do Cuanza-Norte, Uíge e Malanje estão instalados três Institutos Médios Agrários (IMA), nomeadamente um em Camuaxi (arredores de Ndalatando), no Quéssua (arredores da cidade de Malanje e nos arredores do município do Negage (província do Uíge). As instituições foram exactamente concebidas como caminho para alavancar a agropecuária, mas passados uns bons anos os resultados parecem demorar.

O director do projecto LUCALAGRO critica as opções políticas e apela a uma tomada de decisão corajosa para instalar-se na província um projecto de desenvolvimento agropecuário sustentável capaz de gerar valências para que, no mínimo dentro de dez anos, possa começar a colheita dos frutos.

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