“Essa crise que estamos a viver é consequência do intervencionismo”

A contratação do bM para o processo de privatização, o concurso público sobre o direito mineiro e o prejuízo de AKZ 100 mil milhões de seis bancos foram destaques no espaço economia real da rádio Mais (99.1), emitido todas as terças-feiras, às 11 horas

Voltamos às privatizações. O Banco Mundial está contratado para consultoria ao processo. Qual é a sua opinião?

É importante lembrar que nós, Programa Economia Real, fomos pioneiros na defesa da privatização, em 2016. Em 2015, por exemplo, fui a debate numa universidade e quase fui atacado por economistas mais velhos, os tradicionais da nossa praça, quando defendia que a privatização era a solução para a saída da nossa crise, quando falava do Estado mínimo e da liberalização do mercado. Chamaram-me vários nomes, afinal estava adiantado no meu tempo. E o interessante é que os partidos políticos colocaram nos seus programas eleitorais em 2017. Tudo o que eu pregava é o que está a acontecer e os economistas da época também mudaram de abordagem.

Consultoria do Banco Mundial é boa ou não?

A consultoria em Angola tornou cultura nos processos. Não é novidade. Todos os documentos elaborados até ao momento resultaram de consultorias: Plano Intercalar, Programa de Estabilidade Macroeconómica, PRODESI, Programa de Desenvolvimento Nacional e outros. A nossa balança de serviços, na balança de pagamento, tem sido negativa desde 1975, por causa de consultoria externa, porque são divisas que exportamos por essa via. Não temos aproveitado as universidades que temos para fazer estudos e programas para o desenvolvimento do país. O plano de formação de quadros não está virado para a substituição da consultoria externa. Há 40 anos que não criamos essas condições.

 Toda a consultoria externa é perversa?

Não estou a dizer todas ou menos. A questão que se coloca é a necessidade de analisarmos o capital humano nacional. Passados 40 anos não temos capacidade de desenvolver consultoria, fazer análise! Quando é que a nossa balança de serviço será positiva? Mas é necessário lembrar que os países que tiveram sucesso em Árica, no processo de privatização, não tiveram o BM na consultoria. Falo do Botswana, Ilhas Maurícias, Rwanda.

Que inventário se pode fazer sobre os prejuízos do intervencionismo do Estado na economia ao longo desses anos?

Primeiro devo dizer que estamos a privatizar porque não temos dinheiro. Se a produção de petróleo fosse um milhão de barris, com o preço a 80 dólares, essa ideia de privatização não surgiria. Os intervencionistas acabam quando acaba o dinheiro dos outros. E quando já não têm dinheiro é que vão para economia de mercado. Os economistas que estão na equipa económica não amam a privatização, estão a privatizar não por amor, mas porque não há dinheiro. Agora, as consequências são visíveis. Essa crise que estamos a viver é consequência do intervencionismo. Quando saímos do conflito miliar, em 2002, viramos para a matriz de consumo keynesiana, qual é o economista que defendeu o contrário? Todos apoiaram e sustentamos a ideia de Agostinho Neto, segundo a qual, “o mais importante é resolver o problema do povo”. Quer dizer que o povo é criança e o Estado o mais velho.

O Governo lança no dia 27 deste mês o concurso público do direito mineiro, qual é a sua expectativa?

Vai servir para mostrar ao mundo as vantagens de investir no sector das minas em Angola. Uma das novidades que ressalta à vista aqui é o facto de que a maior parte das províncias ricas em mineiros está no Norte. Penso que um dos desafios será rever os custos altos de produção, sendo os transportes, energia e água factores decisivos nessa indústria. Em resumo, o ambiente de negócios e a competitividade devem ser estimulados. A carga tributária será a bandeira fundamental durante o roadshow que se vai efectuar.

O visto de trabalho e para investidores passa a ser emitido em 15 dias, ao contrário dos 30 anteriores. Julga atractiva esta medida?

Não. Ainda é muito tempo. Seriam quatro dias. Angola é um país com muitas necessidades e não pode dar-se ao luxo de perder investidores por causa de vistos, na medida em que temos problemas em quase todos os sectores. Se atrair investidores já está difícil, tornase mais difícil a emitir o visto? Não tem sentido.

 Mas a redução foi pela metade. Durava 30 dias.

Devia ser reduzido para cinco. Temos que perceber por que os consulados não são eficientes. Estamos a pagar o preço de fechar a nossa economia, temos de abrir para entrar dinheiro e conhecimento para nos desenvolvermos.

O presidente da Câmara de Comércio Angola/China defende ainda a desburocratização de outros processos, entre Luanda e Pequim, alertando que anualmente transacionam 30 mil milhões de dólares.

A China é um parceiro económico e comercial muito forte de Angola, devíamos ter um tratamento diferente. Angola não vai se desenvolver sem divisas e sem investimento directo estrangeiro.

Os lucros de seis importantes bancos registaram perdas globais de 273 milhões de dólares em seis meses. Estamos perante que cenário?

Comparado com o mesmo período do ano passado, afundou em 28%, avaliado em mais de 100 mil milhões de kwanzas. O mais grave é que não se trata de bancos pequenos. Entretanto, se há essa redução nesses bancos, significa haver três elementos fundamentais: primeiro, já previmos que haveria quebra dos lucros, por cauda da deterioração da situação económico-financeira que o país está a viver; a rigidez das políticas do BNA e o aumento da inflação. Quando os bancos deixam de fazer lucros a economia afunda. Haverá restrição de crédito à economia, e sem crédito a economia não sai da crise.

error: Content is protected !!