É (ainda) possível perguntar se a colonização foi assim tão má?

 

 

Por: Ricardo Vita 

Contrariamente à opinião de alguns animadores da cena cultural de Angola, por quem tenho respeito, a despeito do que segue, e além da forte repugnância que ainda se pode sentir ao reconhecer a barbárie que a colonização foi, creio que uma posição que afi rma ser intelectual deve ser livre de emoção para ser notável pelo seu raciocínio. Não é que eu esteja tentado a sacrifi car o grande princípio da liberdade de expressão ou a desacreditar o mérito do conhecido jornalista e poeta em questão, não é que a sua posição seja ilegítima aos meus olhos, mas não podemos esquecer que a primeira função do intelectual é pensar. A função pode ter a virtude de pensar bem ou o defeito de pensar mal. Foram intelectuais eminentes que teorizaram e defenderam a escravatura e a colonização. No estado actual do debate sobre a colonização em Angola, e com os justos motivos que este senhor tem para fazer o seu balanço, começando por inquirir se a colonização foi algo tão mau, acho que seria sensato fazer um estudo clínico do facto colonial. De qualquer forma, e se for desta forma precisamente, seria inadequado pôr em causa as conclusões de cientistas reconhecidos. Isso não seria apenas uma atitude ultrajante, seria também um péssimo cálculo de posicionamento intelectual num dos países que sofreu até na sua alma a ira desse mal, a colonização. Seria degradante procurar transformar a colonização em uma questão puramente estética, sensacionalista, esquecendo o que ela foi realmente: um crime contra a humanidade, como é qualifi cada por vários historiadores e dirigentes corajosos como o actual presidente da França, Emmanuel Macron. E é já miserável o suficiente  saber disso. Inquirir se a colonização foi tão má assim é indigno, e nenhum intelectual africano sério chegou a este ponto. E mesmo os que tentaram, que deslizaram e caíram, porque imbuídos da sua ciência, não tocaram o fundo do precipício tão brutalmente. Mas entendemos a postura do senhor quando descreveu o seu habitual estado de espírito durante a entrevista onde abordou o assunto: confessou ser altamente radical na vida. Portanto, também é radical, à sua maneira, nesta importante questão da colonização. Em África, em certos meios, a tentação de também analisar o colonialismo sob um prisma selectivo é grande. Mas isso não é aceitável, seria como se procurássemos as coisas boas que o nazismo produziu. Nunca vimos um Alemão, fora dos neonazis, a afirmar que o nazismo não foi tão mau e nunca veremos um Judeu a dizer isto um dia. Então, da mesma forma que condenamos o nazismo como um todo, devemos também abominar o colonialismo como um todo, uma vez que aplicaram os mesmos métodos, como Aimé Césaire demonstrou claramente no Discurso sobre o Colonialismo. E mais ainda do nosso lado, o lado das vítimas, pouco importa o nosso altruísmo ou a proximidade que temos com o país do nosso ex-colonizador. Pois seria irresponsável criar dúvidas nas mentes dos Angolanos sobre este assunto. « Da colonização à civilização a distancia é infinita; que, de todas as expedições coloniais acumuladas, de todos os estatutos coloniais elaborados, de todas as circulares ministeriais expedidas, é impossível resultar um só valor humano », escreveu Césaire. A colonização tem de ser repensada, disse também o senhor na entrevista, este pode ser o ponto em que devemos concordar com ele e começaremos por responder a sua questão. Porque, no sentido que nos diz respeito, a colonização refere-se à conquista pela força de territórios, ocupando-os para explorar as suas riquezas naturais e humanas. A Europa impôs a sua soberania sobre nós apoiandose oficialmente com a afirmação da existência de raças humanas e da superioridade da « raça branca ». A escravatura, baseada na supremacia branca sobre o negro, foi legal e ofi cialmente encorajada nas colónias e o trabalho forçado foi oficializado. E isso foi imposto pela força militar e sem o nosso consentimento. Ouçamos novamente Aimé Césaire que nos dirá o que foi realmente a colonização: « Entre colonizador e colonizado, só há lugar para o trabalho forçado, a intimidação, a pressão, a polícia, o roubo, o estupro, as culturas obrigatórias, o desprezo, a desconfi ança, a arrogância, a sufi ciência, a grosseria, as elites descerebradas, as massas degradadas. Nenhum contacto humano, mas relações de dominação e submissão que transformam o homem colonizador em criado, ajudante, comitre, chicote e o homem indígena em instrumento de produção. É a minha vez de enunciar uma equação: colonização = coisificação. Ouço a tempestade. Falam me de progresso, « realizações », de doenças curadas, níveis de vida elevados acima de si próprios. Eu, eu falo de sociedades esvaziadas de si próprias, de culturas espezinhadas, de instituições minadas, de terras confiscadas, de religiões assassinadas, de magnificências artísticas aniquiladas, de extraordinárias possibilidades suprimidas. Lançam-me na cara factos, estatísticas, quilómetros de estradas, canais e caminhos de ferro. Mas eu falo de milhares de homens sacrifi cados no Congo-Oceano. Falo dos que, no momento em que escrevo, cavam à mão o porto de Abidjan. Falo de milhões de O PAÍS Sexta-feira, 23 de Agosto de 2019 19 homens arrancados aos seus deuses, às suas terras, aos seus hábitos, às suas vidas, à vida, à dança, à sabedoria. Falo de milhões de homens a quem inculcaram sabiamente o medo, o complexo de inferioridade, o tremor, a genufl exão, o desespero, o servilismo ». Foi assim que a colonização foi. E aqui ela é explicada por Césaire, um homem altamente formado, culto e que dedicou a vida inteira à defesa da dignidade humana. Lembremos que foi uma África espiritualmente forte, materialmente opulenta e civilizada que os Europeus encontraram no século XV. Foi uma África agonizante que vieram conquistar depois da hecatombe do tráfi co de escravos que orquestraram. E foi uma África destruída que nos devolveram depois da colonização, para continuar a desestabilizá-la de longe. Não sabe se a colonização foi assim tão má? Caro senhor, em Angola, quantos Angolanos a colonização formou convenientemente e quantas universidades construiu? A colonização é indefensável. Tentar humanizá-la ou criar dúvidas sobre a sua verdadeira natureza é desrespeitar o sacrifício e as memórias de milhões de homens, mulheres e crianças que foram submetidos ao trabalho forçado, chicoteados e que morreram de fome. É não reconhecer a resistência dos nossos antepassados, que foram decapitados e cujas aldeias foram queimadas por terem lutado contra a ocupação colonial. É verdade que se cita muito o carácter positivo da colonização por ignorância do passado. As infra-estruturas que a propaganda colonialista e saudosista diz que o Colono deixou foram realizadas para o benefício da colonização e foram construídas pelas mãos calosas dos nossos antepassados e anciãos; que foram requisitados ou deportados. Não foram nem doação, nem obras caritativas. É por isso que devemos honrar esses antepassados e anciãos que lutaram contra o colonialismo, que resistiram para que nós não conhecêssemos a escravatura, para que tivéssemos a vida que temos hoje. Em verdade, se soubéssemos o que a colonização foi realmente, preferiríamos hoje viver como vivemos; na miséria que denunciamos por desatino ou desespero, do que na exaltada e falsa opulência sob o jugo da dominação. Basta conversar com os nossos parentes que estão vivos (preciosas bibliotecas desvalorizadas!) e pedir-lhes para que contem como cantaram I Wish I Knew How It Would Feel to Be Free antes da Nina Simone divulgar esse pranto colectivo! Agora, cada um de nós é livre para dar o sentido que quiser dar à vida que tem hoje. Mas temos todos a obrigação de dar a homenagem devida à luta dos nossos antepassados e anciãos. Pois se há uma coisa que a colonização não destruiu é a nossa fé na vida e na cadeia que nos liga aos nossos anciãos e antepassados. Graças a eles. Não lutaram nem morreram por nada. E não lutaram para questionarmos hoje com jactância se o mal que combateram vigorosamente foi assim tão mau. O momento é o da retomada da obra, para continuar a reconquista da posse de nós mesmos, e não para formular questões espantosas ou confusas que querem ser profundas.

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