Boutique solidaria leva barbearia e roupas a moradores de rua na Praça da Independência

O projecto arrancou no dia de aniversário da cidade da Kianda (25 de Janeiro de 2018) e hoje anda na boca de muita gente. “Boutique Solidária” é uma iniciativa de um jovem angolano que quer fazer muito mais do que distribuir roupas e calçados usados

Boutique Solidária é uma iniciativa que se funda em conceito simples: recolher roupas, que alguns não precisam para oferecer a outros carentes delas. O que é “incómodo para uns pode ser a felicidade de outros”, esclarece o autor da iniciativa que diz ajudar de duas formas: uns a livrarem-se do que já não precisam para dar aos mais carentes. Jovem nascido nas terras da palanca negra e que cedo se mudou para Luanda. Aqui foi no desporto que mostrou os seus primeiros créditos.

E hoje soma e segue com uma acção de solidariedade que cresce em espiral. O mais recente feito é o apoio a 75 famílias pobres da comunidade do Zango, onde ele e sua equipa levaram roupas e calçados e colocou-as à disposição dos necessitados. “Chegamos, abrimos os atados e embrulhos contendo calçados e roupas e as pessoas, de livre iniciativa, escolhem e vestem”, comenta Figueira. Um vídeo produzido na ocasião tornou-se viral nas redes sociais e já ajudou a dar maior visibilidade a esta iniciativa.

Longe de estar satisfeito, o autor do projecto tem outros sonhos, dentre eles o de levar a iniciativa às restantes províncias de Angola. A cada primeiro Sábado do mês, o cubículo de umas inslatona torna-se pequeno para acolher as dezenas de famílias que para lá se deslocam em busca de algo para vestir e calçar. Dona Eva Zua ouviu falar da iniciativa por via da vizinhança e hoje é testemunha viva da “importância capital” da boutique. “Eu sou activista social. Trabalho para pessoas carentes e negligenciadas. Já trouxe para aqui mais de 10 famílias”, conta a mãe de quatro filhos que encontrou na boutique solidária um amparo e alívio apara as suas necessidades. “Você não vai acreditar que temos pessoas que param de ir a escola por falta de roupa e calçados. Este projecto está a ajudar muito”, revela Eva Zua.

O dia da nossa visita não era de distribuição de apoios, mas sim de preparação da próxima jornada, a ter lugar no próximo Sábado 7 de Setembro. Dona Eva é uma das pessoas que passaram pelo local para saber dos preparativos do próximo encontro. Mal tínhamos concluído a entrevista com Gilberto Figueira, mais uma interrupção. Chega um cidadão invisual, aconselhado por um jornalista através de um programa de rádio e auxiliado pelo filho. Irrompeu pela boutique adentro.

Exibe o estado da sola de seus sapatos e confessa que, apesar de estar aparentemente bem vestido, “sofro pelos quatro filhos que coloquei no mundo e agora sem capacidade de os sustentar”. “Também regresso no dia marcado, se bem que esperava já sair daqui com alguma coisa”, confessa o senhor que mais do que roupa clama por uma fonte sustentável para garantir sobrevivência aos seus.

Nem tudo é um mar de rosas

Como sempre, em pano branco também caiem nôdoas, e a Boutique Solidária não escapa das trapassas dos amigos do alheio e do lucro fácil. Pela cidade já pululam pessoas que, fazendose passar por membros do projecto, recolheram bens.

Outra falcatrua é a de pessoas que fazendo-se passar por carentes tentam surripiar bens para lhes dar outro destino, como foi o caso de uma senhora que em várias ocasiões fez-se acompanhar de menores declarando serem seus filhos só para recolher o maior número de roupas. Com estas e outras lições o projecto vai adaptando-se. “Hoje só se leva aquilo que serve no beneficiário. Ninguém leva para ninguém. Todos os interessados devem marcar presença”, garante Gilberto.

O facto da sede do projecto situar- se no Talatona é um handicap para muitas pessoas. “Tanto os que doam, como os que precisam de roupa têm na nossa localização um elemento impeditivo”. Conta que “muitos necessitados não têm como chegar ao Talatona”, assim como muitos que coleccionam atados de roupas e calçados não conseguem livrarse dos mesmos porque consideram o endereço do projecto como sendo “à esquerda”.

“Sonho com uma van”

Sonhador como sempre, Gilberto Figueira sonha com o dia em que uma mão caridosa vai disponibilizar para o projecto um meio de transporte. “De preferência uma van, ou um veículo que pudesse ser bem caracterizado e que fizesse o serviço de recolha e distribuição”. Considera o autor do projecto que o meio ajudaria na mobilidade tanto na recolha como na distribuição.

“Temos actividades em zonas recônditas e onde às vezes o meu pequeno veículo não tem capacidade de lá chegar. Sonho com o dia em que vamos ter um apoio neste sentido”, sentenciou. A Boutique Solidária está de volta às ruas de Luanda e desta feita de forma diferente. No dia 7 (primeiro Sábado de Setembro) realiza uma jornada de solidariedade para com moradores de rua no Largo da Independência. “Tencionamos levar roupa, calçados e barbeiros, para acalentar o dia daquelas pessoas. Um acto de higienização que passa por serviços de barbearia,roupas limpas e calçados pode ajudar a devolver a felicidade a estas pessoas, nem que seja apenas por alguns momentos.

É isso que vamos fazer”. Gilberto Figueira nasceu na cidade de Malanje e é praticante de andebol ligado ao club 1º de Agosto. Colecciona alguns títulos nacionais e internacionais. Licenciado em Ciências da Comunicação, é autor de dois livros: Liderança Desportiva, a realidade inspiradora do Clube Desportivo 1º de Agosto e Escola vs Desporto, como gerir este jogo?

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